Vivemos tempos em que a ética é repetidamente mencionada no discurso público. Questiona-se se determinado político agiu de forma ética ou se a sua conduta, tanto política como pessoal, pode ser considerada moralmente aceitável. No entanto, quanto mais se fala de ética, menos se percebe de ética.
O termo “ética” tem origem no grego ethiké, inicialmente relacionado com os costumes, os valores e a conduta moral. Na Antiguidade Grega, Aristóteles refletiu sobre a importância da ética na vida pública, associando-a ao conceito de eudaimonia, ou seja, uma vida boa e realizada. Ao longo da história, o significado da ética foi sendo moldado por diferentes pensadores, incluindo Paul Ricoeur, que a define com base em três princípios: o desejo de uma vida boa, com e para os outros, em instituições justas.
No que diz respeito ao desejo coletivo de uma vida boa com e para os outros, compreende-se a inspiração numa filosofia mais aristotélica. Agir eticamente envolve a reciprocidade entre sujeitos, a identificação da pessoa consigo própria e a liberdade – como um conceito que se multiplica.
Quanto às instituições, estas devem garantir direitos e deveres, seguindo a linha de John Rawls, a justiça é a virtude fundamental das instituições. A justiça apresenta-se como uma forma de igualdade. São as instituições que atribuem aos cidadãos um propósito e um sentido de responsabilidade, contudo, é preciso ter em conta que nem tudo o que é legal é, necessariamente, ético.
Transpondo todos estes conceitos e ideias para um modelo comum e exemplar de político, ou, na expressão de Ricoeur, “educador político”, este deve, segundo o filósofo, integrar a moderação e a prudência como virtudes essenciais na arte de governar. Ricoeur sublinha ainda que o educador político apenas consegue exercer eticamente a sua função quando for capaz de integrar estas virtudes e compreender que “a moral da convicção exerce uma pressão constante sobre a moral da responsabilidade”.
Neste meio século de democracia portuguesa, algo de que não nos podemos queixar é da falta de moderação – prudência, talvez não tanto. Portugal sempre foi liderado por partidos e políticos moderados – salvo raras exceções – e, até ao momento, nunca caiu na tentação dos extremos. Todavia, esta relativa estabilidade ideológica não tem sido capaz de acompanhar e fazer frente aos novos fenómenos de populismo e extremismo.
A moderação e a prudência devem ser conceitos flexíveis, preparados para evoluir com as mudanças políticas e sociais – não podem nem devem ser conceitos parados no tempo. Nos dias de hoje, as decisões políticas têm cada vez mais peso e a sua influência transpõe muitas vezes a natureza interna para a externa. Consequentemente, os atores políticos precisam de ter convicções. Ter convicções não significa ser radical, assim como a moderação não é sinónimo de ausência de ideias. A política exige decisões fundamentadas e coragem para concretizar mudanças estruturais, sem nunca perder de vista a responsabilidade inerente ao exercício do poder. Um político deve assumir-se.
Termino com um apelo: a ética não deve nem pode ser torturada como os números. É um conceito de difícil descrição, mas de fácil prática. Santo Agostinho, na sua obra Confissões, afirma que “Se ninguém me perguntar o que é o tempo, eu sei; mas se quiser explicar a quem me perguntar, já não sei.” Creio que esta reflexão se aplica também à ética: compreendemo-la na sua essência, mas tentamos defini-la de forma excessivamente teórica, quando, na realidade, deve ser vivida, sentida e aplicada com a maior coerência e integridade.