Na próxima terça-feira, os norte-americanos voltam às urnas dois anos depois de terem reelegido Donald Trump para a Casa Branca. Em 2024, Donald Trump conseguiu uma reeleição histórica, com maiorias nas duas câmaras do Congresso. Agora, tudo indica que lhe vão tirar pelo menos metade do Congresso. As previsões mais conservadoras dão aos democratas 80% de probabilidade de reconquistarem a Câmara dos Representantes, e Nate Silver, talvez o analista eleitoral mais lido do país, afirmou recentemente que a eleição parece estar fortemente inclinada para uma vitória democrata. Nas sondagens nacionais, os democratas vão quase nove pontos à frente, e a aprovação do Presidente anda pelos 37%, abaixo do que tinha por esta altura em 2018.
No Senado, a disputa entre democratas e republicanos está mais renhida. Os modelos dão aos democratas perto de 58% de probabilidade, e há académicos que continuam a apostar nos republicanos. Isto acontece porque o mapa eleitoral do Senado é difícil para os democratas: para obterem a maioria, precisam de ganhar não só nos estados tradicionalmente democratas, mas também em estados de inclinação mais conservadora, como o Texas, o Ohio e o Alasca, que Trump ganhou com folga há dois anos.
As eleições intercalares (midterms) calham a meio do mandato presidencial. O partido do Presidente costuma perder as intercalares, como aconteceu a Bill Clinton em 1994, a George W. Bush em 2006, a Barack Obama em 2010 e 2014, a Donald Trump em 2018 e a Joe Biden em 2022. Se observarmos 2026 através desta perspectiva, nenhuma das previsões é particularmente surpreendente. O padrão repete-se porque se baseia numa série de tendências estáveis de comportamento eleitoral.
Os presidentes eleitos e os seus partidos tendem a ler a sua vitória presidencial, muitas vezes acompanhada de um Congresso da mesma cor, como um mandato político mais amplo do que aquele que o eleitorado realmente lhes quis dar. Ou seja, sobre-estimam o real apoio popular a certas políticas públicas mais ideológicas, bem como o grau de mudança desejado. Nas intercalares, essa interpretação excessiva tende a ser refreada pelos eleitores. Em 2024, Trump venceu por 1,5 pontos percentuais no voto popular, mas, desde então, tem agido muitas vezes como se tivesse obtido uma vitória esmagadora, por 5 ou 10 pontos.
Os próprios analistas políticos tendem a tirar dos resultados eleitorais conclusões excessivas, como se os eleitores tivessem desejos políticos tão intensos como os dos analistas e profissionais da política. Há dois anos, no rescaldo pós-eleitoral de 2024, quando Trump foi reeleito e conseguiu maiorias republicanas nas duas câmaras do Congresso, não faltaram análises a ler os resultados à luz de um realinhamento político geracional: os jovens eram agora conservadores, os hispânicos passariam a ser republicanos, a população tinha virado costas de forma definitiva aos valores culturais progressistas.
Olhemos, então, a título de exemplo, para o voto dos hispânicos. Em 2024, foi a grande surpresa da noite. Trump chegou aos 43% neste eleitorado e houve quem falasse num realinhamento histórico. Pois foram eles, agora, os primeiros a abandonar o Presidente em funções. Em Abril, a Pew já registava que a aprovação de Trump caía mais depressa entre os latinos que tinham votado nele do que entre o resto dos seus eleitores. Hoje, Nate Cohn, do New York Times, dá aos democratas uma vantagem de 35 pontos entre os hispânicos que tencionam votar. Os latinos confiam agora mais nos democratas para tratar da economia, que era justamente o trunfo de Trump há apenas dois anos, e dois terços acham que as deportações foram longe demais.
É preciso muito cuidado com narrativas de realinhamento político sempre que uma eleição determina uma mudança de ciclo. Na maioria dos casos, o que se observa não é um realinhamento político geracional, mas sim uma combinação de tendências políticas recentes com uma série de factores específicos da eleição desse ano. Em 2024, a explicação retrospectiva mais simples para as vitórias republicanas é que, à base consistente e ideológica do partido, se juntaram vários grupos sociais descontentes com a economia, nomeadamente com o custo de vida e a inflação, e com candidatos democratas mais fracos. Biden tinha o problema da idade e liderava uma administração impopular; Kamala Harris era a sua vice-presidente e não foi escolhida numa primária competitiva, o tipo de processo que costuma testar os candidatos antes da eleição geral. Foi uma solução de última hora.
Da mesma forma, se as previsões para a próxima terça-feira se confirmarem, será cedo e pouco prudente falar da morte do trumpismo ou de grandes realinhamentos políticos. Mais uma vez, os eleitores flutuantes (os que oscilam entre republicanos e democratas e não pertencem de forma cativa a nenhum dos lados) irão simplesmente penalizar a enorme escalada do preço da gasolina, resultado de uma guerra pouco desejada no Irão, o aumento do custo de vida, que Trump havia prometido controlar, e uma administração historicamente impopular, que exagera na agressividade de muitas das suas acções (por exemplo, as operações do ICE, a polícia de imigração) e que, para além disso, está envolvida em múltiplos casos de corrupção.
A isto junta-se a tendência habitual de as intercalares mobilizarem mais os descontentes do que os eleitores indiferentes e ocasionais, que costumam votar apenas em anos de eleições presidenciais. Quem está realmente descontente aproveita o ano intercalar para penalizar o Presidente.
Finalmente, sabemos ainda que os eleitores moderados, mesmo sendo uma fatia pequeníssima do eleitorado, são cruciais para fazer pender a balança para um dos lados. Estes eleitores sabem que nenhum partido lhes oferece o centro, mas calculam que a soma de um Presidente de um lado e de um Congresso do outro poderá aproximar-se desse centro político almejado. Nas intercalares, usam o voto para o Congresso como contrapeso ao Presidente em funções.
O problema, claro, é que o executivo norte-americano tem usado cada vez mais ferramentas não legislativas para implementar as suas políticas públicas, seja através de decretos executivos, seja através da política externa. À excepção de raras leis orçamentais, que mexem em impostos e subsídios, nenhuma das grandes acções simbólicas desta segunda administração de Donald Trump passou pelo Congresso. Na geopolítica, é improvável que haja mudanças estruturais: ninguém conta com o fim das tarifas de 15% sobre a maioria dos produtos europeus nem com o regresso do apoio americano a Kiev. Sobre o Irão, a Casa Branca parece ter deixado as decisões difíceis para depois de terça-feira, mas as intercalares não vão mudar a abordagem de Trump à NATO nem alterar radicalmente o rumo da política externa norte-americana.
Conclusão: é muito provável que, perante uma derrota considerável dos republicanos na próxima terça-feira, Donald Trump se tente distanciar dela (dizendo que não estava no boletim de voto) e continue a agir como sempre agiu. O interessante não será Donald Trump, mas sim como reagirão as elites republicanas e democratas ao último biénio de Trump, que está há mais de dez anos no centro da política norte-americana. Em 2028, podemos ter ambos os partidos a disputar primárias verdadeiramente competitivas em simultâneo, o que não acontece desde 2008. Seria bom que os partidos não desperdiçassem essa oportunidade para, finalmente, seguirem em frente e renovarem os seus líderes. Quiçá até as suas mensagens.