A União Europeia nasceu como um projeto essencialmente económico e diplomático, criado para aproximar países que, historicamente, tinham estado em conflito. No seu início, não se falava de uma unificação política, mas sim de uma cooperação económica que garantisse estabilidade e prosperidade. No entanto, com o passar dos anos, a União Europeia tem vindo a expandir as suas competências, criando estruturas políticas cada vez mais integradas, como o Parlamento Europeu, a Comissão Europeia e o Conselho Europeu. Embora ainda não seja uma federação, há uma clara tendência para a centralização do poder em Bruxelas.

Agora, num contexto internacional marcado por incertezas e pelo  regresso de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos, volta a ganhar força a ideia da criação de um exército europeu. Esta não é uma proposta nova – já nos anos 50, tentou-se avançar com a Comunidade Europeia de Defesa, mas o projeto foi rejeitado em 1954, o que prova que nunca houve um verdadeiro consenso entre os Estados-membros para tal iniciativa. O problema mantém-se: será que este novo impulso para um exército europeu responde a uma necessidade real ou é apenas uma demonstração de força da União Europeia face aos Estados Unidos?

A verdade é que um exército comum europeu levanta várias questões complexas. Há o risco de que um ou dois países assumam um papel dominante dentro da estrutura militar, tal como já acontece noutras áreas políticas da União. Se na política agrícola é a França a principal beneficiada, na política comercial é a Alemanha e na dos transportes são os Países Baixos, porque razão seria diferente no setor da defesa? Além disso, a criação de um exército europeu entraria em choque com a neutralidade de vários Estados-membros, como a Áustria, a Suécia ou a Irlanda, que há décadas optam por não se envolver em conflitos militares. Embora alguns destes países estejam a rever as suas posições, não se pode ignorar o peso que a neutralidade teve nas suas políticas externas e na identidade que construíram ao longo dos anos.

Outro problema evidente é a dificuldade em definir uma estratégia militar unificada. A União Europeia não tem uma visão homogénea sobre segurança e defesa. Enquanto alguns Estados vêm a Rússia como a principal ameaça, outros focam-se em desafios como o terrorismo ou a instabilidade no Norte de África. Um exército sem uma estratégia comum e bem definida corre o risco de ser ineficaz e de gerar mais divisões dentro da União do que propriamente fortalecer a sua posição no mundo.

Por fim, há a questão financeira. Criar uma estrutura militar deste nível exigiria um investimento massivo e, inevitavelmente, uns Estados acabariam por pagar mais do que outros. Com orçamentos limitados, os países europeus teriam de desviar fundos de outras áreas prioritárias, como a saúde, a educação ou a inovação tecnológica. Num momento em que a economia global enfrenta desafios significativos, é legítimo questionar se este é o caminho certo.

O que se coloca aqui não é apenas a possibilidade de um exército europeu, mas sim a sua viabilidade e o seu verdadeiro propósito. A Europa já conta com a NATO, que tem sido o garante da defesa do continente há décadas, e duplicar essa estrutura pode ser mais um gesto político do que uma necessidade prática. Em vez de se insistir num exército comum, a União Europeia deveria concentrar-se em fortalecer a sua diplomacia, melhorar a coordenação entre os exércitos nacionais e garantir que a sua política externa não se transforma num reflexo de disputas internas. Mais do que uma potência militar, a Europa deve ser um pilar de estabilidade e diálogo.