Portugal fez um trajeto de redução de camas hospitalares, com o argumento de uma gestão eficiente, muitas vezes incompatível com o envelhecimento da população e o seu crescente grau de dependência. Ficamos a saber no final de 2018, que Portugal era o quinto país mais envelhecido do mundo, substituindo a Alemanha, numa lista liderada pelo Japão, a que se seguem a Itália, a Grécia e a Finlândia (PORDATA).

Todos sabemos que o preço da longevidade é a multimorbilidade e a dependência, que temos de combater, mas que sempre avança, seja ela de caráter motor ou cognitivo. Por isso, o peso no SNS do Doente Crónico Complexo vai-se acentuando cada vez mais, traduzido em múltiplos recursos ao Serviço de Urgência e inúmeras hospitalizações, com tempos de internamento alargados. É útil avaliar o número de camas por 100 mil habitantes e verificar se este é congruente com o envelhecimento da população. Portugal tinha 395,9 camas por 100 mil habitantes em 1985, tendo, em 2017, 339,3 por 100 mil, o que merece comparação com a média dos 27 países da União Europeia, que é de 541,4 camas por 100 mil. Vale a pena referir, que a Alemanha soube ler os números, como sexto país mais envelhecido do mundo, tendo 800,2 camas por 100 mil habitantes, para dar resposta às expectáveis necessidades de internamento hospitalar da sua população.

Com taxas de ocupação de todos os serviços hospitalares superiores a 90%, não há folga para nada. Se uma gripe obriga a um aumento das camas de Medicina Interna na ordem dos 30%, com a “invasão” regular dos serviços cirúrgicos na época de inverno, imagine-se o que faz uma pandemia… Não vale a pena carpir mágoas em tempo de pandemia, porque não se conseguem reproduzir camas por decreto, com a pressa que precisamos!

Em março, todos os hospitais tiveram que se reinventar, para terem camas onde recebessem os doentes Covid-19. Houve a necessidade da criação de circuitos diferenciados estanques, para ser possível tratar os outros pacientes não infetados. Os serviços de Medicina Interna trataram neste período cerca de 90% dos seus doentes habituais, não infetados por Covid, porque os idosos com múltiplas doenças atrasaram a vinda, mas não deixaram de vir. Na maior parte dos casos, as Unidades Covid ficaram sediadas em Unidades de Medicina Interna. Os outros doentes médicos internados, foram ocupar as camas dos serviços cirúrgicos, deixadas livres pela suspensão da cirurgia programada. É preciso realçar, que no período de março a junho, muitas especialidades cirúrgicas reduziram drasticamente a sua atividade, não por estarem envolvidas no tratamento de doentes Covid, mas, principalmente, porque as camas cirúrgicas haviam sido dadas aos serviços de Medicina Interna. Na altura da primeira vaga da pandemia chegou a pensar-se em pedir ajuda aos privados para o tratamento dos doentes NÃO Covid. Mas o medo irracional que levou à fuga dos doentes do hospital, reduzindo as urgências a 20% do habitual, permitiu o adiamento dessa solução para o internamento dos doentes NÃO Covid.

Estamos chegados à anunciada segunda vaga da Covid-19, com algumas diferenças da primeira. São atingidos mais adultos jovens, com menor necessidade de internamento hospitalar. Mas os números são tão avassaladores, que o SNS parece poder vir a colapsar pela insuficiência das camas disponíveis.

Mas o acréscimo das mortes de causa não Covid fez parangonas nos jornais e soou os alarmes, tornando evidente que nesta segunda vaga da pandemia Covid não poderíamos adiar todas as outras doenças de novo!

Agora, não nos faltam ventiladores e até já contamos com um significativo acréscimo de pessoal médico e de enfermagem. Mas é preciso reconhecer que temos de fazer uma alocação de camas para as muitas dezenas de doentes Covid, na enfermaria geral ou nos cuidados intensivos. E não podemos esquecer a grande variação no grau de gravidade desta doença, que por vezes tem uma má evolução de forma muito rápida, pelo que essas camas têm de ser em locais seguros, que permitam adequar os cuidados à situação clínica. Como não há camas sobrantes, terão de se fazer opções.

Os hospitais com maior responsabilidade no tratamento dos doentes Covid têm de continuar a assegurar o tratamento do essencial, que tem a ver com os doentes agudos graves (Via Verde AVC, Cardiologia/Hemodinâmica, Trauma, Cirurgia Urgente, doentes médicos complexos).

Outra atividade, nomeadamente a cirurgia programada, deve ser dada aos privados, porque não são toleráveis mais atrasos no tratamento dos doentes. Nalguns casos, com alguma coragem política, podiam procurar-se soluções imaginativas que passassem pelo acordo com os privados, em que estes apenas fariam um “aluguer de instalações”, deslocando-se as equipas cirúrgicas hospitalares para aí operarem.

Esta solução parece-me exequível e capaz de ser posta em prática com a rapidez que a situação exige. A bem da verdade, não vejo outra. Às vezes, é preciso ter a coragem de admitir que não conseguimos acudir a todas as necessidades, tendo a humildade de recorrer a quem nos possa ajudar.