Uma das coisas que mais incomoda um físico quando se debruça sobre temas económicos é a forma como os economistas lidam com a natureza do dinheiro. É relativamente óbvio que o dinheiro é uma invenção humana num sistema natural constituído pelo sistema de trocas de formas de trabalho humano gerado pelo “glitch” genético que nos removeu o sistema de compensação das necessidades. Muitos mamíferos, se não todos, têm alguma forma de troca de trabalho, mas só os seres humanos o fazem para necessidades infinitas. Por outras palavras, muitos animais cooperam socialmente, mas só o ser humano tem uma “economia”.

Isto para dizer que não há muitas dúvidas de que a economia é um sistema natural, senão não existiria, nem dominaria a nossa natureza se assim não fosse. Por isso, se podia ser que o Fred Flintstone e o Barney trabalhassem na pedreira em troca de costelas de brontossauro, algures na evolução das nossas sociedades alguém percebeu que isso não dava jeito e criou uma maneira mais prática de fazer trocas que não implicasse cortar o brontossauro às postas. Essa maneira é só um símbolo que permite que quem o tem na mão o possa trocar pelo trabalho na pedreira. O Fred e o Barney receberiam esse símbolo que usariam para trocar por costelas de brontossauro, ou numas peles novas para a Wilma e para a Betty.

Esse símbolo, ou melhor, esse referencial, é aquilo a que chamamos de dinheiro. E olhando para o dinheiro hoje, aquilo é só papel sujo que representou um qualquer trabalho no passado que pode ser trocado por um qualquer trabalho no futuro. Ou, de outra forma, é apenas um papel que diz que alguém deve trabalho àquela pessoa. Ou, mais físico, é apenas um ponto num referencial fixo do sistema económico. Ou… (os economistas têm mais umas descrições). O que interessa no fim do dia é que aquele dinheiro representa um trabalho que vale exatamente o mesmo que o trabalho pelo qual o dinheiro vai ser trocado. Ou seja, se não houvesse dinheiro, o trabalho feito pelo Fred seria trocado por igual valor de trabalho do homem que fatia brontossauros, o dinheiro só veio facilitar isso. E esse é o ponto fundamental, se não houvesse dinheiro, haveria economia na mesma (e houve). Mais difícil, é certo, e mais enjoativa para os Flintstones que estariam sempre a comer costelas de brontossauro, mas haveria.

O leitor deverá estar a pensar porque é que este estúpido não pára de falar nos Flintstones, será que ele não sabe que aquilo são só desenhos-animados? Sei, meu caro, mas não sei porquê, pareceu-me que era a forma mais correcta de explicar à actual administração americana porque é que as tarifas que criaram é um sinal de ignorância tão forte como achar que o homem pré-histórico vivia como a população de Bedrock. As muito faladas tarifas americanas são calculadas em função daquilo que é o défice comercial dos Estados Unidos da América com os demais países do mundo tirando a Rússia (sabe-se lá porquê..). Ora, défice comercial é a contagem do dinheiro que sai dos Estados Unidos para esses países, menos o dinheiro que entra desses países para os Estados Unidos. O que é que falta aqui? Acertou, faltam as costelas de brontossauro e o trabalho na pedreira, isto é, as formas de trabalho pelas quais o dinheiro foi trocado. Porque quando foi trocado, o que saiu dos Estados Unidos na forma de dinheiro, entrou na forma de trabalho exatamente pelo mesmo valor para os dois lados.

Dir-me-ão que é isso que se pretende evitar. Ora isso ainda é mais estranho, porque se as trocas se fazem, não é por acaso. Simplesmente, os americanos passaram a formas de trabalho mais avançadas e deixaram para outras zonas do mundo as formas de trabalho para as quais as suas populações estão mais adaptadas, seja lá por que razão for. Esse foi o movimento natural, o facto de se dizer que não vão ser feitas nesse país não significa que vá ser feita nos EUA. Se pudesse ser feita, já o era. Aliás, o mesmo se pode dizer relativamente à Europa, e mesmo dentro da Europa, há coisas que são os portugueses a fazer porque os outros já se estão a focar em formas mais avançadas de trabalho. É natural, estudaram mais, investigaram mais, criaram mais capital.

Mas há mais, tal como o facto de haver trabalho que é feito fora dos EUA. Como o dinheiro do Uncle Sam vale para comprar o trabalho dos outros, isto significa que há trabalho americano que está a ser trocado. Trabalho que, para os americanos, tem o mesmo valor que aquele que está a ser importado. Portanto, se não houver troca, perde-se o valor dos dois lados e, com ele, os empregos dos dois lados. E onde tem o trabalho unitário mais valor? Exacto, nos EUA (e na Europa, e na China, e no Canadá, …).

Isto para dizer que aquilo que se pretende com o esquema de tarifas encontrado é um retrocesso laboral e social, o retorno da sociedade americana ao trabalho menos sofisticado e, em consequência, a trabalho menos valioso. A ideia de que os empregos voltam aos EUA, como dizia o sec. de Estado Marco António Rubio, é lançada omitindo o fundamental. Se isso for verdade, que será eventualmente, os empregos de baixo valor acrescentado voltam aos EUA. E baixo valor vai ser trocado por pouco dinheiro. Algo tão atrativo como para nós portugueses dizer que o trabalho infantil vai voltar à indústria do Vale do Ave. E, intenção declarada da administração americana, teremos novamente os Flintstones a bater pedra nas pedreiras, dado que não parece haver limite no retrocesso pretendido.

Se me perguntam, acho tudo isto uma enorme oportunidade para o resto do mundo,  até vem numa altura boa e acompanhado por um intenso tempero geopolítico. Nesta configuração, o dólar americano começa a ser questionável face ao Euro, por exemplo. Se pensarmos que boa parte daquilo que é a economia dos Brics não tem moeda própria fora dos seus países e que confiam em absoluto no valor das moedas fortes, como o Euro e o dólar americano para o seu comércio externo, isso pode representar para o maior mercado do mundo, o Europeu, uma oportunidade de estabelecer a sua moeda como padrão, o que traria algumas vantagens num mundo hostilizado pelo “dono” da actual moeda padrão. Mas, fundamentalmente, porque nenhuma das outras economias tem o mínimo interesse em apostar na destruição do seu capital nacional para retroceder para formas de trabalho mais atrasadas.

É por esta oportunidade que acho que boa parte do mundo está contente com a decisão americana. Vai doer no imediato, mas no futuro fará crescer a confiança em quem é digno dela e, esperamos, provoque mudanças concretas nas outras economias que viviam em função da existência de uns EUA. Que se corrija a Europa das PACs, dos subsídios absurdos e dos regulamentos fascistas. Que tal instigue o Reino Unido e o Canadá a juntarem-se a este mercado, que faça acelerar o acordo com o Mercosul e que faça juntar a China e a Índia. O PM canadiano, o Dr. Mark Carney , dizia há dias que este não será um problema com 4 anos e que o Canadá se precisa de autonomizar dos EUA, mesmo para depois desta administração. Eu não diria tanto, acho que depois da administração Flintstone, também os EUA se juntarão de novo ao mundo económico.