A intervenção militar da NATO na Líbia foi vendida como um ato humanitário para proteger civis e garantir a “paz humanitária”. Na prática, porém, trouxe tudo menos tranquilidade. Ao fim da campanha, a missão que afirmava salvar vidas desmontou o Estado líbio e deixou o país entregue ao caos e à guerra civil. Sob a retórica de evitar genocídios e espalhar democracia, a NATO mostrou-se aquilo que realmente é: uma organização que se disfarça de pacifista para defender os interesses económicos e estratégicos da Europa e dos EUA, custe o que custar.

Durante o governo de Muammar Gaddafi, a Líbia era uma das nações africanas mais desenvolvidas. Em 2010, ocupava o primeiro lugar em África no Índice de Desenvolvimento Humano. As receitas do petróleo eram usadas para criar uma sociedade com acesso gratuito à saúde, educação, habitação subsidiada, infraestruturas modernas e uma taxa de alfabetização acima dos 80%. As mulheres tiveram uma ascensão histórica, passando a exercer profissões antes impensáveis no mundo árabe, desde magistradas a diplomatas. O Estado líbio oferecia, de facto, um padrão de vida superior ao de muitos países “livres” e “democráticos” africanos, e até mesmo de outros continentes.

Mas Gaddafi queria mais: sonhava com a libertação económica de todo o continente africano. Para isso, acumulou cerca de 143 toneladas de ouro e planeava criar o dinar de ouro africano, uma moeda forte e independente, capaz de libertar os países africanos da dependência do dólar e do franco CFA, este último imposto pela França.

A criação desta moeda iria implicar com que a importação de petróleo por parte de países como os EUA e a França tivessem de pagar numa moeda diferente da sua, havendo assim uma clara desvalorização do Euro Europeu e do Dólar Americano face a esta nova moeda Africana, corrompendo assim com os mercados financeiros do Ocidente e abalando as suas economias frágeis e dependentes da exploração de um continente tão mal tratado. Esta ideia, naturalmente, foi recebida em Paris e Washington com a mesma simpatia com que se recebe uma bomba-relógio. E-mails mais tarde tornados públicos do Departamento de Estado americano vieram a revelar isso mesmo, que o plano do dinar africano foi um dos principais motivos ocultos para a intervenção militar. Sarkozy (presidente Francês da altura), por exemplo, temia que a influência francesa em África se desmoronasse com a ascensão de uma Líbia economicamente independente.

E como tal, sempre que a soberania de tais países opressores é posta em causa, a NATO é destacada em missão de “paz” com as típicas desculpas humanitárias de sempre, sob o pretexto que a ditadura na Líbia era uma ameaça á “Democracia” . Enquanto as bombas caíam sobre Trípoli (capital da Líbia), as boas almas da política ocidental mostravam os dentes. Hillary Clinton (antiga secretária de estado Americana), entre risos, comentou a morte de Gaddafi com a frase “We came, we saw, he died” numa entrevista oficial. Obama (ex-presidente Americano), de sorriso em punho, declarou que a missão havia sido cumprida sem perder um único soldado no terreno, e prometeu ajudar os líbios a “construírem um futuro de dignidade e liberdade”. Sarkozy, que pouco tempo antes se dizia aliado da Líbia, justificava os bombardeamentos como “proteção da população civil”, tudo isto enquanto a verdadeira motivação estava a salvo nos bastidores: petróleo, reservas de ouro, e acima de tudo, uma hegemonia  do Euro e do Dólar Americano.

E o que sobrou da paz europeia? Em 2010, o PIB da Líbia era de cerca de 75 mil milhões de dólares. Após a intervenção, caiu para cerca de 35 mil milhões. As infraestruturas do país foram devastadas, as cidades foram ocupadas por milícias armadas, e a Líbia entrou numa guerra civil que ainda hoje dura. O Estado colapsou. O petróleo virou moeda de troca entre fações rivais. A democracia prometida virou uma piada de mau gosto. De país mais próspero de África, a Líbia transformou-se num cemitério de sonhos tudo em nome da “paz” promovida pela NATO.

Os media ocidentais e a sua falsa propaganda, sempre prontos a aplaudir o heroísmo humanitário dos seus governos, ocultaram o verdadeiro desastre: um país que, mesmo governado de forma autoritária, oferecia estabilidade e progresso, foi transformado num campo de batalha para assegurar que o dólar e o euro não perdessem espaço para uma nova moeda africana. Nada mais. Nada menos.

No fim de contas, a operação da NATO provou aquilo que muitos já sabiam: a paz, para a Europa e para os EUA, só é aceitável se for a paz deles, desde que continuem a ser os donos da banca, do petróleo, das rotas comerciais. A liberdade dos outros só é bem-vinda se não ameaçar os mercados ocidentais. E se alguém ousar contrariar este jogo? Há sempre a “proteção humanitária” pronta a cair do céu, tal como caiu sobre a Líbia.

A Líbia de Gaddafi era tudo aquilo que o Ocidente diz querer para os africanos: prosperidade, educação, saúde, soberania. E foi precisamente por isso que ele foi morto. Porque a verdadeira “paz europeia” nunca foi, nem nunca será, sobre a paz dos outros.

Hoje, mais de uma década depois da intervenção “libertadora”, a Líbia continua mergulhada em conflitos internos, dividida entre governos paralelos e dominada por milícias armadas. O sonho do dinar africano foi enterrado junto com o corpo de Gaddafi, que antes disso ainda foi arrastado que nem um animal pelas estradas da cidade atado a uma carrinha, mas as consequências da sua morte continuam a ecoar: instabilidade crónica na região, tráfico de seres humanos, terrorismo e uma crise migratória que assombra as mesmas capitais europeias que empunharam orgulhosamente a bandeira da “democracia” em 2011.

Curiosamente, ou talvez não, agora que a Líbia é um país despedaçado, um mercado de escravos moderno e um terreno fértil para o extremismo, já não se ouvem apelos desesperados da Europa ou dos EUA por uma “intervenção humanitária”. A NATO, tão célere a bombardear em nome da paz e a eliminar o tão impiedoso ditador que tanto mal trouxe para o mundo, agora parece ter perdido o GPS para a Líbia. Afinal de contas, onde não há petróleo para roubar ou soberania para destruir, a paz já não é assim tão urgente, nem tão rentável.

O que começou com bombardeamentos em nome da liberdade terminou num ciclo de destruição sem fim. E a Europa, entre reuniões e fantochadas sobre direitos humanos e jantares de gala pela paz mundial, continua a olhar para o caos líbio como um pequeno detalhe incómodo, preferindo esquecer que foi ela própria quem plantou as sementes do desastre.

Porque no fim do dia, as tão faladas missões de paz da NATO a mando Europeu e Americano são realmente rosas de um jardim muito bonito… o problema, é que se esquecem de referir que é um jardim regado com o sangue dos outros.