Greta Thunberg foi convidada a visitar a Assembleia da República quando passasse por Lisboa. Não é difícil imaginá-la a ser entusiasticamente aplaudida pelos deputados. É aposta ganha afirmar que Marcelo vai tirar uma selfie com ela. Thunberg diz-nos que estamos à beira de uma extinção em massa. No seu discurso na ONU, em Setembro, chegou mesmo a afirmar que o corte em metade das emissões de carbono nos próximos 10 anos apenas nos dá uma chance de 50% de impedir que a temperatura terreste aumente na ordem dos 1,5º C. É difícil um político não se deixar galvanizar por esta maré alarmista.

Segundo Thunberg o cenário é catastrófico e só se evita com uma redução drástica da nossa qualidade de vida, ao ponto de nos limitarmos a sobreviver. Mais: sabendo que os países mais poluentes são a Índia, o Paquistão, a China, a Indonésia, entre outros na região da Ásia e de África, o objectivo a que a activista sueca se propõe implica que estes países parem de se desenvolver. O mesmo é dizer que as pessoas que vivem nestes países se contentem com a miséria, à semelhança do que sucedeu com os seus pais e avós. Que aceitem ser pobres e morrer na miséria em nome de um bem maior. Antes, em nome do bem-estar do Ocidente. Agora, em nome do bem-estar do Planeta. Podíamos chamar a isto de neocolonialismo, mas fica mais bonito apelidá-lo de activismo ambiental.

O convite para visitar a Assembleia da República terá vindo da comissão parlamentar de Ambiente, Energia e Ordenamento do Território. O seu presidente é o deputado do Bloco de Esquerda, José Maria Cardoso. Não é difícil imaginar que os mais entusiastas com a presença de Greta Thunberg no Parlamento sejam os deputados do BE, do PCP, e do PS (e possivelmente, mas agora não sabemos nada, do partido da esquerda ecologista europeia chamado Livre). Ora, a ironia não está no facto destes partidos acabarem por aplaudir discursos com significados colonialistas. Uma conclusão desse género é de índole teórica e  diz-nos pouco sobre os problemas do nosso dia-a-dia. A ironia maior é os deputados dos partidos que sustentam o crescimento económico no consumo virem a aplaudir quem lhes diz que se deve reduzir o consumo para que se salve a vida na Terra. Ou seja, se os deputados não fossem hipócritas, e levassem a cabo aquilo que querem ouvir e em que dizem acreditar, que a vida no nosso planeta está em risco se não reduzirmos a emissão de carbono em mais de metade nos próximos anos, ouviríamos Catarina Martins, Jerónimo de Sousa e António Costa defenderem a redução dos salários, a contenção da despesa pública, o aumento do IVA e o aumento do impostos sobre a electricidade. Ouvi-los-íamos a defender a austeridade.

É mais que sabido que isso não vai acontecer. Receber Greta Thunberg no Parlamento servirá apenas para enganar quem queira se enganado. Ela irá e sentir-se-á bem, eles recebê-la-ão e sentir-se-ão bem, todos ficarão de consciência tranquila poque serão bem-intencionados. Inócuos. Mas bem-intencionados. E nós fingiremos que acreditamos porque se não fingirmos que acreditamos na farsa tudo perde sentido e razão de ser. O social-comunismo não é mais que isto.

E depois chega a vez de Margaret Thatcher. No terceiro volume da biografia da ex-primeira-ministra do Reino Unido, Charles Moore recorda-nos que, nos finais dos anos 80,  Thatcher já se preocupava com as alterações climáticas. O seu discurso na ONU em 1989 é prova disso mesmo. Boris Johnson também o reconheceu ao discursar no lançamento do livro na Banqueting House, em Whitehall.

A grande diferença entre o ambientalismo de Greta Thunberg e o de Margaret Thatcher é que para a primeira a protecção do ambiente passa por travar o desenvolvimento enquanto para a segunda implica mais riqueza e mais desenvolvimento. Mais progresso. Mais liberdade. Thunberg quer que andemos de barco à vela; Thatcher que o mercado obrigue a ciência a encontrar uma alternativa ao que polui. Thunberg deseja regressar ao passado em que uns poucos usufruíam da vida enquanto os restantes sobreviviam. Thatcher, que o engenho da Humanidade salve a Terra. Uma duvida e suspeita; a outra acreditava e confiava. Separa-as um oceano inteiro.

Para a esquerda as alterações climáticas têm sido um pretexto para imporem um socialismo global, que justifique sacrifícios que o colectivismo impõe. Em nome de um bem maior a liberdade individual deixará de ser uma crítica válida. Para muitos é já o equivalente a egoísmo. Thatcher percebeu que deixar as políticas ambientais nas mãos de radicais seria perigoso. Não só para as nossas liberdades, mas também para o futuro da vida na Terra. Uma vez mais os acontecimentos deram-lhe razão. Boris Johnson termina a referida apresentação do livro sugerindo que se entregasse um exemplar a cada activista ambiental que protesta nas ruas. Eu acrescentaria que se desse um a cada deputado da nossa Assembleia da República. E a Greta Thunberg, também. Ganhávamos todos.