No próximo domingo, há eleições autárquicas. Como sempre, ouviremos a pergunta: “Será que os portugueses estão informados?” Mas, talvez devêssemos perguntar outra coisa: será que podem estar?
Portugal é um país pequeno. De acordo com dados de 2021, 19,8% dos concelhos portugueses são desertos informativos. Ou seja, 61 concelhos, segundo dados de 2021 – os mais recentes que conheço –, não possuem nenhum órgão jornalístico a trabalhar. E, mesmo sobre os restantes, não há certeza se ainda estão no ativo, e em que circunstâncias.
Redações reduzidas, financiamentos curtos, concelhos pequenos criam a tempestade perfeita que ameaça a liberdade e a independência da imprensa regional. E a culpa não é dos jornalistas.
Em muitos lugares, a imprensa regional tornou-se dependente de quem devia fiscalizar. As câmaras investiram em gabinetes de comunicação, para os quais contrataram, em muitos casos, os melhores jornalistas do mercado regional. E, hoje, são eles quem enchem as caixas de e-mail de rádios e jornais com comunicados, prontos a publicar. As mesmas autarquias compraram, também, espólios ou contrataram serviços aos órgãos de comunicação social locais, com o pretexto de “salvar a comunicação social”, mas acabaram por criar um jogo de dependências. Por outro lado, as empresas mais capitalizadas sabem o perigo de financiar um jornalismo neutro; com ele, correm o perigo de verem os seus interesses colocados em risco, em especial em regiões onde, às vezes, o que importa é passar despercebido. No fim de tudo, os jornalistas não são ingénuos.
Em muitos lugares, ser o “tipo que escreve contra o presidente” é uma sentença. Nos meios pequenos, por muito nobre que pareça o manto de mártir da liberdade de imprensa, ninguém quer o rótulo de “aquele a quem não se pode confiar nada”. E o preço nunca é apenas pessoal. Basta publicar uma notícia sobre os bastidores de uma autarquia ou de uma instituição importante — nesses lugares onde quase tudo gira à volta do setor público — para que o primo, a tia ou o pai, que lá trabalham, passem a ser vistos como os bufos da aldeia.
Grande parte dos órgãos de comunicação social regional de grande difusão há muito que aprenderam a lição. É melhor deixar o escrutínio das autarquias e passar a cobrir as feiras, os festivais e as romarias. Acreditar que virá alguma publicidade institucional. Fazer suplementos temáticos que são, o mais das vezes, publicidade travestida de jornalismo.
A Igreja que tem, ainda, um conjunto significativo de publicações periódicas por todo o território nacional, e que desempenhou um papel importantíssimo na evolução da imprensa em Portugal, percebe isso como ninguém. A Igreja tem de ser dócil, misericordiosa, mansa, discreta. Não pode andar aí a patrocinar o escrutínio democrático e livre. Era o que faltava. E a laicidade? (ressalva-se a ironia).
Infelizmente, algum poder público usa a imprensa como o seu braço armado, e está disposto a ser oblíquo quando a mesma imprensa não lhe obedece. Corta apoios. Deixa de responder. Cancela a publicidade. Tudo para que esses cretinos dos jornalistas percebam quem manda. O seu trabalho, afinal, é: não escrever sobre aquela parte embaraçosa da reunião de câmara, não dar cobertura aos pronunciamentos da oposição, afirmar, sem contraditório ou verificação, que este é “o maior orçamento de sempre”.
Dir-se-á: não há censura. Mas também não é preciso. E, aliás, isso dá muito trabalho e demasiado nas vistas. Quando tudo isto não chega, basta um telefonema a dizer que se vai responder com violência se a notícia sair, uma mensagem a dizer, “à cara amiga”, que não se percebeu a notícia, ou a sempre foleira indireta que “só nós é que entendemos”. Pelo meio, o jornalista hesita. Lembra-se que há coisas mais importantes. Apaga o parágrafo. Publica o resto. Dorme em paz. Também, haverá coisa melhor? Quando o 25 de Abril chegar, ninguém esquecerá a liberdade.