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Crónica

I love Portugal /premium

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Os portugueses lúcidos, coitados, padecem da esperança de que os portugueses restantes acordem para as delícias da liberdade. Sucede que para os simplórios a liberdade não é deliciosa: é uma ameaça.

E há o Estado a realizar sondagens eleitorais a funcionários públicos com dinheiro e logística igualmente públicos, na presunção, provavelmente justificada, de que tudo o que nos confiscam pertence aos gangues que se apoderaram disto. E há o governo, um governo habituadíssimo a silenciar dissidências, a ameaçar com a tropa qualquer esboço de insubordinação que não seja organizado por estalinistas. E há os estalinistas, os leninistas, os carteiristas e os fascistas afins a calarem os resmungos hipócritas a troco de poder, e da licença para que estendam o seu manto escuro sobre nós. E há a vasta e densa rede de corrupção que os socialistas instalaram por aí, plena de devoção aos valores da família, da amizade e do descaramento em geral. E há as vítimas do sagrado serviço nacional de saúde, que felizmente morrem em recato. E há os milhões que não se gastam a combater doenças gastos em negociatas, compadrios, golas de poliéster e “impulsos” para a “concretização” da “igualdade de género”. E há os incêndios, cuja dimensão e recorrência deveriam denunciar as inúmeras fraudes subjacentes, e que, em vez disso, concedem uma oportunidade para culpar as “alterações climáticas”, os eucaliptos e a “direita”. E há as televisões repletas de propaganda, agora tão escancarada que já permite um programa chamado, sem ponta de ironia ou amargura, “I Love Portugal”. E há “a geração mais informada de sempre”, que do alto de uma admirável ignorância simpatiza com o PAN ou com o BE como noutros tempos menos informativos alinharia na juventude fardada que estivesse à mão. E há uma economia alicerçada no saque rápido e na irresponsabilidade lenta, que cumpre, um por um, os requisitos essenciais à nova bancarrota que se aproxima. E há benefícios fiscais, e uns trocos para a camioneta, aos emigrantes que abandonem as Alemanhas e as Inglaterras e regressem a esta maravilhosa experiência venezuelana. E há o belo sorriso do dr. Costa, representativo de milhares de sorrisos assim, próprios de quem manda e, melhor, de quem sabe que manda sob completa impunidade. E há uma oposição que abdicou de desempenhar o papel por sonhar em mandar também, um bocadinho pequenininho que seja. E há, nos “media” e nos gabinetes, resmas de serviçais de segunda e terceira linhas amestrados para a exaltação dos chefes. E há um ex-animador televisivo, hoje rebaixado a presidente, que confessa experimentar “gozo espiritual” por o país ser “um sucesso”, e já não “uma incógnita e uma dúvida”.

Se cada um vai buscar o gozo onde calha, a verdade é que o país nunca constituiu uma incógnita ou suscitou dúvidas: o país é isto. E isto não caiu do céu, nem sequer subiu dos infernos. Isto é o que temos e somos, é a nossa natureza e, para usar uma palavra horrível, a nossa “identidade”. Portugal, meus caros concidadãos, não dá para mais. Dá para bola. Subsídios. Enchidos. Bola. Wi-Fi. Ecopontos. Bola. Via Verde. Netbanco. Bola. Grândolas. Parlapatice. Bola. Fundos europeus. Fundilhos paroquiais. Bola. Festivais. Chefs. Bola. Praia. Proactividade. Bola. Romarias. Sol (que é tão bonito). Bola. Rendimentos mínimos. Rendimentos máximos. Bola. Cabeçudos. Barrigudos. Bola. Rotundas. Penduricalhos. Bola. Comes. Bebes. Bola. Activistas. Ambientalistas. Bola. Irreverência. Reverência. Bola. Certames. Multiusos. Bola. E indiferença, até gozo, espiritual ou não, em ser enxovalhado pelos laparotos que se apoderaram deste curioso cantinho porque quiseram, e sobretudo porque puderam.

Aos poucos, convenço-me de que não se trata de acaso. Existe nos portugueses uma genuína propensão para chafurdar na fancaria, apreciar a fancaria, fazer da fancaria um roteiro e uma “agenda”. Claro que o lixo abunda em toda a parte. Em quase toda a parte, porém, não faltam alternativas ao lixo, enclaves de civilização ou vigor ou graça que resistem ao obscurantismo e à boçalidade. Aqui, porém, o lixo parece avançar sem obstáculos. Parece o verdadeiro desígnio colectivo. Parecemos estúpidos. Seremos? Embora não seja adepto de teorias da conspiração, que são a História contada por pantomineiros, acontece questionar-me se, há largos séculos, os illuminati da época não conspiraram para reunir tontinhos, masoquistas e desequilibrados em geral num território a que chamaram Portugal. A ideia era estudar-nos, mas ainda não conseguiram parar de rir.

É evidente que muitos portugueses não são idiotas. O problema é que mesmo a maioria dos portugueses lúcidos acredita, não imagino porquê, que a desgraça actual é provisória, e que tivemos um passado luminoso e teremos um futuro redentor. Os portugueses lúcidos, coitados, padecem de saudade e, pior, de esperança, a esperança de que os portugueses restantes, com o pescoço na trela e o olhar no chão, acordem para as delícias da liberdade, essencial à vida adulta. Sucede que para os simplórios a liberdade não é deliciosa: é uma ameaça ou, no mínimo, um risco escusado. Enquanto brincam no recreio, os simplórios gostam que alguém tome conta deles. Com sorte, e uns arremedos de manha, um dia eles tomarão conta de nós. É preciso dar exemplos?

Não queremos ser todos iguais, pois não?

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