Se há um tema que dificilmente podemos abordar sem suscitar reacções intensas — tanto de aprovação como de reprovação — é o da imigração proveniente do terceiro e quarto mundo para os países ocidentais. À esquerda, qualquer pessoa que se atreva a falar sobre o assunto é imediatamente vista como um potencial herdeiro de Mussolini ou Hitler, pronto a calçar botas de couro e a marchar a passo de ganso pela Avenida da Liberdade enquanto entoa uma canção sobre uma flor chamada “Erika”.
Do lado do centro-direita, o receio de ser rotulado de “fascista” pelos guardiões da revolução vermelha é tal que muitos preferem ignorar o tema por completo, ou então deixá-lo nas mãos de outros. A direita conservadora adopta, em grande medida, a mesma postura. Já a direita radical e a extrema-direita, quando têm a coragem de enfrentar a questão, fazem-no frequentemente através de simplificações grosseiras que, infelizmente, acabam por desvalorizar a substância da mensagem. Compreendo que o tema nos possa tocar, mas é demasiado importante para ser tratado com o “coração” em detrimento da “razão”.
Tratar este tema com o coração, e não com a razão, é precisamente o que faz a esquerda, preferindo recorrer ao que os gregos chamavam de pathos. O pathos é uma técnica retórica usada para apelar aos sentimentos mais primários das massas: o ódio, a inveja, a vingança, a compaixão, a pena. Neste caso, a esquerda pretende provocar nas massas ocidentais o sentimento de pena e compaixão. Por outro lado, tal como disse mais acima, também não considero adequada a forma como certos sectores da direita mais “dura” costumam abordar a questão da imigração. Focam-se em casos pontuais, quando deveriam analisar o fenómeno de forma mais ampla, utilizando também o pathos. Que um árabe tenha esfaqueado um ocidental, algures numa cidade europeia, é sem dúvida grave. Mas também há ocidentais — bem brancos — que esfaqueiam outros ocidentais. Que haja um indiano em Beja a receber 800€ da Segurança Social sem trabalhar é, de facto, vergonhoso. Mas na minha aldeia conheço um português, tuga de gema, que foi para França trabalhar dois ou três anos, já com problemas de saúde, apenas para conseguir uma pensão de invalidez. Hoje, passa os dias no café a criticar os franceses por não lhe darem mais dinheiro.
Esta abordagem, centrada em casos isolados, pode render dividendos eleitorais a curto prazo — mas não sustenta uma estratégia séria a longo prazo. A abordagem correcta exige que se olhem os dados de frente: o que dizem as estatísticas? Quantos imigrantes? De que origem? Qual a percentagem? Que peso têm determinadas comunidades na incidência de crimes? E por aí fora.
A esquerda recusa-se a encarar a realidade: as populações nativas do Ocidente já não desejam mais imigração extra-europeia. Sentem, no seu quotidiano, os efeitos dessa realidade. Vejamos o que aconteceu em Paris após a vitória do PSG. Quem eram os autores dos motins? Franceses de raiz? Ou imigrantes e filhos de imigrantes? E o que se tem passado em Los Angeles? Os recentes protestos anti-ICE, nos quais vimos carros incendiados, agentes da autoridade atacados e exigências para a abolição do ICE (a agência federal americana de controlo da imigração), não serão o sintoma de uma crise civilizacional (e migratória) muito mais profunda? Durante a administração Obama, mais de três milhões de imigrantes ilegais foram expulsos (fonte) sem que os meios de comunicação, a esquerda americana e os intelectuais americanos digam algo, mas os mesmos criticam agora a administraçaõ Trump por uns poucos milhares de expulsos.
O tema da imigração é instrumentalizado pela esquerda como uma arma contra as nossas sociedades. Utilizam os imigrantes como ferramenta para abalar as fundações civilizacionais do Ocidente. A imigração em massa ameaça a identidade. E sem identidade, um povo torna-se amnésico. Ora, um povo amnésico é facilmente moldável — porque se torna dócil. Ou pensavam que as pequenas frases do tipo “não sei o que é isso da cultura portuguesa” são inocentes?
Alguns sectores da esquerda, bem como de partidos ditos liberais/neo-liberais, pretendem impor-nos – por motivos diferentes, os primeiros ideológicos, os segundos económicos – uma imigração que ameaça arruinar o Ocidente e aniquilar a nossa identidade. Há quem, como os defensores do movimento No Borders, advogue a abolição da própria noção de “fronteira”. Apelar ao fim das fronteiras e exigir que aceitemos centenas de milhões de pessoas oriundas de culturas frequentemente antagónicas à nossa civilização equivale a apelar à morte da nossa identidade. Qualquer nação só existe porque tem fronteiras. São elas que definem um espaço preciso onde um povo vive segundo a sua cultura, os seus valores e tradições. Sem fronteiras, nenhum povo consegue preservar a sua homogeneidade populacional. E sem essa homogeneidade, nenhuma nação é capaz de proteger o seu modo de vida, os seus costumes, a sua cultura, a sua religião, a sua língua — em suma, a sua essência.
Na Antiga Grécia, um dos papéis atribuídos à deusa Atena era precisamente o de guardiã das fronteiras. A fronteira era entendida como a linha que separava o “nós” dos “outros”; distinguia os que viviam segundo as leis e a constituição da sua polis daqueles que seguiam outras normas e pertenciam a outras ordens sócio-políticas. Era, também, o limite entre os que partilhavam uma mesma koinonía (κοινωνία) — ou seja, a comunhão da vida em comunidade — e os que lhe eram exteriores. Havia também uma fronteira civilizacional, uma fronteira que marcava o que Homero designava como Héllenikon (τὸ Ἑλληνικόν): aqueles que partilhavam o mesmo “sangue helénico”, falavam a mesma língua, rezavam aos mesmos deuses e cultivavam os mesmos costumes. Do outro lado estavam os bárbaroi (βάρβαροι), os não-gregos — uma designação que, na época, não tinha a conotação pejorativa que lhe atribuímos hoje (mas apenas indicava os que não falavam grego). Foi por defenderem o seu modo de vida, a sua cultura, a sua língua, os seus deuses e a constituição da sua cidade que trezentos espartanos deram a vida, lutando contra (provavelmente) cerca de cem mil persas. Lembrem-se das palavras de Leonidas, rei de Esparta: “Vai, estrangeiro, e diz a Esparta que aqui jazemos, por termos obedecido às suas leis.”
Preocupar-se com a salvaguarda da própria identidade devia ser algo perfeitamente normal — tal como é natural defender a sua nação perante uma invasão militar. É, aliás, o dever de qualquer homem em idade de combater. Mas para uma certa esquerda nem isso é aceitável: são os mesmos que consideram que os israelitas deveriam simplesmente submeter-se e aceitar, sem resistência, a destruição da sua nação pelo Hamas. É claro que o caso de que falamos aqui é distinto: não estamos perante uma invasão militar. Estamos, sim, a viver uma imigração massiva de populações que procuram melhores condições de vida. No entanto, aquilo a que temos assistido um pouco por todo o Ocidente é revelador: essas mesmas populações, uma vez instaladas, recusam frequentemente qualquer esforço de assimilação. Pelo contrário, pretendem que seja o Ocidente a adaptar-se a elas — recriando, em bairros inteiros, os modos de vida dos países de onde vieram, os mesmos modos de vida que, em muitos casos, senão em todos, causaram a miséria de que fugiram. É lógico: tudo depende da escala. Uma imigração extremamente limitada força, por pressão natural, os estrangeiros a assimilarem-se. Mas quando os números crescem em demasia, os imigrantes passam a sentir-se suficientemente fortes para recriar o seu “habitat” original. E assim, no seio das nossas nações, multiplicam-se mini-nações que vivem à parte — quando não vivem contra nós, contra os ocidentais.
Consequentemente, preocupar-se com a imigração massiva que o Ocidente tem vindo a sofrer devia ser encarado como algo perfeitamente normal. Não se trata de racismo, nem de xenofobia — é simplesmente uma reacção humana natural. Que tipo de pessoa seria eu se não me preocupasse com Portugal e com França, as minhas duas pátrias? Os meus antepassados lutaram para me legarem esta terra — a mim, bem como aos meus futuros descendentes — e não a estrangeiros. É precisamente daí que vem a palavra “Pátria”: do grego pater (πατήρ), “pai”, ou seja, a terra dos pais. Interrogar-se sobre o futuro, tendo em conta o estado do presente, é — mais uma vez — profundamente humano. Se hoje enfrentamos níveis crescentes de criminalidade cada vez maiores, ligado a gangues étnicos, mas também motins étnicos sempre que uma equipa vence um campeonato, e atentados terroristas islamistas recorrentes… então pergunto: como será em 2030? E em 2050? E em 2100? Existirá ainda um Ocidente reconhecível em 2100?
Este é um pensamento que ninguém nos pode proibir de ter. Não devemos submeter-nos ao “crime de pensamento” (crime-pensar no livro 1984) imposto pelos bem-pensantes. Mais do que nunca, devemos interrogar-nos: Quo vadis, Ocidente? E nós, portugueses? Para onde caminhamos, sendo um povo com uma das mais baixas taxas de natalidade da Europa, com 40% dos jovens a emigrar, e onde agora se acolhem, em massa, imigrantes oriundos de culturas não ocidentais “Todo o homem, e toda a nação, tem o direito sagrado de preservar as suas diferenças e a sua identidade, em nome do seu futuro e em nome do seu passado” dizia o escritor francês Jean Raspail.
Pessoalmente, tinha-me prometido deixar de escrever sobre este tema. No entanto, as vagas de imigração tornaram-se cada vez mais preocupantes. E, perante a proliferação de artigos sobre o assunto, alguns amigos pediram-me que voltasse a escrever sobre a matéria. Em Setembro de 2014, fui convidado pela Rádio Cova da Beira para uma entrevista de mais de uma hora sobre identidade, Civilização Ocidental e imigração. Quando abordava a questão migratória, focava-me sobretudo na realidade de países como França, Reino Unido ou os Estados Unidos. Portugal, em 2014, contava com cerca de 3% de população estrangeira, sendo provavelmente 96% da população de origem europeia nativa — fossem portugueses ou cidadãos de outros países europeus. Esta problemática — a da imigração massiva oriunda do terceiro mundo e a sua relação com as tensões identitárias no Ocidente — sempre despertou o meu interesse.
Em 2019, fui convidado a escrever um artigo sobre imigração em Portugal para um think tank conservador e identitário bem conhecido em França, o think tank Polémia. O artigo, que viria mais tarde a ser incluído num livro sobre “imigração massiva em diferentes países da Europa”, apresentava uma visão relativamente optimista sobre Portugal: tínhamos, na altura (em 2019), cerca de 4% de estrangeiros — muitos dos quais oriundos da Europa (França, Reino Unido, Itália, Alemanha). Hoje, esse número ronda os 16%. Muitos continuam a vir da Europa, é certo, mas muitos outros são oriundos de fora do espaço civilizacional ocidental: África Subsariana, Brasil, Índia, Paquistão, Médio Oriente, sub-continente indiano, Extremo Oriente. Quem ousaria hoje afirmar que a situação em Portugal não é preocupante, tal como o é em tantos outros países do Ocidente? Na altura, olharam para mim como um alarmista. Mesmo alguns dos meus amigos achavam que exagerava. Hoje, já me dizem, meio a brincar, meio a sério: “Ó senhor doutor, até que tinhas alguma razão…”
Os membros da esquerda — sejam jornalistas, professores universitários ou intelectuais — afirmam frequentemente que a direita mente sobre a imigração. Segundo eles, não haverá assim tantos imigrantes oriundos do terceiro mundo a chegar ao Ocidente. Repetem que a Europa sempre foi um continente de imigração. Garantem que os imigrantes não cometem mais crimes do que os nativos europeus. E, por fim, gritam que a islamização é um conceito inventado pela extrema-direita.
Aceito que seja essa a posição deles. Contudo, já que os membros da esquerda e da extrema-esquerda proferem estas afirmações como se fossem verdades absolutas esculpidas em mármore, creio que não se importarão que tentemos desconstruí-las. Afinal, quem está seguro das suas convicções, não deve recear que estas sejam postas à prova com factos. É precisamente isso que me proponho fazer ao longo de uma série de artigos.
Este primeiro texto serve de introdução ao tema. Nos próximos, proponho-me analisar as grandes vagas migratórias: quantos entram, por ano, na Europa? Qual é hoje a percentagem de população não europeia em certos países europeus? Sempre houve imigração extra-europeia para a Europa? Pretendo também abordar a questão económica: será verdade que “os imigrantes vão pagar as nossas reformas”? (uma frase inventada por políticos franceses) — ou, pelo contrário, será que a imigração vinda do terceiro mundo tem um custo acrescido para os Estados? Noutro texto, focar-me-ei na questão da segurança: será que os imigrantes extra-europeus cometem mais crimes e atentados terroristas do que os nativos? Por fim, se o tempo mo permitir, escreverei um texto dedicada à identidade: de que forma é que esta imigração massiva pode impactar as nossas identidades ocidentais? Apenas factos, com base em dados oficiais. Farei sempre questão de disponibilizar as fontes, para que todos as possam consultar.
Mais do que nunca, é essencial que abordemos este tema com lucidez e serenidade, afastando impulsos como o ódio ou a compaixão. Assiste-nos o pleno direito de interpelar os nossos governantes quanto ao rumo que nos impõem. E quem procura silenciar essa interrogação contribui, consciente ou não, para a erosão da liberdade de expressão. Termino este texto com uma citação do antigo eurodeputado Jean-Yves Le Gallou que, por se debruçar há décadas sobre a questão da imigração proveniente do Terceiro Mundo, conhece bem a virulência das reacções de certas elites quando tratamos deste tema:
«Assim, o que deveria ser matéria de debate político — a situação da imigração, os direitos das minorias, ou até mesmo a política ambiental — foi afastado do espaço de discussão livre, a fim de consolidar a doxa progressista: “não tens o direito de dizer, ou sequer de pensar tal coisa, por ser contrária ao direito” tornou-se uma figura clássica da retórica.»