A Iniciativa Liberal nasce em 2017, tem o primeiro deputado em 2019, reposicionando-se mais ao centro com Cotrim de Figueiredo nessa altura. O contexto internacional já estava a mudar, expondo a tensão entre o partido contracultura de Carlos Guimarães Pinto e o da nova liderança. A estratégia mais centrista, captaria mais eleitorados, sobretudo jovem.
O ambiente externo prepara-se, no entanto, para castigar os liberais em Portugal e no mundo. A Rússia invade a Ucrânia, e talvez mais impactante, milhares de estudantes universitários, nos dias seguintes a um massacre de civis em Israel, na prática, sugerem que aquela barbaridade é resistência palestiniana legítima. Desde o final de 2023 até à eleição de Donald Trump o politicamente correto extremou ainda mais. O centrão político tem estado mais à esquerda do que nunca, e é neste novo mundo que os vários tipos de imperfeitos e imperfeições liberais têm consequências para a Iniciativa Liberal e o seu papel crítico na transformação de Portugal.
O novo reinado de Cotrim de Figueiredo parece ter sido metodicamente pensado para a situação em que estamos hoje. Em primeiro lugar, parece ter havido um acordo tácito ou explícito que levou o rei para Bruxelas deixando o principado com cuidadores, incluindo responsáveis por zonas de caça associativa. Em segundo lugar, a estratégia para a passagem de testemunho, revela que, na casa de todos os liberais, alguns não são bem-vindos. Sejam eles um grupo de liberais conservadores que transparentemente dizem não querer um partido woke ou simples membros não alinhados com quem detém o poder, independentemente dos serviços de alto valor prestados ao partido e ao país.
Chegamos assim ao herdeiro Rui Rocha. Com exceção das europeias, devido ao carisma do arquiteto e ao nível da concorrência, a IL parece estar numa fase de inércia de marca, estagna eleitoralmente, falhando a maioria dos objetivos internos e externos previstos na moção de estratégia em vigor. Num partido com outra maturidade, o atual chefe de partido seria fortemente penalizado este fim de semana.
Voltemos ao contexto em que decorre a ação política. Com as eleições norte-americanas, a comunicação do partido decide que os democratas são os seus liberais, mas percebe-se que os eleitores, lá e em muitos países europeus, já não decidem esmagadoramente por preocupações económicas. Os excessos das políticas identitárias de discriminações positivas, a possibilidade de crianças mudarem de sexo à revelia de pais, o aumento da criminalidade e a criação de cidades-santuário para imigração massiva, determinam também a decisão dos eleitores.
Se num contexto assaz favorável, apesar de dizer quase tudo certo ao eleitorado, apenas consegue manter os oito deputados, o que devemos esperar de uma liderança que deliberadamente não uniu o partido?
O eleitorado que mais cresce, que precisaríamos conquistar, parece estar a migrar mais para a direita. Creio que já esgotámos o potencial de crescimento do eleitorado jovem, uma parte dele mais esquerdista, num ambiente político que será cada vez mais extremado.
Nas próximas legislativas, a IL vai tentar falar para que eleitorados? Os mais velhos, diversos e pragmáticos, que estão em deslocação para a direita ou o mais idealista e volátil, quando o politicamente correto está em crise e todos os partidos de esquerda lutam por um bolo menor?
Os vários tipos de imperfeitos e imperfeições liberais têm consequências. Este fim de semana em Convenção Nacional, a decisão soberana de cada membro também tem.