Li recentemente aqui no Observador um artigo sobre comentários homofóbicos naas escolas. Não se tratava de um artigo de opinião mas sim de um artigo informativo escrito por uma jornalista e que se encontra catalogado no grupo “Justiça”.

Fiquei estupefacta não pelo conteúdo em si, mas por surgir num espaço de informação que deve seguir critérios de rigor e isenção que não são compatíveis com a divulgação de ideias que parecem veicular uma ideologia em vez de divulgar notícias.

Numa leitura simples do artigo em questão, rapidamente nos sentimos tocados pela existência de um problema e pela forma como o problema pode não estar a ser tratado. Na realidade, numa análise mais cuidada, verificamos que não há problema e que,c se houvesse, as dicas apresentadas no sentido da sua contenção, não o resolviam e pelo contrário o podiam agravar.

O problema apresentado pela jornalista é a existência de adolescentes alegadamente gays, lésbicas, etc. que são maltratados nas escolas. A base deste artigo é um estudo da iniciativa da Associação ILGA Portugal e conduzido alegadamente em duas universidades portuguesas.

De acordo com o artigo somos levados a pensar que um grande número de jovens estarão a ser de alguma forma maltratados nas escolas por causa da sua preferência sexual. Fui ler o estudo e verifiquei que a amostra não está apresentada com um mínimo de dados que a credibilizem (margem de erro, nível de confiança, entre outros). Apenas nos é dito que foram recolhidos 663 questionários (também não diz se foram validados) sendo 67,2% de jovens de zonas urbanas num intervalo de idades entre os 14 e os 20 anos. Só esta ausência de informação seria caso para não publicar o estudo, nem o usar como base de uma notícia. Estou convencida que eu própria recolheria com grande facilidade mais de 600 questionários em que a resposta seria que não existe homofobia nas escolas para os alunos com preferências sexuais alternativas. (Claro que a tarefa ainda seria mais fácil se tivesse financiamentos semelhantes aos disponibilizados à associação referida).

Portanto, o estudo apresentado (acede-se por um link disponibilizado no artigo) não apresenta nenhuma credibilidade.

O segundo tema, mas que é o principal, é que a forma como o artigo está escrito nos conduz a sentir que não existe interesse em resolver o suposto problema e que a solução poderia ter a ver com “acções de visibilidade positiva da temática LGBTI”.

Então vamos ao suposto problema: a amostra contém idades dos 14 aos 20 anos. Porque existe em Portugal uma lei que indica que um jovem maior de 18 anos pode decidir inscrever outro sexo no seu CC, e porque os jovens acima dos 18 anos representam na amostra apenas 6% do total, vou desconsiderá-los nesta análise. Seguramente sabemos que entre os 14 e os 18 anos é muito frequente a existência de inquietações quanto à preferência sexual e que essa situação decorre do normal desenvolvimento dos jovens. Ora quando perante uma inquietação se pretende responder contrariando a natureza e valorizando a intuição de um jovem em desenvolvimento, estamos a prejudicar a sua capacidade de discernimento.

Quando alguém tem dúvidas sobre a sua orientação sexual ou identidade de género deve haver em primeiro lugar um apelo à realidade, ao que o seu corpo lhe diz sobre quem é. As pessoas dividem-se em Homens e Mulheres. Isso é o que as define. A orientação sexual não define a sua essência. Uma preferência é apenas uma preferência. Os comportamentos que este artigo classifica como homofóbicos são comportamentos que reforçam a pertença à realidade determinada pelo corpo, pelo código genético da pessoa. São comportamentos que se destinam a reforçar o sentimento de pertença sem o qual dificilmente um jovem se consegue identificar. Claro que não defendo que devam existir comportamentos humilhantes ou, de qualquer outra forma, agressivos, mas quando se diz no estudo que a maior parte dos comentários vêm de colegas, estamos então a falar dos seus pares onde a liberdade de linguagem é diferente daquela que se exige numa relação professor/aluno.

Infelizmente, em geral o que ouve um jovem que se depara com uma atracção pelo mesmo sexo é: “Boa, és gay, quando vais assumir?” em vez de “Já pensaste no que isso pode querer dizer? Nós sentimo-nos atraídos por aquilo que vemos como um bem, algo que queremos para nós. Nesse sentido será que a tua atracção não será porque gostavas de ser como ele?” ou qualquer outra coisa que faça o jovem pensar e não o empurre para uma auto identificação forçada a um determinado estereotipo da perspectiva dominante de género.

Portanto diria que deve ser nossa preocupação ajudar os jovens na formação da sua identidade em vez de nos aproveitarmos dessa fase frágil do seu desenvolvimento para a usarmos ao serviço de uma ideologia.

Conclusão:

  1. Agradeço ao Observador o papel importante que tem tido ao dar a palavra a portugueses comuns como eu, para que possam expressar a sua opinião;
  2. Condeno em qualquer meio de comunicação a falta de rigor na identificação do que é notícia e do que é opinião ou veiculação sub-reptícia de ideologias, deixando os leitores ou enganados ou com “a pedra no sapato”;
  3. O artigo em questão é, na minha opinião, mais uma acção de promoção da ideologia de género responsável pelo aumento da tristeza e infelicidade dos nossos jovens;
  4. Acredito que é real o problema de alguns jovens na aceitação da sua sexualidade e que temos obrigação de os ajudar sem complexos, preconceitos ou constrangimentos, mas com apoio do conhecimento médico sobre o assunto.