Este fim-de-semana, andei a recolher assinaturas para o referendo à eutanásia. Custou-me bastante porque é horrível pensar que uma questão tão séria como o direito e o dever de vivermos precisa de ser referendado, tentando travar uma decisão imposta por um Parlamento que não ouve os especialistas sobre o tema, que não verifica os efeitos terríveis da eutanásia nos países que a praticam e que não procura cuidar da saúde do povo que o elegeu optando por lhe oferecer a opção do desespero: a morte.

A proposta da eutanásia, a ser aprovada, é a confissão de que o Parlamento considera que a vida dos portugueses mais frágeis é opcional. Se alguém muito fragilizado sentir que a sua vida não vale a pena pode contar com um serviço público que lhe tire a vida poupando assim dinheiro ao estado.

Mas dizia eu que fui recolher assinaturas para o referendo da eutanásia. E o que vi? Diria que a totalidade das pessoas que abordei eram contra a eutanásia e que algumas delas estavam de tal forma chocadas com a questão que achavam, na sua ingenuidade, que não era preciso referendo porque a vida não se referenda. Estas últimas tinham razão quanto ao facto de a vida não ser referendável. Acontece que, quando temos um parlamento que não quer ouvir o povo, só resta ao povo unir-se e usar a derradeira forma de ser ouvido: o referendo. E ainda assim é uma forma arriscada porque havendo referendo, haverá excesso de desinformação a começar na linguagem: morte assistida como se a morte quando é natural não devesse ser também assistida; morte digna, como se fosse possível dizer que alguém que desiste de viver o faz por dignidade e não por falta de forças para continuar a viver ou porque lhe dizem que é mais fácil e melhor para todos desistir; a morte por vontade do próprio: quer dizer que a vontade do próprio vale mais do que a sua própria vida.

O que é isto de querer desistir de viver? Só quem não teve já um profundo desgosto não sabe responder a esta pergunta. E o que nos alenta nessa situação? A certeza de que a vida não é só nossa, é também da nossa família e dos nossos amigos. Pertencemos uns aos outros e por isso uma decisão individual sobre ficar vivo não faz sentido. E também nos alenta saber que só há um caminho: seguir vivendo. Quando sabemos que só há um caminho procuramos vivê-lo da melhor maneira, seja qual for a circunstância em que nos encontramos. Quando nos oferecem a desistência e estamos fragilizados, podemos cair no erro de aceitar desistir.

Retomo mais uma vez o fio à meada: a recolha de assinaturas. Percebi claramente que cada pessoa em liberdade tem desejo de viver. Falei com imensos idosos porque a zona onde vivo tem muitos idosos. As reacções que tive à pergunta sobre se quer assinar a petição, para além do sim quero assinar, foram o desejo de falar, de desabafar, de mostrar a sua tristeza, o seu medo quanto ao futuro. E muitos não receavam o seu futuro, mas sim o das gerações seguintes que viverão num mundo cada vez mais desumanizado, mais desinteressado dos frágeis excepto quando os frágeis são úteis para dar votos ou para fazer um programa de televisão com deficientes ou velhinhos (fica sempre bem dar um toque sentimental e no caso da RTP pode justificar os impostos que pagamos por se tratar de um serviço público).

Muitas pessoas que abordei me perguntavam se eu sabia o porquê desta lei? E diziam: só “eles” (os deputados) é que querem isto, mas “eles” foram eleitos por nós e nós não queremos isto! Outras aproveitavam para se queixar de uma dor, uma doença e agradeciam a atenção que lhes dispensei.

Interessante foi também ver filhos e netos em alguns casos a dizer Pai/ Mãe/ Avô/ Avó assine, eu também vou assinar. Não se preocupe, temos tempo. Foi bom ver os mais novos também interessados em assinar e tristes com esta lei. Tive adolescentes a pedir para assinar, mas que não tinham idade e ficavam desolados de não poder contribuir com a sua participação.

Foi um fim-de-semana cansativo, mas rico porque a realidade conhece-se no contacto com as pessoas. E por sentir que pequenos gestos dão alento. Muitas pessoas diziam: já sei que vamos perder, mas é tão bom sabermos que não estamos sozinhos, que ainda há quem lute por dar a conhecer a verdade mesmo quando o poder não quer saber da verdade!

Pode ser que acabemos mesmo por perder, mas eu ganhei este fim-de-semana. Obrigada a todos os que assinaram a petição, a todos os que confiaram em mim para um desabafo, a todos os que não desistem. É disto que se trata, de não desistir, de ir até ao fim. Um dia todos morreremos, mas será de forma digna se não desistirmos de viver.