A auditoria à Caixa Geral de Depósitos não foi entregue ao Parlamento, que teve a iniciativa para que fosse requerer, por alegada violação do sigilo bancário e do segredo de justiça. Como resposta, os deputados do PS, PCP e BE, que aprovaram o acesso do fisco aos depósitos bancários dos cidadãos acima dos 50 mil euros, ficaram calados. Se perante o cidadão comum são implacáveis, já defronte a um banco público, que custa milhões aos contribuintes, piam fino.

A Caixa Geral de Depósitos perdeu cerca de 1,2 mil milhões de euros em financiamentos porque ignorou os pareceres dos órgãos competentes. Fê-lo porque as razões para esses financiamentos não foram económicas, mas políticas. Perante este facto, o que conclui o Ministro das Finanças? Que se deve separar a política da economia? Não! Nem por sombras. A conclusão a que chega Centeno, que é tão sumptuosa quanto as perdas da Caixa, é que a direita quer vender o banco público. Sim, a direita. A direita que a ser acusada de algo nesta história é de ter sido conivente com a existência de um banco público. Porque depois de anos de regabofe o que interessa agora é atirar poeira para o olhos. Confundir. Baralhar, dar de novo e continuar como dantes. Que não se tirem ilações. Que não se aprenda nada de nada.

A maior de todas as piadas é a que traz à baila o liberalismo. Essa ideologia nefasta, que propugna o gosto horrível pelo lucro, é a grande culpada pelo que aconteceu na Caixa. Não interessa que um liberal seja contra a existência de um banco público. Que perante a falência de um banco privado se oponha ao seu resgate com o dinheiro dos contribuintes. Nada disso. A única coisa que interessa é culpar a ideologia em que apenas duas ou três pessoas em Portugal acreditam e a praticam. Esses sim, coitados, são os culpados. Não os que aprovaram os financiamentos, não os que receberam o dinheiro, não os que fecharam os olhos e encolheram os ombros.

Se fôssemos anjos, já dizia Madison, se fôssemos anjos a CGD teria sido gerida com rigor, o banco público não teria servido de porta giratória entre a política e os negócios. Se fôssemos anjos, os governos não teriam intervindo na política financeira dando estímulos à actividade bancária; os bancos privados não teriam sido aliciados, nem teriam respondido afirmativamente, para entrarem de cabeça em aventuras financeiras e empresariais aguardando por favores políticos. Seria tudo gente honrada. Como não somos, somos humanos, há muita matéria que tem de ser pensada com cuidado e sem preconceitos.

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