Sinceramente não compreendo toda a indignação à volta de José Berardo. Surpreende-me sim a indignação de um país que outrora se deslumbrou com um ‘empresário’ que dizia gostar de arte. Talvez por ser jurista nada do que o ‘empresário’ disse no Parlamento me espanta. Admira-me é que os deputados tenham sido tomados de surpresa. No fundo, as leis até são feitas por eles. Mas o pior não é isso, até porque a lei que separa o património pessoal do das empresas não visa ajudar ‘empresários’, mas proteger quem, criando empresas, cria empregos. O que sempre estranhei foi o deslumbramento de um país perante um homem que se apresentou como um homem de negócios fora-de-série, mas que não passava de um mestre de artifícios para embasbacar ingénuos.

Confesso que já não me lembrava, mas o Observador recordou-nos que Marcelo Rebelo de Sousa, então comentador televisivo, considerou Berardo a figura do ano de 2007. O agora presidente da República não foi o único. Berardo tinha assente quase permanente na televisão, quando ainda poucos se preocupavam com as fake news. Estávamos no período auge do socratismo. Do animal feroz, lembram-se? O tempo em que o primeiro-ministro da época era um herói e em que os ministros de então (muitos dos quais são também ministros de agora) o idolatravam. O tempo em que Sócrates usou a PT para comprar a TVI e dominar os media. O tempo em que Sócrates destruiu a PT. Em que tentou controlar o BCP com o dinheiro da Caixa Geral de Depósitos. O tempo em que os socialistas quase destruiram a Caixa. Em que o governo de então quase faliu o Estado e as principais empresas. E tudo isso debaixo de um estrondoso aplauso da maioria do país. Aquele tempo, não assim tão longínquo, em que os que falavam contra eram perseguidos ou ridicularizados. Lembram-se de Manuela Moura Guedes? E de Medina Carreira? E de tantos outros que o faziam na blogosfera e cujo nome poucos conhecem?

Dir-me-ão que são tempos passados. Não são. Os que seguiam Sócrates seguem hoje Costa. Costa não é tão baixo quanto Sócrates, não se envolve nesse tipo de negociatas, mas ilude o país com as suas políticas tal como fazia o anterior primeiro-ministro socialista. Ilude e, iludido, o país segue-o. Iludidos, os comentadores de serviço dizem precisamente as mesmas coisas que diziam anteriormente: que temos um primeiro-ministro muito hábil e muito esperto. E que isso chega. Que o país continue refém de um eleitorado envelhecido e instalado no Estado, tal já não interessa. Trata-se de um eleitorado que vota e um primeiro-ministro esperto sabe isso melhor que ninguém. Só um primeiro-ministro desfazado da realidade (para outros seria um estadista) governaria contra esse eleitorado. Tal como não importa que a mudança da página da austeridade signifique uma carga fiscal recorde; não desperta sequer a dúvida que o défice mais baixo da democracia tenha sido conseguido com cortes na saúde, com consequências gravissímas na vida das pessoas. Não interessa que o país não tenha aproveitado estes últimos quatro anos para se preparar para o abrandamento da economia mundial. Tudo isso é indiferente porque um primeiro-ministro esperto sabe que só governa para uma legislatura. Que depois logo se vê. Que só um primeiro-ministro desfazado da realidade (para outros seria um estadista) agiria de outra forma. Este é o tempo dos espertos e o que me surpreende é que depois de tudo o que se passou as pessoas ainda se pasmem quando, em pleno Parlamento, um espertalhão se ri na nossa cara.

Advogado