Rádio Observador

Caixa Geral de Depósitos

Não se indignem. Pensem /premium

Autor
125

Mais do que o comportamento de Berardo no Parlamento, o que surpreende é a indignação dos que ainda acham que é com o mais Estado na economia que se resolve a promiscuidade entre Estado e negócios

Sinceramente não compreendo toda a indignação à volta de José Berardo. Surpreende-me sim a indignação de um país que outrora se deslumbrou com um ‘empresário’ que dizia gostar de arte. Talvez por ser jurista nada do que o ‘empresário’ disse no Parlamento me espanta. Admira-me é que os deputados tenham sido tomados de surpresa. No fundo, as leis até são feitas por eles. Mas o pior não é isso, até porque a lei que separa o património pessoal do das empresas não visa ajudar ‘empresários’, mas proteger quem, criando empresas, cria empregos. O que sempre estranhei foi o deslumbramento de um país perante um homem que se apresentou como um homem de negócios fora-de-série, mas que não passava de um mestre de artifícios para embasbacar ingénuos.

Confesso que já não me lembrava, mas o Observador recordou-nos que Marcelo Rebelo de Sousa, então comentador televisivo, considerou Berardo a figura do ano de 2007. O agora presidente da República não foi o único. Berardo tinha assente quase permanente na televisão, quando ainda poucos se preocupavam com as fake news. Estávamos no período auge do socratismo. Do animal feroz, lembram-se? O tempo em que o primeiro-ministro da época era um herói e em que os ministros de então (muitos dos quais são também ministros de agora) o idolatravam. O tempo em que Sócrates usou a PT para comprar a TVI e dominar os media. O tempo em que Sócrates destruiu a PT. Em que tentou controlar o BCP com o dinheiro da Caixa Geral de Depósitos. O tempo em que os socialistas quase destruiram a Caixa. Em que o governo de então quase faliu o Estado e as principais empresas. E tudo isso debaixo de um estrondoso aplauso da maioria do país. Aquele tempo, não assim tão longínquo, em que os que falavam contra eram perseguidos ou ridicularizados. Lembram-se de Manuela Moura Guedes? E de Medina Carreira? E de tantos outros que o faziam na blogosfera e cujo nome poucos conhecem?

Dir-me-ão que são tempos passados. Não são. Os que seguiam Sócrates seguem hoje Costa. Costa não é tão baixo quanto Sócrates, não se envolve nesse tipo de negociatas, mas ilude o país com as suas políticas tal como fazia o anterior primeiro-ministro socialista. Ilude e, iludido, o país segue-o. Iludidos, os comentadores de serviço dizem precisamente as mesmas coisas que diziam anteriormente: que temos um primeiro-ministro muito hábil e muito esperto. E que isso chega. Que o país continue refém de um eleitorado envelhecido e instalado no Estado, tal já não interessa. Trata-se de um eleitorado que vota e um primeiro-ministro esperto sabe isso melhor que ninguém. Só um primeiro-ministro desfazado da realidade (para outros seria um estadista) governaria contra esse eleitorado. Tal como não importa que a mudança da página da austeridade signifique uma carga fiscal recorde; não desperta sequer a dúvida que o défice mais baixo da democracia tenha sido conseguido com cortes na saúde, com consequências gravissímas na vida das pessoas. Não interessa que o país não tenha aproveitado estes últimos quatro anos para se preparar para o abrandamento da economia mundial. Tudo isso é indiferente porque um primeiro-ministro esperto sabe que só governa para uma legislatura. Que depois logo se vê. Que só um primeiro-ministro desfazado da realidade (para outros seria um estadista) agiria de outra forma. Este é o tempo dos espertos e o que me surpreende é que depois de tudo o que se passou as pessoas ainda se pasmem quando, em pleno Parlamento, um espertalhão se ri na nossa cara.

Advogado

Não queremos ser todos iguais, pois não?

Maio de 2014, nasceu o Observador. Junho de 2019, nasceu a Rádio Observador.

Há cinco anos poucos acreditavam que era possível criar um novo jornal de qualidade em Portugal, ainda por cima só online. Foi possível. Agora chegou a vez da rádio, de novo construída em moldes que rompem com as rotinas e os hábitos estabelecidos.

Nestes anos o caminho do Observador foi feito sem compromissos. Nunca sacrificámos a procura do máximo rigor no nosso jornalismo, tal como nunca abdicámos de uma feroz independência, sem concessões. Ao mesmo tempo não fomos na onda – o Observador quis ser diferente dos outros órgãos de informação, porque não queremos ser todos iguais, nem pensar todos da mesma maneira, pois não?

Fizemos este caminho passo a passo, contando com os nossos leitores, que todos os meses são mais. E, desde há pouco mais de um ano, com os leitores que são também nossos assinantes. Cada novo passo que damos depende deles, pelo que não temos outra forma de o dizer – se é leitor do Observador, se gosta do Observador, se sente falta do Observador, se acha que o Observador é necessário para que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia, então dê o pequeno passo de fazer uma assinatura.

Não custa nada – ou custa muito pouco. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
PSD

O que é que fizeram à direita? /premium

André Abrantes Amaral
292

O PSD que vai a votos a 6 de Outubro não é o que governou entre 2011 e 2015. É o PSD de Rui Rio, de Pacheco Pereira e de Ferreira Leite. É o PSD dos que concertadamente comentam realidades virtuais.

Brexit

Um elogio ao parlamentarismo britânico /premium

André Abrantes Amaral

O referendo, com o seu carácter limitativo da discussão em causa, não permite um debate verdadeiro com negociação e cedência. Passada a tempestade, a democracia parlamentar britânica sairá reforçada.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)