Todos os anos, por esta altura, assistimos a um ritual curioso. Não me refiro à troca de presentes ou à Missa do Galo, mas à tentativa sazonal de rebatizar Jesus de Nazaré. Nas redes sociais e em certos discursos políticos, a figura central do Cristianismo é apresentada como um “refugiado palestiniano”, um “revolucionário anticolonial” ou, mais recentemente, um homem negro.

Estas afirmações, embora politicamente rentáveis para certas narrativas contemporâneas, esbarram num obstáculo inegociável: a História. E a História é teimosa.

Vamos aos factos, despidos de paixões ideológicas. Jesus nasceu judeu, viveu como judeu e morreu como judeu. Nasceu em Belém, na Judeia, e cresceu em Nazaré, na Galileia. Naquele tempo, não existia nenhuma entidade política, administrativa ou cultural chamada “Palestina”. A região estava sob ocupação romana, dividida em províncias e reinos clientelares (como a Judeia, Galileia, Samaria).

“Há, aliás, uma prova forense que encerra qualquer dúvida, gravada no momento mais agudo da sua biografia. Quando Jesus foi executado, a autoridade romana, Pôncio Pilatos, mandou pregar na cruz a causa da sua condenação. Não escreveu ‘agitador da Palestina’ ou ‘rebelde regional’. O titulus era claro e trilingue: ‘Jesus Nazareno, Rei dos Judeus’ (INRI). É uma ironia suprema: até o Império Romano, na sua crueldade burocrática, reconhecia a identidade que os ativistas de hoje tentam apagar. Jesus morreu como judeu, condenado sob uma acusação judaica, numa terra chamada Judeia

Dizer que Jesus era palestiniano é um erro histórico grosseiro, equivalente a dizer que Viriato era espanhol ou que D. Afonso Henriques era um cidadão da União Europeia. O nome “Syria Palaestina” só foi imposto à região pelo Imperador Adriano no ano 135 d.C., um século após a morte de Jesus, como punição após a revolta judaica de Bar Kokhba. O objetivo romano era claro: apagar a ligação judaica à terra, renomeando-a com o nome dos arqui-inimigos bíblicos dos judeus, os Filisteus (do hebraico Plištim). Chamar a Jesus, um judeu da casa de David, pelo nome dos inimigos ancestrais do seu povo, não é apenas um anacronismo; é uma ironia cruel que a ignorância moderna transformou em slogan.

Aqui entra a dimensão mais profunda, quase metafísica, deste debate. O que estamos a assistir não é apenas a uma disputa por terminologia, mas ao triunfo do “presentismo”.

Vivemos numa era narcisista que é incapaz de aceitar o passado como um “país estrangeiro”. Recusamo-nos a deixar que os mortos sejam quem foram. Precisamos de colonizar o passado, vestindo as figuras históricas com as camisolas das nossas causas atuais. Se a causa é o anticolonialismo, Jesus vira um guerrilheiro; se a causa é a identidade racial, Jesus muda de cor.

Esta manipulação revela uma crise na nossa relação com a verdade. A verdade factual tornou-se irrelevante perante a “verdade emocional”. Se dizer que “Jesus era palestiniano” ajuda a criar empatia com o sofrimento atual em Gaza, então a precisão histórica é sacrificada no altar da bondade moral. Mas a mentira, mesmo quando bem-intencionada, corrói o tecido da realidade.

O mesmo se aplica à obsessão com a raça. A probabilidade de Jesus ser negro (no sentido subsaariano do termo) ou branco (no sentido nórdico/europeu) é nula. Jesus era um semita do Levante. Um homem de pele olivácea, cabelo escuro, traços do Médio Oriente.

Há uma confusão geográfica primária que alimenta estes mitos: a ideia de que estar em África implica, necessariamente, ser negro. Os antigos egípcios, tal como os modernos, são africanos, mas pertencem a um ramo étnico e genético distinto das populações da África Subsariana. A geografia não dita a fenotipia de forma linear. Querer impor as categorias raciais americanas do século XXI à demografia do Mediterrâneo Oriental do século I é de uma preguiça intelectual atroz.

Jesus não precisa de ser “palestiniano” para que tenhamos compaixão pelos palestinianos de hoje. Jesus não precisa de ser “negro” para que o racismo seja condenável. E Jesus não precisa de ser “europeu” para ser o pilar do Ocidente.

Ao tentarmos forçar Jesus a caber nos nossos moldes identitários, estamos a fazer exatamente aquilo que os seus contemporâneos tentaram e falharam: domesticá-lo. Queriam um Rei guerreiro, ele deu-lhes um servo sofredor. Hoje, queremos um ativista político ou um símbolo identitário, e esquecemos o essencial.

Confundir História com slogans é perigoso. Começa-se por reescrever a origem de um homem e acaba-se por reescrever a legitimidade de povos inteiros. Jesus foi um judeu da Judeia. Aceitar isso não é sionismo, nem política; é apenas respeito pela pouca verdade que nos resta num mundo viciado em pós-verdade.