Um dos mais fascinantes filmes da história da cinematografia é o épico desportivo Chariots of Fire. Um título traduzido para português por Momentos de Glória, quiçá devido ao desconhecimento que a expressão em inglês provém do hino  Jerusalém de William Blake, o qual, por sua vez, se inspira numa passagem bíblica que traz, exatamente e como tal hino, a expressão «carros de fogo»: Segundo Livro dos Reis, Capítulo 6, Versículo 17. Só esta alteração quase que mereceria ‘prisão’, mas admito, contrariado, que não está mal de todo.

Também não deve ser segredo nenhum que grande parte do sucesso dessa obra se deveu à banda sonora elaborada pelo genial Vangelis. Quase me apeteceria dizer que sem as, heroicas e (ou) comoventes, músicas do referido compositor grego, o filme em apreço não teria tido o sucesso que obteve aquando dos Óscares de 1982. Mas posso estar enganado. É o habitual. Tenho que viver com isso.

Mas o que me apraz trazer até vós é o tema do (anti-)judaísmo nesse filme. Não um anti-judaísmo aberto, mas sem dúvida nenhuma que um judaísmo explícito na personagem (baseada em alguém real) do velocista Harold Abrahams (desempenhado pelo recém-falecido ator Ben Cross).

Harold é, pelo menos, uma personagem complexa. Digo «pelo menos», pois não li nenhuma biografia sobre o mesmo, não conhecendo assim a pessoa. Assim, é sobre a representação desta que centrarei a minha atenção, por mais que se trate de uma daquelas personagens da “sétima arte” que só conseguimos decifrar, e só parcialmente, quando a vemos na obra em que surge desde diversas camadas.

Sofrendo de um complexo de superioridade pela sua veia intelectual e desportiva, sofre igualmente de um complexo de inferioridade pelo facto de ser judeu na Inglaterra da década de 20 do século transato. É um “tanque” portentoso de força e disciplina e uma “borboleta” sensível e quixotesca. Alguém que, sem negar as suas diversas identidades (inglês, aluno de Cambridge e judeu), combate sobretudo a si mesmo sem saber porquê (aqui voltarei).

A dado momento do filme, e depois de uma conversa com Harold, os decanos de dois colégios da aduzida Universidade Inglesa (onde não creio que se queira dar nota máxima a uma questão de um exame apenas por os alunos comparecerem ao mesmo) dizem: «É um judeu. Um outro Deus. Uma outra montanha».

Erram, desde a perspetiva cristã, quanto a «outro Deus» (sem desejar minorar o valor imprescindível, irrefragável e irretirável do povo judeu na economia salvífica); acertam quanto a «outra montanha».

Já Paul Beauchamp escreveu “D’une montagne à l’autre”, mostrando o salto qualitativo entre dois precipícios. Por um lado, a montanha do Sinai e a ‘lógica do mínimo’ dos ‘10 ensinamentos’ da Lei. Por outro lado, a montanha do “Evangelho segundo São Mateus” e a ‘lógica do máximo’ das ‘Grande Alegrias’ (comummente conhecidas por ‘Bem-Aventuranças’).

E isto é decisivo no filme, notavelmente no contraste entre o judeu Harold Abrahams e o cristão Eric Liddell. O primeiro vive para (se) provar e vencer; o segundo para (se) comemorar e ser vitorioso.

Harold não tem ilusões. Logo no começo da obra diz: «É uma aflição, um desamparo e raiva…  a pessoa sente-se humilhada». Ele sente-se assediado por todos os lados por referências culturais ao Cristianismo.

A um Cristianismo que, contra a sua identidade e derivando para a idolatria, não foi quem menos ódio mostrou aos judeus através da história. Pior, e nesse caso já não contra a sua identidade e mostrando o que é a sua santidade, só mesmo o islamismo (alguém já se deu ao trabalho de ver que, por exemplo, Os Protocolos dos Sábios de Sião estão cheios de invetivas islâmicas?).

Harold vive contra a corrente. Se calhar apenas sobrevive como judeu, sem se ter sentido como tal até à sobredita perceção que o asfixia. Mas não está morto e, assim, avança, «arrogante e defensivo a ponto de ser agressivo», para a fonte, «como o vento» contra uma parede.

É judeu. Os demais correm a favor da corrente social e isso só o faz admitir que «enerva-me». Mas a sua epifania ainda está para vir. Epifania? Talvez ‘parto’ seja melhor.

De qualquer modo, tipicamente buscando a Deus (no Cristianismo é essencialmente ao contrário), Harold acaba a aceitar que a iniciativa de Deus se manifesta por todo o lado. Não para diminuir a nossa ação, mas para lhe garantir toda a sua amplitude e toda a sua fecundidade. Mas para isso é preciso apaixonar-se pela Sua Sabedoria; talvez l’éternel féminin – não o da triste e desvalida psicologia faustiana, mas o de Teilhard de Chardin.

É este feminino, presente neste filme na personagem de Sybil Gordon, que o faz admitir, sem o dizer, que quer correr para combater o ser judeu, que esse correr é uma arma contra o seu judaísmo. Um judaísmo que, porém, é o seu sangue.

Sangue: não, pois, uma emoção, mas um intrever: um ver dentro de si, das coisas e até do inefável. Eis porque a derrota é inconcebível, e quando acontece a desproporção entre a miséria humana e a compaixão humana se revela enorme. Mas possível de ser superada, sempre que vivido em sentido contrário aos clichés do mundo.

Ocorre que, como bem diz Andrew Lindsay, «o mundo está contra ele, ou pelo menos é o que ele acredita. Agora ele tem a oportunidade de provar o seu valor. Para Harold, é uma questão de vida ou morte». Harold vai ter que ser «desfeito, pedaço por pedaço» quanto ao que lhe é natural, mas não senão para que um outro natural mais essencial brilhe.

Quem morreu na Cruz foi um judeu: Jesus. Mas como a sua natureza humana não estava ligada a uma pessoa humana, Ele transcende infinitamente todas as diferenças na união de tal natureza à infinidade da Sua pessoa divina.

«Para cima, para cima, para cima! Leve, leve, leve! Leve como uma pena!» Eis uma série de chapadas na autocomiseração de Harold. Ele só será ele se for capaz de se ver do modo mais cruel, cínico, paródico e hostil representação do que é. Mas precisa de passar por aí.

A essência do judaísmo é a reciprocidade, paradoxal certamente, entre Deus e o ser humano. Do Deus que espera que o justo chegue até si. O receio das alturas assemelha-se aqui à infantilidade. À sua boutade: «Eu pura e simplesmente não sei o que fazer», diz Harold. «Tente crescer», responde Sybil.

Harold, vai crescer quando finalmente admite: «Estou sempre em busca e nem sei o que estou a perseguir. Estou com medo. Lute[i] e sofr[i] por isto. Dia após dia. Louco. Conheço o medo de perder. Mas agora estou quase com medo de ganhar. E para quê?». A resposta mais simples, mas não a mais exata – já regressarei a isso –, é que tudo isso foi para estar na final dos 100 metros dos Jogos Olímpicos de Paris de 1924.

Ele vai ganhá-la, correndo ‘fora de si mesmo’, numa experiência que toca o espiritual. Eis a liberdade dos interesses próprios. Isto não significa ser neutro ou imparcial, antes ser um apoiante de Deus no deixar para trás o “egoísmo”.

A Lei judaica é isto: é uma resposta para aquele que descobre que a vida é amor. É, pois, um despertar da consciência. Uma consciência ‘trazida’ para o nosso Mundo pelo judaísmo, e razão fundamental, diz George Steiner, de todos os antissemitismos.

Eis algo análogo ao sentido por Harold depois da sua vitória. Chamam-no. Não ouve. Celebram. Mas também não vê. Está absorto no que está a fazer. Mais uma vez é Andrew Lindsay, Lord Andrew Lindsay, que serve, no filme, de ‘coro grego’, para explicar o que poucos de nós pudemos sentir na vida: «Ele venceu! É o melhor do Mundo! Deixemo-lo em paz. O coitado está destroçado. Ganhar é algo bastante difícil de engolir».

A consciência do ganhar, em especial o ganhar o direito a existir e a viver, é, para um judeu, parecida à consciência com que ele vive diariamente apesar de milhares de anos a ser perseguido. A minha empatia está toda com eles. E sobretudo o meu amor.

Nada do que agora escrevi salvará um judeu, mas como desejo que vivam em ‘carros de fogo’! Em carros de honra e fidelidade ante um Deus (se possível Amor) que carece da sua misericórdia. Se assim acontecer, e juntando eu Adorno e Celan, será sempre possível e preciso escrever poesia judaica depois de Auschwitz, mesmo que em alemão.