A liderança deixou de ser um campo de batalha onde mandava quem era mais forte. Deixou? Não te enganes: é daí que tudo vem. Seguir o mais forte — ou quem parece ser mais forte — é um instinto que carregamos na pele há milénios. Num mundo ancestral, antigo, quem liderava era quem caçava melhor, protegia o grupo, vencia as guerras. Era quem garantia que a tribo sobrevivia. Essa força ancestral ainda vive em nós. É e será complexo apagar o peso da memória genética e da forma como se faziam as coisas. Mascarámos, antes, esta realidade com discursos de empatia, slogans de bem-estar e palavras bonitas sobre propósito. No fundo, porém, continuamos a seguir quem transmite força. Quem parece saber. Quem nos dá segurança. Sim, quem nos dá segurança. Mesmo que o faça em silêncio.
O mundo mudou, verdade. E tu sabes isso. Hoje pede-se que o líder seja humano, empático, compreensivo. E é bom que o seja e que haja espaço para esta nova abordagem. O problema é que, na prática, esta ideia de liderança humanizada choca com uma outra realidade que é também tua: todos dizem querer viver em democracia, mas poucos querem decidir. Todos falam de liberdade, mas a maioria foge da responsabilidade que vem com ela. A liberdade é deliciosa até ao momento em que te pedem que assumas o resultado.
Queres autonomia, mas não queres que te cobrem por essa autonomia. Queres propósito, mas não queres o desconforto de o construir. Sim, desconforto. Porque construir na realidade propósito requer desconforto. E muito. Queres um “chefe bom”, mas, lá está, que resolva também os problemas que não queres enfrentar. E por isso, mesmo nas empresas mais horizontais, o olhar continua a procurar aquele que decide, que assume, que orienta. O mais forte. Só que hoje a força não está no grito nem no murro, mas, antes, na clareza e na serenidade de quem sabe o que faz, mesmo quando o mundo parece perder-se em discursos vazios.
Os tempos são curiosos. Todos reclamam equilíbrio, tempo livre, férias, viagens — e é legítimo. Mas há também uma fuga evidente, clara, confrangedora até, à liderança. Fala-se de “work-life balance” como se fosse um escudo contra qualquer esforço. Fala-se de bem-estar como se fosse sinónimo de ausência de compromisso. Queres liberdade, mas esqueces-te de que a liberdade, no trabalho e na vida, exige responsabilidade. Quereres tudo sem risco é o mesmo que quereres andar à chuva sem te molhares.
Liderar, hoje, é quase, então, um ato de resistência. É aceitar o peso que os outros largam. É ficar quando os outros se vão. É decidir quando todos preferem adiar. É continuar a representar — mesmo sem o querer — essa figura ancestral do mais forte. Porém, agora, não pela força física. Mas pela força interior de aguentar o silêncio, de manter o rumo, de carregar a responsabilidade quando ninguém mais quer. É essa a nova liderança. Diz-se que com equipas. Verdade. E ninguém fará nada sem boas equipas. Mas, no fim do dia, quando todos desaparecem, terás no máximo um ou dois aliados férreos que te ajudarão incondicionalmente – se os tiveres. O resto, bom, o resto estará à procura do seu próprio equilíbrio, do seu período de descanso imperturbável, dos seus momentos de desconexão.
A liderança humanizada é necessária, óbvio — mas não pode nunca ser confundida com fragilidade. O líder empático não é o que abdica. É o que ouve e depois decide. É o que acolhe e depois orienta. É o que entende os medos dos outros. Porém, não se deixa comandar por eles. É, no fundo, quem continua a carregar a responsabilidade que os outros recusam.
E talvez seja essa a verdadeira força hoje: a de saberes estar só, quando todos fogem do peso de decidir. A de continuares a caminhar quando o silêncio te acompanha — e perceberes que, nesse silêncio, está a tua maior clareza. E até a tua maior libertação. Saber do que estás disposto a abdicar, preparado para decidir e aprenderes a estar sozinho, ao fim do dia, serão argumentos fortíssimos para que possas liderar. Mas há cada vez menos, mais ainda nos mais jovens, que queiram esta vida sem prescindir do bem bom de tudo o resto.