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Nos bons velhos tempos, uma das mais estimulantes observações de Mário Soares era que, em democracia, o pêndulo tem de ter espaço para se mover tranquilamente — um pouco mais para a esquerda hoje, um pouco mais para a direita amanhã. Mário Soares gostava de acrescentar que tinha aprendido esta lição muito simples durante o exílio em Paris e no contacto com as democracias europeias — longe do tribalismo nativo entre salazaristas e anti-salazaristas (onde tinha nascido e sido educado). E tinha constituído uma lição de vida.

Em finais da década de 1980, numa inesquecível conversa com os académicos do Instituto de Ciências Sociais (fundado pelo inesquecível Adérito Sedas Nunes), o então já Presidente Mário Soares voltou ao tema enfaticamente. Recordou a referida “lição de vida” na Europa e o robusto contraste com a cinzenta experiência ibérica do século XX — em que, na chamada I República, os jacobinos da esquerda tinham começado a perseguir todos os dissidentes (a que chamavam “direita”) e depois todos os dissidentes voltaram a ser perseguidos pelos jacobinos de sinal contrário em nome do chamado ‘estado novo’. [Uma designação bizarra de que o conservador-liberal Edmund Burke teria desconfiado: porquê novo?]

Estas recordações são hoje muito pertinentes para contrariar o clima de tensão tribal que vem crescendo em inúmeras democracias liberais, incluindo a nossa. Alimentado, à esquerda e à direita, pelo tom sectário das chamadas “redes sociais”, este tribalismo é também favorecido pela rendição de grande parte das Universidades à ditadura do “politicamente correcto”.

É contra este novo clima tribal que apresento aqui as minhas primeiras recomendações de leituras para férias. Começo enfaticamente pela carta aberta de 153 intelectuais (sobretudo situados ao centro e centro-esquerda) publicada a 7 de Julho na edição online da Harper’s Magazine. “A Letter on Justice and Open Debate” é uma vigorosa denúncia do clima de intolerância que cresce, à esquerda e à direita, nas nossas praças públicas:

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“A inclusão democrática que nós queremos só pode ser alcançada se denunciarmos o clima intolerante que está a crescer em todos os lados [do espectro político]. A livre troca de informação e de ideias, o sangue vital de uma sociedade liberal, está diariamente a ser mais ameaçada.”

Um alerta semelhante, com uma tonalidade de centro-direita, está contido no mais recente livro de Anne Applebaum (também ela subscritora da carta aberta acima referida), Twilight of Democracy: The Seductive Lure of Authoritarianism (Doubleday, 2020).

Antiga colaboradora da Spectator e The Economist, casada com Radek Sikorski (um Oxford Alumnus que foi ministro dos Negócios Estrangeiros da Polónia), ambos foram frequentes participantes nas edições anuais do Estoril Political Forum. E ambos participaram activamente na vasta coligação anti-comunista em defesa da democracia liberal que derrubou o Muro de Berlim em 1989 e consolidou as democracias na Europa central e de leste depois disso. Neste livro, Applebaum descreve com tristeza e preocupação a erosão daquela vasta coligação liberal-democrática na última década — sobretudo, neste caso, à direita.

Os tribalismos de sinal contrário, inspirados em Lenine e Mussolini, retorquirão que a democracia liberal é um logro para perpetuar o capitalismo — e o chamado “capitalismo” é, como sempre foi, o bode expiatório da esquerda e da direita tribais. Dois livros recentes desafiam eloquentemente a dissonância cognitiva que afecta aqueles tribalismos de sinal contrário.

Attlee and Churchill: Allies in War, Adversaries in Peace, de Leo McKinstry, (Atlantic Books, 2019) é uma obra incontornável sobre a robustez da cultura política demo-liberal britânica. Dois líderes dos dois partidos rivais cooperaram solidamente no Governo de coligação durante a II Guerra — para depois se enfrentarem nas eleições gerais de 1945. Churchill, tendo liderado a vitória na guerra, perdeu a seguir as eleições por larga margem para Attlee. Mantiveram sempre o respeito mútuo e a cortesia, bem como as cerradas controvérsias entre Conservadores e Trabalhistas.

Na mesma linha, acaba de ser publicado por Andrew Adonis um livro com um título algo bombástico: Ernest Bevin: Labour’s Churchill (Biteback, 2020). Bevin foi com efeito um herói do sindicalismo britânico e um líder incansável da oposição trabalhista ao comunismo. De origem humilde e sem formação universitária, integrou o governo de coligação como ministro do Trabalho e, a seguir, foi ministro dos Negócios Estrangeiros no governo trabalhista de Attlee. Aí criticou as iniciais hesitações norte-americanas face à URSS. E participou activamente na criação da NATO e na denúncia do expansionismo comunista soviético. Sempre como orgulhoso anti-comunista líder do Partido Trabalhista e orgulhoso defensor do sindicalismo livre.

Eis porque comecei esta crónica com a expressão “nos bons velhos tempos”. Termino com votos de boas leituras, na esperança de que melhores tempos virão — inspirados e enraízados nos bons velhos tempos. [Nesses bons velhos tempos, a propósito, era costume ser dito em Oxford: “Change? Change? Aren’t things bad enough already?]