Respeitando uma antiga tradição, dedico hoje uma primeira crónica a livros de autores estrangeiros para o Natal. Na próxima semana, será a vez de autores nacionais.

Começo por recomendar um livro que é estreia de um jovem autor, Tim Bouverie, e que tem sido literalmente aclamado por uma plêiade de autores consagrados. Refiro-me a Appeasing Hitler: Chamberlain, Churchill and the Road to War, (London: The Bodley Head, 2019). Trata-se de uma eloquente recordação dos dramáticos anos da década de 1930 e das tremendas hesitações, controvérsias e rivalidades parlamentares que precederam a chegada de Churchill à liderança do Governo, a 10 de Maio de 1940.

É hoje frequente ouvir dizer que vivemos tempos semelhantes aos terríveis anos da década de 1930, com a crescente emergência da dicotomia fatal entre extrema-esquerda e extrema-direita. Subscrevo essa preocupação. E gostaria de mencionar dois livros recentes que contribuem para este debate — embora, em rigor, não subscreva qualquer deles.

Remaking One Nation: The Future of Conservatism, por Nick Timothy, (Cambridge: Polity Press, 2020) é sem dúvida um livro a ter em conta. O autor foi chefe de gabinete da primeira-ministra Theresa May e é cronista do Daily Telegraph  de Londres. O seu principal argumento parece consistir em contrariar o liberalismo herdado de Margaret Thatcher e retomar uma versão mais protecionista — do que ele designa como ‘tradição conservadora’.

Um argumento semelhante, vindo da América, pode ser encontrado em The New Class War: Saving Democracy from the Metropolitan Elite, por Michael Lind (London: Atlantic Books, 2020). À semelhança de Nick Timothy, também Michael Lind enfatiza a ideia de ‘luta de classes’ na era do capitalismo global — e também ele subscreve, de um ponto de vista alegadamente conservador,  políticas proteccionistas alegadamente favoráveis às classes trabalhadoras.

Com o devido respeito, devo confessar que acho estes argumentos de Nick Timothy e de Michael Lindt algo bizarros. Não me refiro às específicas propostas protecionistas que eles defendem — das quais discordo, mas posso certamente respeitar e compreender. Refiro-me sobretudo à linguagem da luta de classes utilizada por ambos e abusada por Michael Lindt — que considero simplesmente primitiva e tribal. E, em bom rigor intelectual, totalmente desnecessária para justificar as propostas específicas que apresentam.

Sejamos claros: a linguagem da luta de classes não é apenas condenável quando vem da esquerda. É igualmente condenável quando vem da direita. E é isso mesmo que fica muito patente no tocante livro de Tim Bouverie sobre Appeasing Hitler: Chamberlain, Churchill and the Road to War. Aí fica muito claro que a linguagem da luta de classes era a linguagem comum do nazismo e do comunismo — que gradualmente ia infectando todo o debate político no continente.

Do lado britânico — que resistiu solitariamente à aliança nazi-comunista de Agosto de 1939 — a linguagem era a da democracia liberal como obra comum de partidos rivais. O livro de Tim Bouverie sugere esse contraste fundamental, mas esse não é o seu tema central. Para  ajudar a reflectir sobre esse “milagre inglês”, como lhe chamou o grande historiador francês Élie Halévy, recomendaria enfaticamente um livro bastante mais antigo: Victorian Minds, originalmente publicado em 1952 pela distinta historiadora americana Gertrude Himmelfarb, que nos deixou a 30 de Dezembro do ano passado.

A tese de Himmelfarb é que a especificidade britânica — que lhe permitiu fazer todas as revoluções da era moderna sem recurso à Revolução, como dizia Halévy, — não assentava numa família política particular (a direita ou a esquerda, como se costuma dizer no continente), mas na relação entre elas. As virtudes vitorianas de auto-controlo e cortesia teriam contribuído decisivamente para essa relação polida entre as famílias políticas. Mas Himmelfarb escolheu um “proto-vitoriano” — Edmund Burke — para ilustrar a ética vitoriana de auto-controlo e sentido voluntário de dever. Burke gostava de repetir que “as maneiras são mais importantes do que as leis”.

Edmund Burke é precisamente o ponto de partida do excelente livro sobre Conservatism, de Edmund Fawcett (Princeton University Press, 2020). O autor ensaia uma história do(s) conservadorismo(s) moderno(s), cuja origem faz remontar à crítica de Burke à revolução francesa de 1789. Mas sublinha que na verdade existiram pelo menos dois tipos de críticas à revolução de 1789 — uma conservadora-liberal, como a de Edmund Burke, outra conservadora-revolucionária, como a de Joseph de Maistre. Daí emergiram pelo menos duas tradições conservadoras, com destinos políticos muito diferentes.

Os livros aqui referidos ajudam certamente a repensar e revisitar essas diferentes tradições.

Post Scriptum: Subscrevo inteiramente a tocante homenagem que o país tem prestado a Eduardo Lourenço. Conheci-o fugazmente em 1995, durante talvez uma semana, quando visitou a Universidade de Brown, em Providence, Rhode Island, a convite de Onésimo Teotónio de Almeida. Foi sempre uma presença encantadora, despretensioso, animado conversador, com grande abertura aos argumentos diferentes, grande sentido de humor e maneiras distintas. Conhecia e admirava a sua obra, fiquei a admirar ainda mais o seu autor.