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A 15 de Março, Pablo Iglesias, (naquele momento) vice-presidente do governo espanhol, anunciava a sua candidatura à presidência da Comunidade Autónoma de Madrid. Com as bandeiras do Reino de Espanha e da União Europeia de fundo, qual estadista de longa data, usou, sem vergonha ou pudor, o seu gabinete no ministério para fazer o primeiro vídeo de propagandam onde atirou, evidentemente, contra a extrema-direita, tentando colar o PP ao Vox.

A resposta não tardou e, minutos depois, Isabel Díaz Ayuso, Presidente da Comunidade Autónoma de Madrid desde 2019, e líder do PP regional, escrevia no Twitter “Comunismo o Libertad”. Seca, irónica, sucinta, corrosiva e profundamente disruptiva, a presidente em exercício dava o mote para a campanha eleitoral que acabava de começar.

Ora, as eleições de 4 de Maio de Madrid são, provavelmente, o espelho mais sincero da política espanhola em 2021 e revelam, por um lado, a falência dos extremismos e a luta pela sobrevivência e relevância dos indefinidos e, por outro lado, a hegemonia, aparente segundo a maioria das sondagens, da gestão exemplar e do rigor. Nas próximas linhas tentarei fazer o retrato da arena política madrilena.

1 Nas eleições de 2019 para a Comunidade Autónoma de Madrid, o Podemos não foi além dos 5,56% dos votos. Por pouco não ficou à porta das Puertas del Sol, uma vez que, para garantir um lugar no Parlamento Regional, são precisos 5% ou mais dos votos.

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Dirão (e admito que assim tenha sido) que tal se deveu à cisão interna no partido de Pablo Iglesias e ao aparecimento do Más Madrid do antigo fundador do Podemos, Íñigo Errejón. Este, o Más Madrid, é uma espécie de “Partido Livre” à espanhola, onde a luta de classes é substituída pela luta “verde e ecológica”.

A verdade, é que em 2021, com o feroz e combativo Pablo Iglesias como candidato, o Podemos, segundo todas as sondagens, não vai além dos 5%-7%, estando, portanto, na margem de erro de nem sequer conseguir um lugar no Parlamento de Madrid.

O discurso e a prática política de Pablo Iglesias parece que já só convence a militância mais fiel do partido e mesmo essa tem dias. Afinal, o outrora revolucionário (ou aspirante a) da política espanhola, é hoje um homem rendido aos prazeres burgueses de viver numa mansão com piscina e de ter um motorista à porta de casa. Um homem que ataca jornalistas quando estes não fazem mais do que informar sobre as teias de corrupção e financiamento ilegal do Podemos por parte do governo venezuelano. Em suma, um homem que despreza a liberdade e alguém pouco credível e que já não é levado muito a sério. Felizmente.

2 O Más Madrid tenta ocupar o espaço do Podemos com uma candidata pouco conhecida, pouco carismática, “verde e ecológica”, e que sendo médica anestesista num hospital de Madrid, acumula dois salários: o de médica e o de deputada regional (onde aufere um salário superior a 4.000 euros líquidos).

Parece que aqueles que se propunham a regenerar a política, uma vez no cargo, preferem abusar de um sistema que são simultaneamente capazes de criticar e de usufruir. Nada de novo, portanto.

3 O Ciudadanos é outro que luta pela sobrevivência. Se nas eleições de 2019 obteve mais de 19% dos votos e 26 deputados, menos 4 do que o PP, hoje é praticamente dado como extinto. Pelo menos assim o apontam todas as sondagens, que dão ao partido laranja 3%-4% dos votos, ou seja, sem assento parlamentar.

O que aconteceu ao Ciudadanos é um caso de estudo. Se há dois anos a dúvida era se o partido conseguiria ultrapassar o PP e liderar o centro-direita, hoje, a dúvida é se existirá depois de 4 de Maio.

O Ciudadanos, nascido em Barcelona como um partido de centro-direita liberal, contemporâneo, arrojado, moderno e cheio de gente capaz e sem passado político, era, até há pouco tempo, a esperança da regeneração à direita. No entanto, em dois anos (em Madrid) perdeu meio milhão de eleitores. E isto não se deveu à habilidade dos demais partidos à direita, mas a um alinhamento nacional com o PSOE de Pedro Sanchéz e com o Podemos de Pablo Iglesias em matérias como o Orçamento Geral do Estado. Perdeu credibilidade, desorientou e confundiu os seus eleitores e hoje, admito (que com pena), arrisca-se a desaparecer.

4 O PSOE, que há dois anos ganhou as eleições com uma diferença de mais de 150 mil votos para o PP, segundo classificado, prepara-se para perder de maneira estrondosa. O candidato socialista (Ángel Gabilondo, ex-ministro da Educação no governo de Zapatero) é uma espécie de testemunha de Jeová que tem a habilidade de fazer dormir o alcatrão da barulhenta Gran Via. O próprio já se considerou “sem sal”.

Além disto, é de assinalar que há dias em que afirma que não pretende subir impostos nem fazer coligações pós-eleitorais com o Podemos de Pablo Iglesias, e noutros o seu contrário (lembro que a 21 de Abril, no debate televisivo realizado entre todos os candidatos, Ángel Gabilondo diz a Pablo Iglesias que “têm 12 dias para ganhar as eleições”). Não há muito mais a dizer.

5 Quanto ao Vox, estima-se que perca terreno e passe de 12 a 10 deputados regionais e não vá além dos 9%. O programa do partido, que por certo só tem uma página, limita-se a uns quantos slogans vazios de conteúdo.

Por um lado, e como “grande” política económica, propõe reduzir o número de deputados no Parlamento regional de Madrid como forma de financiar a educação e a saúde públicas (podem rir à vontade, eu fiz o mesmo). Afirma também que quer acabar com os subsídios aos “MENAs” (“menores estrangeiros não acompanhados”) – designação utilizada nos polémicos e racistas cartazes que espalhou por Madrid e onde afirma que um “MENA” recebe 4.700 euros para gastar no que quiser, enquanto que uma senhora reformada nem sequer chega aos 500 euros.

Além de ser mentira, lembro que estamos a falar de 3.709 menores de idade (dados da Consejería de Políticas Sociales y Familia de Madrid) sendo que 71,1% são espanhóis, e apenas 7,2% (ou seja, 269) são menores que chegaram a Espanha não acompanhados (num universo de perto de 7 milhões de pessoas que vive em Madrid). No entanto, e na ausência de ideias credíveis, o mais importante é mesmo fazer ruído.

Em suma, populismo barato, e que, felizmente, dia após dia, vai perdendo força na sociedade espanhola.

Nota final, sobre a seriedade da candidata do Vox, Rocío Monasterio: consta que é arquiteta de profissão, mas que antes de o ser já assinava projectos de arquitectura para assim ir ganhando a vida. Vive enredada em polémicas sobre licenças de construção e negócios imobiliários.

6 O melhor, ou melhor dito, a melhor, deixei para o fim. Em 2019, Isabel Díaz Ayuso era uma quase desconhecida na política espanhola. Era alguém da segunda linha do PP e que gerou surpresa quando foi anunciada por Pablo Casado para Madrid. Há dois anos perdeu as eleições, mas conseguiu formar governo com o Ciudadanos, com o apoio parlamentar do Vox. Hoje, está perto da maioria absoluta e em dois anos prepara-se para duplicar os votos do PP de pouco mais de 20%, em 2019, para mais de 40%, em 2021, segundo todas as sondagens.

Tal como o Ciudadanos deveria ser um caso de estudo, o fenómeno Isabel Díaz Ayuso, ou IDA, tem igual interesse académico.

Com Madrid arrasada pela primeira vaga da Covid-19, Isabel Díaz Ayuso montou um hospital de campanha nos pavilhões da IFEMA em 29 horas (!), e com isso conseguiu aliviar a pressão nos hospitais de Madrid.

Quando, depois do Verão de 2020, tomou as rédeas da gestão da crise pandémica (até esse momento a responsabilidade e a gestão estavam concentradas no governo central de Sanchéz/Iglesias), decidiu que a cidade não voltaria a fechar, acontecesse o acontecesse. E assim foi: os restaurantes, os ginásios, os bares, enfim, a vida não parou. E com isto não arruinou a vida de muitos, nem fez aumentar o números de mortes com Covid-19, nem do desemprego, sobretudo quando comparado com outras comunidades autónomas espanholas, que optaram pelos mais diversos confinamentos.

Madrid tornou-se num farol da liberdade e um caso de sucesso na Europa. Numa palavra, conseguiu fazer o equilíbrio “saúde/economia” e com isso ser a Comunidade Autónoma de Espanha com o maior crescimento económico no último trimestre de 2020: 4,4%, quando no conjunto de Espanha esse crescimento do PIB não foi além dos 0,4%.

Isabel Díaz Ayuso propõe-se, ainda, a baixar impostos (algo que o PP já vem fazendo desde os anos 90, quando ganhou Madrid pela primeira vez) sobre o rendimento e o capital, a reduzir as burocracias a todos os que queiram abrir um negócio e a atrair investimento estrangeiro. Um oásis numa Espanha cada vez mais pobre, cada vez menos livre e cada vez com mais desempregados.

Isabel Díaz Ayuso é hoje uma espécie de princesa guerreira da política espanhola. Prática, pragmática e com um enorme sentido de responsabilidade, é admirada pelo eleitorado “típico” de centro-direita, temida pelo Vox, adorada por taxistas, empregados e donos de restaurantes e bares, por pequenos comerciantes, por velhos e novos, por gente que quer trabalhar ou simplesmente divertir-se.

E por tudo isto, Isabel Díaz Ayuso pode passear-se pela Chueca, por Vallecas ou por Salamanca, e é difícil encontrar alguém que não lhe dê o seu voto nas próximas eleições. É a candidata catch all e que marcará um antes e um depois à direita.