Os militantes do PSD receberam a notícia não oficial de que Montenegro deu carta branca ao Isaltino para formar lista com militantes do PSD. Com as devidas proporções é uma notícia que se recebe como quando nos informam da morte de um familiar que estava em situação terminal. Já esperávamos, mas não deixamos de sentir uma forte dor e ter que iniciar o processo de luto
O que resta de um partido quando abdica da luta pelos seus próprios valores? O PSD de Luís Montenegro responde: resta a esperteza táctica, o cinismo calculado e o medo de perder mais umas câmaras municipais para o PS. O apoio a autarcas independentes condenados, investigados ou arguidos — como Isaltino Morais em Oeiras ou a ex-presidente de Setúbal, Maria das Dores Meira — não é apenas um erro político: é um acto de desistência moral.
O argumento repetido é que estas figuras têm “obra feita” e garantem vitórias. Mas desde quando é que a ética se submete ao pragmatismo? Desde quando é que um partido com história, com princípios sociais-democratas, se resigna a ser muleta de quem trata a política como um negócio pessoal? A resposta é simples: desde que o PSD deixou de ter coragem de combater.
Estas candidaturas não nasceram de um debate interno, não passaram pelo crivo dos militantes, não foram escrutinadas por qualquer órgão eleito do partido. São meros acordos de bastidores, impostos de cima, muitas vezes sem sequer um programa político revisto, quanto mais alinhado com a matriz ideológica da social-democracia. A lógica é clara: que fiquem lá eles, desde que não fiquem os outros. Uma estratégia de negação em vez de construção. Uma política de bloqueio em vez de alternativa.
Montenegro parece ter medo de ir a jogo com candidatos seus. Prefere não arriscar perder e, por isso, não joga. Apoia o que existe, mesmo que isso insulte os princípios que deveriam distinguir o PSD. Esta falta de combatividade não é prudência, é cobardia. A mais baixa cobardia política: a de quem abdica de lutar pelas suas ideias para tentar, à socapa, colher frutos de árvores alheias. É a rendição de quem nunca chegou a entrar na batalha.
É neste ponto que a herança de Francisco Sá Carneiro é traída com particular desonra. Sá Carneiro não fundou o PSD para acomodar os caciques locais ou para prestar vassalagem a interesses pessoais disfarçados de independência. Fundou-o para ser um projecto com valores, com ética republicana, com coragem. Montenegro parece não entender que ganhar a todo o custo é, na verdade, perder-se no processo.
Ao apoiar estas candidaturas, o PSD desiste de si próprio. E quando um partido desiste de si, não é apenas o eleitorado que se afasta — são os seus militantes, os seus quadros, os seus valores. O partido pode vencer algumas câmaras, mas perde a alma. E nenhuma vitória compensa isso.