Crê-se que a origem da palavra “trabalho” derive da palavra latina “tripalium”. Tripalium, três paus em forma de cruz, era um instrumento de tortura, utilizado para dominar e forçar escravos e animais a aumentar a produção. Seja ou não esta a origem da palavra trabalho, certo é que ao longo dos séculos o trabalho foi muitas vezes visto como um mal necessário quase sempre associado a uma ideia de sacrifício e dever. Na época dos caçadores/recolectores assemelhávamo-nos muito aos predadores da actualidade. A maior parte do tempo era dedicada à contemplação e ao descanso porque a gestão da energia era vital, apenas trabalhando para assegurar a sobrevivência. Ao longo de milhões de anos o Homem foi-se programando biologicamente para ser preguiçoso e o seu cérebro evoluindo para fazer o uso mais eficiente da energia. Na Grécia Antiga elevava-se o Ócio a ideal, olhando-se para o trabalho como sendo menor e oposto à liberdade. A visão negativa sobre o trabalho por contraponto à atractividade do ócio era tal que, primeiro a Igreja Católica elencando a Preguiça como pecado capital e mais tarde Lutero declarando o trabalho como Ordem Divina, sentiram a necessidade de intervir.

Até à implantação da economia de mercado num sistema capitalista, esta situação manteve-se praticamente inalterada. Apenas a lógica de recompensa pelo esforço e mérito, de liberdade, de variedade de oportunidades e de criação de riqueza dados por uma economia de mercado capitalista alterou, em grande medida, a percepção sobre o trabalho. O que até aí era visto como um sacrifício passou a ser visto como um meio de conseguir melhorar a condição de vida e de ter mais tempo livre e de maior qualidade.

Em meados da década de 80, foi conduzido um estudo na União Soviética em que se recolheram informações de 2.900 trabalhadores. Entre outras questões, foi-lhes perguntado se consideravam que a produtividade vinha em declínio e em caso afirmativo, quais as principais razões. 75% dos inquiridos respondeu afirmativamente à primeira pergunta. Quanto aos motivos, a falta de incentivos ficou destacadamente em primeiro lugar com 58% dos inquiridos a elegê-la como o principal motivo para esse declínio. Em segundo lugar, com 21%, identificaram os trabalhadores com problemas de alcoolismo, apatia e preguiça; em terceiro lugar, com 8%, a fraca gestão e o restante, atribuíram o declínio da produtividade à insuficiência de recursos, fraca tecnologia e ao sistema económico. Se assumirmos que os problemas com alcoolismo, apatia e preguiça poderão estar relacionados com a falta de motivação derivada da falta de incentivos então podemos concluir que esta falta de incentivos representou no estudo, perto de 80% da causa para o declínio na produtividade.

O socialismo promove o ócio. Há uma história, já muito difundida, de um professor numa Universidade dos Estado Unidos que pediu aos alunos que acreditavam no socialismo que levantassem a mão. Um após o outro foram levantando a mão até que eventualmente, influenciados pelo efeito do conjunto, praticamente toda a turma tinha a mão levantada. Perante a situação, o professor propôs aos alunos o seguinte método de avaliação: independentemente da nota que cada um conseguisse em cada teste, a nota que seria atribuída a cada aluno seria a média global das notas de cada conjunto de testes. Este processo, ao retirar um incentivo a quem mais estudava e, por oposição, premiar quem menos se esforçava, conduziu à sucessiva redução da nota média até toda a turma ter reprovado.

Se é certo que em Portugal há muito que é prática corrente em muitas empresas premiar os seus funcionários com base no esforço, no mérito e na produtividade, não é menos certo que Portugal, enquanto país, não fomenta o trabalho e a produtividade. A elevada carga fiscal sobre empresas e trabalhadores é um desincentivo ao trabalho, é o verdadeiro tripalium da modernidade. O sistema como um todo está construído para o ócio, para o rendimento mínimo ou médio (já estão muito próximos), para se colocar baixa médica legítima ou fraudulenta, para se prolongar a situação de desemprego, para se viver de expedientes e benefícios sociais, etc.

A sabedoria popular sempre vislumbrou no comportamento humano uma tendência para a preguiça e verteu-a no dito popular “mais vale uma mão inchada que uma enxada na mão”. De facto, para um ser-humano biologicamente programado para ser “preguiçoso”, às vezes é preferível arranjar uma desculpa como estar doente, estar com uma pequena mazela física ou com um burnout como agora está muito em voga, do que trabalhar.

Apenas um sistema que premeie o esforço, reconheça o empenho, retribua o risco e valorize a inteligência e o mérito, poderá impulsionar o trabalho (em quantidade e qualidade) e fomentar o desenvolvimento. Não será por acaso o lugar que Portugal ocupa no ranking de produtividade (23º em 27 países) ou as taxas de absentismo. Também não creio que a nossa má performance nestes e noutros indicadores se deva a uma qualquer idiossincrasia do povo português ou à localização de Portugal no mundo. Não! Na minha opinião deve-se à organização económica e social que há mais de 40 anos tem vingado no nosso país.

O Liberalismo, materializado em grande medida pela Iniciativa Liberal no Parlamento, é uma pedrada no charco, um oásis num país de ideias socialistas e que só agora começa a estar desperto para o liberalismo. A Iniciativa Liberal tem preconizado medidas que pretendem criar não só um sistema de mérito e de reconhecimento do esforço mas também de maior liberdade e responsabilização.

Esperemos que consigam mudar o paradigma e que daqui por alguns anos se diga que “mais vale uma enxada na mão que uma mão inchada”.