Quem não conhece o famoso tubarão anequim, Isurus oxyrinchus, só tem de teclar “mako shark” no Google e clicar na opção imagens. Preparem-se para apreciar algumas das fotografias mais impressionantes que já alguma vez viram e tenham presente a noção de que estão a olhar para a criatura mais rápida dos oceanos, capaz de atingir uns impressionantes 70 km/h. Pois claro, que os amantes dos golfinhos traquinas, ou potentes atuns, reclamam este recorde para as criaturas da sua predilecção, mas estão todos errados, porque o anequim dava-lhes uma ratada mais humilhante do que a que infligi, há uns anos, a uns chunnings na Ponte Vasco da Gama com o meu V12.

© Nuno Vasco Rodrigues | nunovascorodrigues.com |Conservation Photography

Entretanto ganhei juízo, vendi o bólide, constituí família e deixei-me dessas patetices, que é algo que o sector das pescas e a classe política não podem dizer, porque continuam a cometer os mesmos erros que cometem desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Nessa altura, o mundo estava sedento de crescimento e recuperação depois de seis anos devastadores, com destruição de vida humana, propriedade e valores morais, de uma magnitude nunca antes experimentada no planeta. Mas o mar, na sua aparente infinitude, veio em salvação da Humanidade que queria crescer. E como cresceu. No final da Segunda Guerra Mundial éramos dois mil e poucos milhões de almas, mas em 1960 já batíamos nos três mil milhões. O seis, ou seja, o dobro, chegou em 1999 e agora estamos à beira dos 8 mil milhões.

“Mas que tem isto a ver com o rapidíssimo anequim?” perguntarão, com toda a legitimidade? A resposta é simples: comida. Embora alguns destes milhares de milhões de seres humanos tenham o privilégio de comer fartos pequenos-almoços, almoçaradas épicas, lanchinhos quando dá um ratinho a meio da tarde, jantarzinhos românticos e ainda umas bolachinhas com a série do momento antes de ir para a camoca, outros há, que têm de se contentar com uma malga de arroz de dois em dois dias, ou com uma saca de trigo largada por um camião uma vez por mês. Contudo, independentemente desta disparidade tremenda na distribuição dos recursos alimentares do planeta, a moral da história é que somos mais-qu’as-mães e – colectivamente – comemos que nem uns alarves.

Foi exactamente essa alarvidade que nos virou para o mar que, como referi atrás, sugeria um manancial de recursos infinitos. Mas não tardou muito até nos apercebermos de quão errado era esse pressuposto. Em 1972 – curiosamente o ano em que nasci –, um fenómeno particularmente violento de El Niño1, aliado a uma sobrepesca desenfreada pelas famosas anchovas do Peru, rebentaram com um stock que, dois anos antes, tinha disponibilizado 13 milhões de toneladas de peixe, constituindo praticamente um sexto das capturas globais. Esperar-se-ia que esse momento tivesse levado a classe política a abrir a pestana e a entender que, afinal, os recursos marinhos, apesar de se reproduzirem com a ferocidade de coelhinhos, não são infinitos. Mas não, em vez disso criaram-se incentivos para modernizar as frotas, dotar os navios de equipamentos de detecção dos cardumes cada vez mais apurados, atribuíram-se subsídios para quando as embarcações não podem pescar e, basicamente, estabeleceu-se uma cultura de proteger a pesca a qualquer custo porque, afinal de contas, o mundo não pode parar e o mundo tem de comer.

Finda esta introdução (demasiado) longa chegamos, finalmente, ao nosso amigo anequim, que foi alvo de protecção no ano de 2019, após intenso lobbying por parte de variadas organizações não governamentais ambientais, destacando-se – na nossa terra – a Associação Portuguesa para o Estudo e Conservação de Elasmobrânquios e outras organizações parceiras, que trabalham conjuntamente sob a égide da Plataforma das ONG para a Pesca. Os esforços acumulados, durante vários anos, destas organizações e das suas congéneres a nível mundial valeram a inclusão do anequim na Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies da Fauna e da Flora Ameaçadas de Extinção, ou CITES, o que constituiu uma tremenda vitória para os pobres tubarões, que há décadas levam doses de pancada épicas por parte da pesca comercial. Estima-se que são capturados – que é o termo técnico para “mortos” – cem milhões de tubarões todos os anos, com a famosa tintureira, ou tubarão azul – Prionace glauca – à cabeça e o anequim ocupando um dos lugares cimeiros.

Esperar-se-ia que a inclusão na CITES protegesse estes animais do destino atroz a que estão votados, sendo capturados muitas vezes acidentalmente, em linhas com centenas de quilómetros e milhares de anzóis dirigidos preferencialmente aos espadartes ou atuns. Contudo, não é isso que sucede, porque a inclusão na CITES veio apenas engrossar o novelo de papelada que é necessária para desembarcar estes animais que, agora, carecem de uma licença de Introdução Proveniente do Mar. Trocando isto por miúdos, desde que a licença seja emitida, continua tudo na mesma – como a lesma. A APECE tem vindo a trabalhar com organizações governamentais, como o Instituto de Conservação da Natureza e Florestas, processando os dados dos pedidos para desembarque em Portugal das capturas de anequins. Estes são perfeitamente arrepiantes, com dezenas de milhares de indivíduos, a esmagadora maioria abaixo dos trinta quilos, o que significa que ainda nem sequer atingiram o seu estado de maturação. Por outras palavras, ainda não tiveram oportunidade de se reproduzir e deixar mini-anequins no mar, em seu lugar, quando um pau com um gancho os fisga para cima do convés, momentos antes de levarem umas valentes marretadas na cabeça até pararem de estrebuchar, porque ninguém gosta de ter um tronco de dentes afiados a contorcer-se, num estertor frenético, ao pé dos tornozelos da tripulação.

Bem sei que a leitura das linhas anteriores despoleta dois tipos de reacção: a primeira e, admito, enquadro-me nesse grupo, pretende que esta actividade cesse de imediato e avanço, desde já, que um dos argumentos principais que usamos é o facto de a taxa reprodutiva destes peixes se assemelhar mais à dos mamíferos, uma vez que as fêmeas atingem o estado de maturação bem perto dos 3 metros, com tempos de gestação que variam entre 15 e 18 meses e ninhadas de 4 a 25 juvenis, que nascem com aproximadamente 70 cm. Tendo em conta que o seu ciclo reprodutivo, que inclui o período de descanso pós-parto, dura cerca de três anos, é fácil perceber que esta espécie não aguenta, de forma alguma, a pressão de pesca a que tem sido sujeita.

A segunda reacção despoletada pela informação anterior defende, tradicionalmente, o sector da pesca e a continuidade das capturas, em defesa dos interesses económicos do sector.

Agora sejamos realistas: qual é, exactamente, o contributo destas capturas para a balança comercial das pescas portuguesas? Tendo em conta que estes animais acabam quase todos no porto de Vigo e que são os intermediários espanhóis que fazem o dinheiro à séria com a sua venda, os armadores portugueses praticamente não ganham nada com esta pesca. E quando digo “armadores”, estou a referir-me às duas dezenas de embarcações que os capturam. Leram bem: “duas dezenas”. Não querendo baralhar os assuntos, admito que este tópico me perturba pela similaridade com as touradas – um dos meus (outros) ódios de estimação –, precisamente porque se mantém uma prática bárbara e retrógrada – criticada pelo mundo inteiro – para não espicaçar (e usei este termo propositadamente) uma dúzia de ganadeiros e toureiros. Já o escrevi várias vezes e volto a escrever: escrevam numa folha de papel os nomes que vêm nos cartazes das touradas; ao fim de um ano, não passarão de duas dúzias. Vale mesmo a pena andar a espetar ferros de um palmo no lombo de mamíferos sencientes para não melindrar esses artistas que, ainda por cima, têm todos outras fontes de rendimento?

Mas voltemos aos anequins, que continuam a levar porrada para meterem uns míseros cobres nas (também) duas dúzias de beneficiários desta prática. Neste ponto impõe-se um disclaimer, porque não quero que me vejam como o biólogo marinho fundamentalista que acha que a pesca devia ser toda proibida. Asseguro-vos que estou muito longe disso e ver-me-ão a comer uns belos lombos de garoupa, ou sardinhas assadas, sempre que os números destes stocks permitirem capturas que não os comprometam. Já agora, também me verão a lamber os dedos com uns belos nacos de touro bravo, porque não me choca fazer-lhes o mesmo que fazemos às outras raças bovinas – desde que em regime free range e biológico. Mas não me peçam para aplaudir um gajo de collants cor de rosa e sabrinas a meter-lhes ferros no cachaço. Mas o disclaimer de que falava no início prende-se com a dura realidade que o sector das pescas enfrenta, porque foi incentivado a crescer e a modernizar-se durante décadas para, depois, se chegar à conclusão que, afinal, seria melhor abrandar as capturas e aplicar umas quotas severas às ditas. Ou seja, durante anos, a Comissão Europeia incentivou o sector a comprar Ferraris e, agora, meteram placas a limitar a velocidade a uns espartanos 50 km/h em todas as estradas.

À luz deste cenário, não é de admirar que vejamos muita criatividade no sector das pescas, que se desunha para conseguir pagar ordenados e os empréstimos que contraíram durante as décadas em que foram incentivados a crescer. Hoje em dia veem-se confrontados com a dura realidade de que, para além da falta de peixe, há um tremendo excesso de barcos, sendo que essas duas duras realidades não coexistem facilmente.

E como se resolve esse berbicacho? Ora aí está a million dollar question, que terá de ficar para outra intervenção, mas a solução passará, necessariamente, por uma redução dramática das frotas de pesca. Enquanto navegarem tantos barcos no mar, não é biologicamente possível aos stocks recuperarem.

Mas terminemos com o nosso anequim, que foi o motivador desta prosa que deu tantas voltas. “Mas que posso eu, afinal, fazer??” perguntará o/a estimado/a leitor/a e ainda bem que o faz, porque há muito que pode, efectivamente, fazer.

A primeira coisa a fazer é partilhar esta notícia, mas por favor não fique por aí, ou não vamos a lado nenhum. A segunda coisa é enviar uma mensagem electrónica a estes senhores, cujos endereços partilho de seguida – estão livremente disponíveis na internet, porque pertencem a figuras detentoras de cargos públicos, eleitos por sufrágio universal, pelo que a sua partilha não incorre em qualquer tipo de ilegalidade:

  • Virginijus Sinkevičius – Comissário para o Ambiente, Oceanos e Pescas – cab-sinkevicius-contact@ec.europa.eu
  • Teresa Ribera – Ministra espanhola para a Transição Ecológica – Twitter @Teresaribera
  • Luis Planas – Ministro espanhol da Agricultura, Pescas e Alimentação – Twitter @LuisPlanas
  • Ricardo Serrão Santos – Ministro português do Mar – Twiiter @RSerraoSantos, gabinete.mm@mm.gov.pt

Nessa mensagem poderão tão simplesmente pedir “Estimado/a Sr/a. Ministro/a, solicitamos o seu voto em defesa dos anequins, que precisam desesperadamente da nossa ajuda.” Ou, se preferirem usar uma prosa mais elaborada e substanciada por informação científica, podem usar e abusar desta carta, que é uma de muitas que eu e outros colegas tubarólogos temos enviado para as autoridades portuguesas e espanholas. Façam copy-paste à vontade de um – ou mais – parágrafo(s). O importante é mostrar à classe política que a população está do lado dos milhões de anequins que têm morrido e não de uma punhado de profissionais, que têm outras alternativas.

Permitam-me que termine com um apelo simples: historicamente, Portugal tem ficado do lado dos “vilões” nestas votações, alinhando-se com a Espanha contra o resto da União Europeia, num esforço tenaz para manter o status quo. Assumimos que Espanha irá manter essa postura nas votações que se avizinham sobre este tema. Mas talvez umas dezenas, ou centenas, ou mesmo milhares de mensagens para os endereços anteriores, quiçá até de alguns membros portugueses do Parlamento Europeu, persuadissem estes nossos representantes a colocarem Portugal do lado verde, ou melhor, “azul”, destas votações. Afinal de contas, sejamos pragmáticos: o que é que, por estes dias, dará mais votos à classe dirigente? Alinhar-se com duas dúzias de armadores – que podem sempre concentrar os seus esforços noutras espécies –, ou tentarem cativar dez milhões de Portugueses/as, que demonstram clara e continuamente nas redes sociais, que estão de olhos bem abertos para as dificuldades ambientais que enfrentamos e que demonstram, continuamente, a sua vontade em rumar a um futuro melhor, mais verde e mais azul?

Pessoalmente, a minha escolha está feita e o meu esforço tem sido desenvolvido de acordo com ela. Espero, com estas linhas, ter cativado alguns de vós para me darem uma ajudita – e aos anequins também.

(1) Recomendo uma busca por “El Niño Southern Oscillation” para uma explicação detalhada sobre este interessantíssimo fenómeno atmosférico – embora causador de efeitos devastadores para a economia mundial.