A filosofia política influenciada por Marx, do seu início até às suas vertentes atuais, fundamenta-se numa oposição central maniqueísta entre opressores e oprimidos. Essa visão, como ferramenta de análise, transformou-se numa gramática universal que reduz a complexidade social a um binário de dominação e resistência.

António Gramsci, ao formular o conceito de hegemonia cultural, expôs a mecânica dessa filosofia. Para o teórico italiano, a verdadeira revolução não se realiza pela simples conquista do poder político, mas pela ocupação das instituições culturais, universidades, escolas e meios de comunicação. A chamada “guerra de posição” que busca substituir os valores dominantes pelos dos dominados, numa operação de engenharia social que, embora mude os protagonistas, preserva a hierarquia de poder.

O ponto cego dessa estratégia é que inevitavelmente gera a sua própria inversão: os antigos oprimidos, ao alcançar a hegemonia, reproduzem os mesmos mecanismos de exclusão que outrora combateram. A conquista de “espaços estratégicos” não elimina a marginalização, somente redistribui os seus alvos.

A Revolução Francesa fornece o exemplo clássico dessa dinâmica. O terror jacobino (1793–1794) ilustra o momento em que os oprimidos, ao ascenderem ao poder, se tornam opressores implacáveis. Robespierre, que antes se declarara contra a pena de morte, converteu-se no arquiteto de um regime que guilhotinou dezenas de milhares pessoas em apenas catorze meses. A “Lei dos Suspeitos” de setembro de 1793 institucionalizou a paranoia revolucionária: qualquer cidadão poderia ser preso sob acusação de conspirar contra a revolução. O Terceiro Estado, outrora explorado, converteu-se no algoz das antigas elites, perpetuando a lógica da opressão sob nova face.

O estalinismo levou esse processo a uma escala mais sistemática. Josef Stalin, representante das massas exploradas do Império Russo, ergueu um aparelho de terror responsável pela morte de praticamente 20 milhões de pessoas. O Grande Terror (1936–1938) exterminou dois terços dos quadros do próprio Partido Comunista, revelando a autofagia típica da lógica revolucionária: o oprimido liberto torna-se carrasco não apenas dos antigos dominadores, mas também dos seus próprios companheiros de luta. A nomenklatura soviética, nascida da denúncia dos privilégios czaristas, criou privilégios equivalentes, espelhando a mesma hierarquia que inicialmente pretendia abolir.

Na China, o camarada Mao Tsé-Tung explorou industrialmente este mecanismo durante a Revolução Cultural (1966–1976). Os Guardas Vermelhos, jovens formados no culto ao partido e ao seu líder, transformaram-se nos principais agentes de perseguição à cultura chinesa tradicional. Ensinados a odiar a velha sociedade, converteram o ressentimento em violência. Sob o lema de “destruir os quatro velhos”: ideias, cultura, costumes e hábitos. Instauraram uma onda de destruição, que reproduziu sob forma revolucionária os mesmos instrumentos de opressão que supostamente combatiam.

Nietzsche, autor da Genealogia da Moral, já havia antecipado esse padrão. A “moral dos escravos” não cria valores genuinamente novos, mas apenas os inverte de forma reativa. Alimentada pelo ressentimento, essa moral só existe em oposição ao outro, perpetuando o ciclo da dominação sem jamais o superar. O oprimido nietzschiano não busca a liberdade, mas a inversão dos papéis: transforma a fraqueza em virtude e a força em maldade, instaurando uma tirania simétrica àquela que pretendia aniquilar.

A tragédia da dialética marxista está na sua incapacidade estrutural de transcender essa lógica binária. Ao reduzir a realidade à dicotomia opressor–oprimido, não abre caminho para a superação da opressão, mas apenas para a sua reciclagem em novas formas.

Cada processo de “libertação” gera inevitavelmente uma nova dominação: o jacobino guilhotina o aristocrata, o bolchevique fuzila o burguês, o guarda vermelho persegue o intelectual. Mas as estruturas da guilhotina, do fuzil e da perseguição permanecem intactas.

A filosofia marxista, ao colocar no centro da política a lógica opressor–oprimido, não cria nenhum instrumento de emancipação, mas uma máquina de produção de novos opressores, cada um convencido de que a sua tirania é, finalmente, a verdadeira libertação.