Natal

Mas que Linda confusão

Autor
  • João Duarte Bleck
1.448

Uma vez que a afirmação foi pública e magoou muitos crentes de boa e sã fé católica, não ficava mal ao Senhor D. Manuel Linda cumprir o dever de se retractar e pedir publicamente perdão pela ofensa.

Linda confusão, Linda trapalhada ou mesmo Linda heresia, foram três de algumas das várias hipóteses que me surgiram para constar no título deste comentário à terceira parte do artigo de Marta Leite Ferreira e Raquel Martins a que chamaram questões difíceis sobre o Natal. Mas, confesso, optei pela primeira num estóico esforço natalício de manso e obediente respeito pelo Senhor bispo abaixo mencionado.

Sim, enquanto leigo católico, quero manter o devido respeito institucional pelo Senhor D. Manuel Linda, bispo titular da Diocese do Porto, citado bastas vezes naquele artigo, cujo objectivo e conclusões é rebaixar à condição histórica de lenda ou mito algumas seculares tradições e verdades da fé cristã, de modo particular o sentido integral da virgindade de Maria, mãe de Jesus. Por isso, apenas me vou deter no ponto 3 do artigo quando coloca a seguinte interrogação: E como pode Jesus ser filho de uma virgem?

Quiçá, para muitos dos leitores do Observador, este tema da virgindade de uma Mulher que viveu na Palestina há pouco mais de 2000 anos parecerá eventualmente uma bizarra excentricidade; mas para muitos dos cristãos do mundo (apenas pouco mais de 30% da população global mundial; cf. site abaixo) o assunto tem relevância, pois estamos a falar nada mais, nada menos da Mãe de Jesus Cristo – a Virgem Santa Maria, a Bem- aventurada Virgem Maria; a Excelsa Mãe de Deus e nossa; e, para muitos portugueses, Nossa Senhora, Padroeira e Rainha de Portugal, etc. etc. De resto, ninguém bem formado gosta que desdigam da sua Mãe!

Ora bem, quanto ao Senhor Padre Anselmo Borges, com larga exposição habitual nos media nacionais, alinho com outros comentadores: infelizmente, nem vale a pena perder tempo com ele. Que fique lá na sua cátedra de filósofo, como o referem muitos querendo emprestar-lhe indisputada autoridade académica. Que Deus sempre misericordioso e justo, tenha piedade dele, agora e assim que chegar a sua hora de partir deste mundo.

Mas quanto ao referido Senhor bispo, que tem por função especial ensinar, tal como todos os seus Colegas no episcopado, sendo todos eles mestres da doutrina e doutores autênticos «que pregam [ou deviam pregar] ao povo a eles confiado a fé que se deve crer e aplicar na vida prática», conforme proclama o Concílio Vaticano II (1), não consigo estar calado. De facto, a sua cátedra de bispo é teologicamente diferente daquela exibida pelo Senhor Padre Anselmo Borges.

Escreve a redactora do artigo As respostas às questões difíceis sobre o Natal (mesmo as mais inconvenientes): «o bispo do Porto refere ao Observador que “nunca devemos referir a virgindade física de Virgem Maria”: “O Antigo Testamento diz muitas vezes que Jesus iria nascer de uma donzela, filha de Israel, que fosse simples, pobre e humilde. Mas na verdade isso é apenas uma referência à devoção plena dessa mulher a Deus. O dom de ser mãe de Deus foi dado a Maria por ela ter um coração indiviso. O que importa é a plena doação“, explica D. Manuel Linda. E acrescenta: “Há com certeza mulheres com o hímen rompido [que é associado ao sinal físico da perda da virgindade por uma mulher] que são mais virgens no sentido da plena devoção a Deus do que algumas com o hímen intacto”.» (negritos do original).

A serem correctas estas citações e transcrições, do ponto de vista subjectivo, creio sinceramente que o Senhor D. Manuel Linda, não pode ter tido a intenção de ofender ninguém e ainda menos a Santa Mãe de Deus. Contudo, sei de algumas, mesmo muitas, pessoas, que se sentiram profundamente magoadas na sua sincera e verdadeira devoção a Maria. Mas do ponto de vista objectivo, o Senhor bispo ousou descaradamente desvalorizar um aspecto objectivo da virgindade de Maria, insinuando o exacto contrário daquilo que a Igreja afirma há muitos e muitos séculos e constitui uma verdade de fé católica. E os crentes têm pleno direito a que lhes seja ensinada a totalidade da fé católica!

Para não ir muito longe, nem sobrecarregar demais este meu comentário, basta citar o Catecismo da Igreja Católica (CIC), que o Papa João Paulo II, declarou explicitamente, invocando a sua «autoridade apostólica», como «norma segura para o ensino da fé», e «texto de referência seguro e autêntico» (2).

Diz o no 496 do CIC, referindo-se explicitamente à virgindade de Maria:

  • “Desde as primeiras formulações da fé (152), a Igreja confessou que Jesus foi concebido unicamente pelo poder do Espírito Santo no seio da Virgem Maria, afirmando igualmente o aspecto corporal deste acontecimento: Jesus foi concebido «absque semine, […] ex Spiritu Sancto – do Espírito Santo, sem sémen [de homem]» (153).” […]. (negrito meu).

A referida nota 152 deste no 496 do CIC, fundamenta e reforça a afirmação, remetendo para dezenas de historicamente documentadas confissões da fé católica, onde se professa a fé na virgindade de Maria; e que n’Ela, Jesus foi concebido e gerado pelo Espírito Santo. Colecção essa de Credos que vão desde o início do século III (ano 215) até a meados do século IV e até mais além; e que abrangem quer fórmulas com origens ocidentais quer orientais; desde a antiga Igreja latina, à antiga Igreja da Palestina, à grega, à arménia, às do Norte de África, etc. (3).

E a nota 153 do mesmo CIC, remete para o claríssimo cânone 3 aprovado na sessão do dia 31 de Outubro do ano 649 (!) do Concílio de Latrão, onde se estabelece o seguinte:

  • «Se alguém não confessa, de acordo com os santos Padres, propriamente e segundo a verdade, por mãe de Deus à santa e sempre (semperque) virgem e imaculada (immaculatam) Maria, dado que concebeu nos últimos tempos sem sémen (absque semine) por obra do Espírito Santo, ao mesmo Deus Verbo própria e verdadeiramente, o qual, antes de todos os séculos nasceu de Deus Pai, e incorruptivelmente o gerou (et incorruptibiliter eam genuisse), permanecendo inviolada a sua virgindade mesmo depois do parto (indissolubili permanente et pos partum eiusdem virginitate), seja condenado» (4).

Assim: uma vez que a afirmação foi pública e magoou muitos crentes de boa e sã fé católica, não ficava nada mal ao Senhor D. Manuel Linda cumprir o dever de se retractar e pedir publicamente perdão pela ofensa.

Também não ficava nada mal à Comissão Episcopal da Educação Cristã e Doutrina da Fé da Conferência Episcopal Portuguesa, dada a gravidade do assunto e a publicidade que o Observador lhe deu, emitir uma nota corrigindo, fraternalmente, mas também publicamente, o bispo do Porto, para que os fieis sejam esclarecidos e não induzidos em erro no que respeita a esta verdade da fé católica, a qual, como referi, desde há muito tempo e em muitas paragens e tradições culturais e linguísticas cristãs foi, é e será sempre acreditada.

“Santa Maria, Rainha dos Apóstolos e dos seus sucessores – cuja maternidade divina (isto é, enquanto Mãe de Deus) a Igreja Católica celebrará no próximo dia 1 de Janeiro – perdoa-nos! E, nesta hora da História do mundo, não cesses de interceder pela Igreja universal de que és também a Rainha!”

Médico e leigo católico, 24 de Dezembro de 2018

Notas:
 Site: http://www.pewforum.org/2012/12/18/global-religious-landscape-exec/

  1. cf. CD, nn 11-12; e LG, nn. 20, 25.
  2. cf. n. 4 da Constituição Apostólica Fidei Depositum, de 11 de Outubro de 1992; reafirmada pela Carta Apostólica Laetamur Magnopere, de 15 de Agosto de 1997
  3. cf. Denzinger nn. 10-64.
  4. cf. Denzinger n. 503; negritos e tradução minha do espanhol para o português, confrontada com o latim.

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