Quando há um acontecimento social de grande ressonância, caso de elevação ou morte, todos (ou muitos), querem de algum modo “tocar (ou ter tocado) o santo”. E sobem à tona as memórias mais ou menos nítidas, mas consonantes com o espírito da hora. É este um pouco o meu caso aqui – que Deus e os próprios me perdoem.
Memórias daqueles encontros sem história, fortuitos ou insignificantes naquele momento, em que os próprios nem sequer se reconhecem ou atentam em si na circunstância e se movimentam desinibidos, completamente “ao natural”. Fincam-se-nos na memória, vá-se lá saber porquê? e ficam em stand by para, sabe-se lá quando, acudirem à consciência a título de referência, citação ou mero sinal de proximidade.
Aquando do anúncio da morte de Francisco Pinto Balsemão, o que se passou comigo foi um pouco isso. Lembrei-me imediatamente da primeira vez que o vira pessoalmente, em 1971, já por esses dias ele andava “nas bocas do mundo”. Foi na Guarda, onde eu estava nessa altura em lua-de-mel com meu marido, também filiado na cidade, e aonde fôramos em jeito de matar saudades. Estávamos jantando no Hotel Turismo (ainda florescente, à época) quando meu marido me segredou: ”Vem ali a entrar o Balsemão”. Eu estava de costas e não me virei, porque o ambiente seleto da sala não aconselhava essa manobra, demasiado explicita, de curiosidade. Ele passou pela minha esquerda e foi sentar-se sozinho numa mesa mais adiante, também à esquerda. “Bonito homem, pensei. Pelos vistos a Guarda tem homens bonitos: com ele já são dois, o meu marido e este…” porque, sem lhe ver a cara, vira-lhe a figura e o andar e o quão bem vestido ia. Um fato completo cinzento sóbrio, um andar elástico sem ser pedante, um jeito de se sentar com um à-vontade de habitué discreto. Ficou de costas para mim. Só o meu marido, sentado à minha frente na mesa, lhe via a cara, pelo que foi com o maior dos cuidados que me referiu os dados biográficos de Balsemão, ligado por família à cidade e por atividade política seu representante. Mas, mesmo sem lhe ver o rosto, pude observar a elegância no trato, que nem por isso deixava de ser cordial e até animado quando em diálogo com o chefe de mesa que o vinha servir, também com a cordialidade de quem lhe conhecesse os hábitos. A distância não permitia ouvir o que diziam, mas, a espaços, riam, a solo ou em conjunto, no tom comedido em que se desenvolvia toda a cena. Balsemão – eu via-lhe apenas as costas, o cabelo cortado já ao jeito que lhe ficou, os gestos dos braços, leves mas precisos – comeu rapidamente e, ao que parecia, aceitando as escolhas do chefe de mesa que o foi acompanhando. Levantou-se, pousando o guardanapo com displicência no canto da mesa, voltou-se para sair, e foi então que o vi, tal e qual como hoje o revi nas fotografias da época. Não sei porquê, mas diria que, naquele gesto de apertar o casaco endireitando-se depois, figurou-se-me um homem… galante. Quando passou pela nossa mesa baixou levemente a cabeça num cumprimento breve e saiu.
Passaram-se seis anos e muita água turbulenta correu por debaixo da ponte.
Foi em 1977, mais ou menos por esta época do ano, que voltei a encontrar Francisco Pinto Balsemão, desta vez no Expresso, a sua novíssima casa, o seu quartel-general, o berço duma liberdade infante a ganhar voz e léxico, o mais moderno polo de informação jornalística de que o país se podia orgulhar, o grande desafiador de massa crítica e vontade reconstrutora, política e não só , a sair dos abrigos, a avançar, a porfiar, a abrir caminho al andar…
Eu tinha ido falar com Marcelo Rebelo de Sousa para lhe entregar um memorando sobre uma iniciativa do Centro de Linguística da Universidade de Lisboa de então, a ter lugar muito proximamente e que gostávamos que fosse publicado no jornal para dar publicidade e informação. Tratava-se do “Encontro para a Investigação e Ensino do Português” que queríamos de âmbito nacional (veio a reunir mais de 1100 participantes) e em que pretendíamos divulgar o que de mais atual se estava fazendo na investigação, na pedagogia, na didática da língua e convidar os docentes a apresentarem comunicações, relatórios, sugestões e…queixas. Era uma pequena aventura naqueles tempos de post-revolução em que, no baixar da poeira, não queríamos que se insistisse nos mesmos erros, antes se procurassem caminhos de abertura e expansão de ideias inovadoras e de progresso no domínio e transmissão da língua. Marcelo ouviu atentamente a minha pequena exposição e, de repente, acordaram nele o professor, o homem culto e sabedor, e o rapazinho curioso e desafiador que nunca deixou de ser. Recordo o seu olhar claro de água esperta, saltando da leitura do documento para a minha cara como se estivesse a aquilatar da minha fiabilidade e da exequibilidade de todo aquele programa que eu ia desfiando. Eram tempos ambiciosos aqueles em que o atraso que trazíamos nos fazia esquecer por vezes os pesos e as medidas. Antes de fechar aquela entrevista-relâmpago fez duas o três perguntas judiciosas e levantou-se visivelmente apressado. Imitei-o, passei a porta do gabinete para me dirigir ao elevador, um lindíssimo exemplar de ascensor antigo com portas de grades trabalhadas. Marcelo, muito cavalheiro, antecipou-se-me a chamar o elevador, o que não foi necessário porque ele já vinha subindo.
Parou. Trazia um ocupante que se empenhou a abrir a porta antes de olhar para quem estava á espera no andar que lhe interessava. Quando levantou a cabeça deu de caras com Marcelo e eis que se abre todo num sorriso, exclamando numa voz banhada de graça: “Muitos parabéns! Muitos parabéns! Com que então uma senhora!” E Marcelo: “Perdi a noite mas correu tudo felizmente bem…” Fiquei especada entre portas à espera que esta conversa (um tanto equívoca, mas foi assim que a ouvi) se esclarecesse, o que não tardei a perceber: tratava-se do nascimento da filha primogénita de Marcelo, acontecido durante essa noite e de ser sua intenção, finda aquela passagem fugidia pelo jornal, ir de volta a vê-la. E, dando finalmente por mim, apresentou-me brevemente a Balsemão, que me saudou com uma ligeiríssima vénia e um murmurado “… prazê…”. Apressado, o meu “Muito gosto” deslizou comigo para o habitáculo do ascensor e morreu com o fechar das portas lindas. Assim deixei os dois naquela concelebração do júbilo, naquela glorificação de pater famílias, naquele sentir de feição toda masculina que, confesso, nem então, nem hoje, eu consigo definir adequadamente. Para nós, mulheres, ao recordar o quanto ao parto diz respeito, alegra-se-nos a alma, dói-nos o corpo. A imagem mental e sentimental que lhe corresponde não prescinde da memória física do momento e dos desconfortos e limitações que se lhe sucedem. Mas quanto aos homens? O corpo não sofre, por isso a paternidade é só alegria, só orgulho, só glória, só sa-tis-fa-ção? Assim uma coisa fugidia e vã? Ou alguma coisa mais, dentro do coração, da cabeça, do que seja, que leva o homem a pensar um devir diferente, mais criativo e ambicioso, uma fraternidade mais sincera, uma entreajuda mais comprometida, um gesto mais animador ou protetor consoante as necessidades, uma pedagogia da liberdade para uniões mais profundas, mais justas e mais frutuosas? Um virar-se para os outros com préstimo, equilíbrio e abertura, ensinar o que se aprendeu, exigir o que se ensinou, numa prática constante sempre ambiciosa? Creio bem que é tudo isto que, conscientemente ou nem sequer, anima a verdadeira paternidade. E agora, que acabo de o escrever, penso que foi esta espécie de paternidade que, em registo alargado, Francisco Pinto Balsemão cultivou durante toda a sua vida, com o fair play suavemente aristocrático de quem nela fez toda uma aposta de excelência.