Para que não vos assusteis, aviso já que não vou falar do Grande Ódio, aquele que alimenta as guerras e engrossa a voz dos ditadores, o sibilar das ordens dos torturadores, o grito dos militantes ou simples habitantes dizimados a golpes de água e fogo por esse mundo de dores.
Vou falar daquele ódio miudinho, britado, guardado a fermentar ou bolsado em jactos fininhos de palavras azedas ou frases aceradas, lançadas como agulhas venenosas do calibre das que não matam mas moem. Aquele sentir sarnento de permanente comichão, virado contra um ou mais alvos de estimação, sempre à cata da oportunidade de aliviar a coceira própria arranhando o próximo. Aquele ódiozinho rastejante que tinge as intervenções críticas que pululam pela redes socias arvorando bandeiras furiosas de saber e conselho.
As simples e legítimas opiniões divergentes convertem-se em sentimentos, nascem e medram em meios de comunicação fácil e segura, em que o falso e verdadeiro se equivalem e se expõem, dando voz a convicções egotistas de timbre acerado e rasteiro. E se assentarmos em que o ódio em si, enquanto sentimento, é, como todos os sentimentos, natural e legítimo, temos obviamente que atender a que, como eles, este é graduável e suscetível de expressão variada e pode vender-se quente ou frio, com espontaneidade no calor dum impulso ou suavidade cínica da arrogância de uma qualquer autocracia. E se por vezes somos levados a pensar que sentimentos como o medo ou a compaixão – e o ódio com eles – são espontâneos na sua assunção, temos que reconhecer que, como alguém disse, “os sentimentos são também criaturas sociais” como tal sensíveis à reciprocidade ou à cópia de emoções outras. Assim, a horda dos mal-dizentes digitais intercambiam o seu ódio que, em tal exercício, se vai exacerbando passando da simples opinião à agressão verbal, insistente e incontrolada nos termos, de um único a um múltiplo.
É que, na sua expressão, há ódios e ódios. Lembra-me aqui a história que a História celebrizou, do despique entre Lady Astor e Sir Winston Churchill, aferrados inimigos políticos, quando, depois de acalorada discussão em pleno Parlamento e em tom gradualmente mais elevado, fincada nas suas divergências políticas a Senhora sibilou: “Intolerável!… O Senhor é intolerável! Se eu fosse sua mulher punha-lhe cicuta no chá!” Ao que, cavalheiro, Sir Winston respondeu: “E eu, se fosse seu marido, bebia-o!!!”
Isto é ódio de luva branca… Nada a ver com o ódio de tecla preta que atualmente grassa pelas chamadas redes sociais. Mensagens deixadas vibrando de indignação primária, em linguagem de sub-alfabetização, na escrita como na prática (supostamente) democrática da intercomunicação. E se muitas vezes deixam a impressão de virem de misantropos exacerbados que o ruido do mundo ou a fala de alguém incomodou na sua autocomplacente solidão, de outras vezes temos a sensação de pertencerem a uma espécie de confraria(s) apostada(s) no desfeitear de alguém, por obras e opiniões com as quais não concorda(m), de alma, coração e… teclas. É que, como diz João Pedro Pereira [1], “há pessoas que têm o hábito de se irritarem por opção” e quando lhe tocam lá no seu pensar, ali vai disto!
E isto, é um discurso sem estribeiras, nem proveito que se vislumbre. “Não se vislumbra qualquer tentativa de combate de ideias. Aqueles não são comentários de quem quer travar uma discussão intelectual e derrotar argumentos adversários. São só a mais básica expressão de irritação em relação a um autor cujos textos se teima em ler assiduamente”.[2]
São pedras verbais atiradas da sombra do seu desassossego digitalizado. Nada de dar a cara. E é aí que me vem à memória a historinha de um meu primo açoriano de 6 anos que, caminhando por um passeio, de mão dada com a mãe, descobriu, do outro lado, o seu inimigo nº 1 da escola. Exclamou: “Mãe, fique aqui um bocadinho que eu vou ali brigar naquele menino, já volto!”
Têm estes opositores verbais razão ou vantagem numa clandestinidade? Para além do papel de catarse que ela permite que se expanda, sinceramente só vejo que aproveite a nós linguistas e à nossa veia de pesquisadores do des-conforme: no léxico, na gramática, na ortografia (e, a propósito, Deus sabe o quanto estas redes se desbocaram a propósito do famigerado Novo Acordo Ortográfico…)
É certo que “é mais fácil dizer mal das pessoas do que defendermos ideias estruturadas” afirma o autor acima citado, mas o que acontece é que a postura primária e impulsiva não permite, na sua imediatez, a reflexão e a elaboração concatenada de ideias.
O que vem à boca como o que vem à pena é, no seu grau mais forte, o insulto. Lembro-me de uma cena passada em tribunal, no “tempo da outra senhora” (aqui está um eufemismo muito oportuno que o povo consagrou), em que a ré se viu obrigada a relatar ao juiz a história do crime que ia acusada (ter dado umas sacholadas ao vizinho da sua horta por conta duma sonegação de água para a rega) : “Saiba o senhor dr. Juiz que eu lhe disse: “Seu cabrão filho da p…, seu salazar! e foi aí que lhe amandei c’o sacho…” (Não correu bem…). Verdade é que diferendos tratados à chapada implicam que os contendores se vejam, o que nas redes sociais não é o caso, e que assim, e por mor também da soberana liberdade de expressão, muitas bochechas se têm salvo…
Insultos não são só palavras isoladas, são frases, hiperbólicas e metafóricas, artilhadas e apontadas de forma a ferirem o alvo, se não de morte, pelo menos de fúria afónica…
Vejam-se (sem comentários, que ficam por vossa conta) exemplos colhidos num texto de Pacheco Pereira sobre alguns dos comentários a ele endereçados e que foram publicados no Facebook da CNN, depois do último programa Princípio da Incerteza:[3]”este porco; este Pacheco que vá comer bolota para o Alentejo; palhaço; quem te desse com um gato morto pelos cornos até ele miar; corrupto; Pacheco zurra para outro lado que já não te ouço; és um inútil faccioso e chupista do sistema. Ás vezes a fúria é tanta que a gramática fica manca. Reproduzo, da mesma fonte: Fostes sempre tinhoso, e não mudas nada! quando foi feita a distribuição da inteligência faltas-te à formatura. ÉS um triste”.
Para quem isso interesse, é possível encontrar neste tipo de discurso amostras de todo o género, mas todas elas padecendo de uma incivilidade gritante. Aflige pressentir a total ignorância do sentido do que é ser civil, [convivialmente] civilizado, respeitando a igualdade e a sanidade social em todo o tipo de intercâmbios. O que não significa forçosamente concordar – pode-se discordar, protestar, detestar, odiar. Não se pode é destroçar, no sentido de ‘arruinar’, ‘causar (grande) dor moral’, como diz o Dicionário. Aliás, num curioso alinhamento com destrocar, que também nos serve para verificar que, ao sabor de uma simples cedilha, temos duas ideias que nos ocorrem quanto ao que vimos tratando: a primeira, quanto ao estado emocional do recetor, a segunda, relativamente ao execrando culto da mentira por parte do opositor, trocando a verdade por ela sempre que tal lhe dê gozo ou jeito…
Não são futilidades estas. São até, de certa maneira, oportunidades perdidas de enriquecimento porque, como também diz o jornalista acima citado, “consumir opiniões contrárias faz bem à saúde – à de cada um e à coletiva”.
São, no todo, uma espécie de ranço do com-viver, lixo triste e feio, como o que deixamos depois de acabada a festa…
[1] In PÚBLICO, 13.7.2025
[2] Continuo a seguir o autor citado acima
[3] Painel de comentário político transmitido n CNN aos domingos, este com a data de 6 de julho. A crónica em questão, com o título A Cloaca, foi publicada no PÚBLICO de 12 de julho.