Quando entrei na sala ele estava quieto e calado. Anichado no colo da dona, o rabo pendendo bambo sem grande sinal de excitação.  Só os olhos se fixavam atentos e as orelhas tinham ar de pressentir qualquer coisa .

Estava no veterinário para a vacina e, ao que parecia, sabia ao que ia e estava conforme[ado].

Um sinal da enfermeira e a dona pegou-lhe, solícita, apertado ao peito – era a vez dele.

E foi aí que começou o escarcéu: um espernear frenético, um miar cada vez mais forte e mais alto, meio rouco meio agudo, meio queixa meio recusa, o pelo loiro bravio a ouriçar-se e o rabo enrolando e desenrolando como marcando o ritmo duma griteira fulva sem freio nem concerto.

A dona rendia-se atabalhoadamente ao duplo dever do carinho e do cuidado, repetindo entre afagos mal recebidos: “Está tudo bem, querido, é só uma picadinha de nada…vai já, já, passar…”. Mas ele é que não estava disposto a passar por essa e miava desabaladamente, a cabeça rodando de um lado para o outro, os olhos acesos de fúria. Tudo em vão. De nada lhe valiam “o refinado dos gritos nem o assanhado de cólera”, como dizia o Pe. Manuel Bernardes na sua “Nova Floresta”.

Impávido, o veterinário segurou-lhe uma prega da pele do lombo e espetou-lhe a agulha da seringa doseada da vacina. E foi aí que, virando o focinho e fixando bem de frente o clínico, com os olhos acerados de raiva, gritou num protesto de dor: “AIííiiii!

Parecia gente naquele berro: uma faca, uma seta, um murro no estômago.

Bateu-me em cheio no peito e entranhou-se-me na alma. Senti o bicho como se fosse [m]eu: próximo, sincero, carente, manhoso. Como uma criança. Uma criança da nossa estirpe, da nossa roda. Do nosso mundo soberano. Nem longe nem perto, apenas implantado no cruzamento de aconteceres comuns, revestidos das mesmas ânsias e das mesmas dores.

Nada a ver, nesta posição, com o convencional amor aos animais, o respeito devido às suas leis e hábitos, aos seus respetivos modos de vida e de ocupação de um (seu) habitat.

Foi a consciência instantânea da proximidade de todos os viventes nos momentos de dor, angústia e assombro elevados ao grau último da impotência. E também de que não há assim tantos mundos e muros. Ou não deve haver. Porque a natureza comum dos seres vivos – a Vida ela própria – em algum momento se deve revelar unânime, no sentido não apenas de ser sempre respeitável a esse título, mas também no de ser reconhecida como mentora de inumeráveis con-junções [tidas por] improváveis, como, naquela tarde e naquele jeito – a dum gato ruivo com um bicho falante, dito mulher, no transe de um só grito.

É porém esse o chão da vida, onde existem e se entrelaçam: o perto e o longe, o próximo e o distante, o igual e o diferente, o próximo e o diferente, o igual e o distante, o próximo e o igual, o distante e o diferente – e etc… É consensual que Diferença não implica obrigatoriamente Distância – e que o inverso também é verdadeiro. Como também não implica obediência, subserviência, servidão. Ela é base de invenção e progresso, eventualmente de desejo e seguramente de regeneração. O seu apelo à Mudança (sem o qual a Vida não vive…) é obviamente ditado pelo convite do “fazer diferente”, na convicção (não necessariamente) de que isso é fazer [para]melhor. E nada obriga a que os sujeitos, os objetos e os objetivos se encontrem próximos. A Distância, quer no Tempo quer no Onde, supõe e aceita hoje uma dinâmica de aproximação que encurta o Tempo e aproxima o Longe de uma forma nunca, ou assim, imaginada, levando, com as novas com-vivências, à constatação de que, embora em momentos históricos de vida diferentes, os humanos do planeta são afinal semelhantes em si mesmos e entre si. Toda a diferença se processou sob uma dinâmica de um muito específico progresso que não significa obrigatoriamente uma melhoria mas apenas um movimento histórica e civilizacionalmente propulsionado para a frente, para um futuro que, de longe ou de perto, coincidente ou almejado, com-temporizará a vivência das espécies na órbita interna do planeta. Diz o filósofo André Barata: ”A globalização prometeu a proximidade, a técnica chamar o distante para perto, nada a ficar longe, nada a demorar”. Mas diz ainda: ”Tudo à mão, o perto e o distante, nada realmente longe. Um mundo global sem longe encerra-nos numa sociedade sem empatia”.

Porque a empatia consiste justamente, no movimento anímico de aproximar, o um e o outro, singulares ou plurais, daqui e dalém, iguais, semelhantes, diferentes ou indiferentes, abrindo as comportas duma vontade que se liberta e se entrega à busca do encontro, do plurivalente, dum movimento outro, concatenado e benévolo, duma alegria destapada e consonante, que sei eu?… Uma tradução, sem hora nem lugar, do abraço universal a que nos convida o rodar do mundo.

Porque não precisamos de estar perto para nos comovermos com a menina de três anos num campo de refugiados na Grécia, saindo do molho de gente a gritar por comida, a sorrir, abraçada a um pão tal como a minha neta, da mesma idade, sorria abraçada a uma boneca. Ou um soldado ucraniano, num posto de troca de prisioneiros, secando as lágrimas do regresso com a bandeira ucraniana.

Como conclui o autor acima citado:” A empatia do mundo inteiro está em sentir o profundamente próximo irromper no longe, até ao paradoxo da coincidência e não esquecer”.

E não deixar esquecer, se me dá licença !

Como o assassinato miserável dos jornalistas da AL-Jazeera a cobrir a guerra em Gaza, no evidente intuito de impedir que saíssem para o mundo as notícias sobre o iníquo conflito. Sete mortos, sete gritos, sete denúncias sangrentas da insanidade e da selvajaria da nação invasora. Sete farpas de puro terrorismo.

Isto não é a picada duma agulha num gato ruivo mimado que acordou a minha empatia.

É o esfrangalhar dos mais básicos direitos humanos, é cuspir sobre a lei e os deveres humanitários universais, é de um orgulho ensandecido diria até de uma vingança desfocada mas vinda do fundo das eras que não é mais possível tolerar. É cobarde, é vil, é inominável!

ÁIiiiiii… !

(1) In “Longe”, artigo publicado na revista IPSILON, a 8.8.2025