Sem sombra de metoo em mente e inspirada pelas últimas eleições autárquicas cujo espírito “familiar” com que  decorreram me foi especialmente sensível, veio-me à mente a pronominalização usada para as terceiras pessoas que temos o privilégio de eleger. Devo desde já declarar o meu particular apreço pelo desempenho, no discurso como na vida, das sobreditas terceiras pessoas. Vivem desse posicionamento, quer no relato, quer assumindo ou endossando uma mensagem, quer como alvo de apreciação enquanto defensores de opinião, intenções e ambições. Candidatam-se, no trâmite eleitoral, a sujeitos ativos de uma política de gestão regional, mais concretamente municipal, afinadamente mobilizadora de vontades pessoais para pessoas concretas. São todo um paradigma – ele/a, eles/as – que fala e de quem se fala, para desenvolvimento duma relação que diria, como acima, ‘familiar’, pela proximidade e pelo empenho.

Certo é, no entanto, que estas eleições são políticas – e a Política é um palco de ação e exposição dos ele(s)/ela(s) que se apresentem como agentes de progresso (qual ele seja), compromisso ativo (qual seja o seu sinal), salvação e solução referidos ao acontecer da Polis.

A ascensão ao palco autárquico – tanto como a qualquer outro – não se faz anonimamente: há caras (e pretende-se até que corações…), há mensagens, frases-flash, arruadas, entrevistas biográfico-exploratórias, há, para cada um, um retrato a desvelar. Ele(s)/ela(s) passam a ser, em sentido alargado e efetivo, sujeitos determinantes (e determinados) do poder local.

Gostei de ler, nesta perspetiva, o assinado por Pedro Norton: ”É de facto, a nível local que se experimenta de forma mais tangível a democracia. É aí que é mais claro o elo entre eleitos e eleitores. É aí que a democracia se afasta dos grandes conceitos abstratos e ganha corpo e substância. É aí que mais se estimula a participação cívica, através de associações, assembleias e orçamentos participativos” […] “é também imperativo fazer a pedagogia do que funciona e, muito em concreto, perceber que o poder local pode ser uma barreira eficaz a (…) derivas antissistema”.

António Guerreiro assinala porém que, desta vez, a vontade cívica dos votantes se fixou maioritariamente nos pontos mais internos dos seus diversos círculos e que o pensamento ativo nos seus votos não se dirigiu, como expectável, a uma problemática mais politizada e abrangente, tais a emigração, a inclusão social, a ecologia e alterações climáticas.

Aceitam-se estas sinalizações se, por exemplo, nos fixarmos em regiões como o Alentejo. A título de mero exemplo, tenho lá, no centro histórico de uma cidade antiga, um prédio há quatros anos ocupado por uma família de ciganos. No texto da queixa que apresentava na esquadra da PSP foi-me pedido que não escrevesse “ciganos”, mas “nómadas”, ao que respondi: “Já não são. Resolveram sedentarizar-se na minha casa, de graça e bom passadio…”. Ainda não consegui solução, e, parêntesis: há uma lentidão bur(r)ocrática receosa de represálias que me deixa um certo sabor amargo quanto à eficácia operacional das nossas instituições policiais.

Mas adiante…

Estava eu no papel-vedeta das terceiras pessoas na eleição dos órgãos municipais. E, sendo a minha mente dada às linguísticas, ao explorar o território formal do respetivo pronome, dei-me mais uma vez conta de que, sendo a sua posição a mais afastada do circuito da personalização (eu/nós, primeira; tu/vós, segunda; ele/a, eles/as, terceira), pode sofrer, quanto ao sentido, uma certa desfocalização, tal como uma fotografia tirada mais de longe. E é assim que nos aparece numa fórmula de tratamento, típica da oralidade informal, cujo refente é indeterminado, o que lhe reserva um papel claramente enfático, potenciador do valor emotivo de prestações do tipo: “Ai ele é isso?!”;“Ele há cada surpresa…!”; “Ele era água a entrar por todos os lados…” ou “Ele até haverá para aí quem possa resolver esse assunto rapidamente…” Dá-se lhe o nome de ”expletivo”, aqui se chamou também “partícula de realce”, com papel dito ornamental do discurso, o que fica aliás provado se, se retirar do texto em que vem inserido, a frase não perde sentido, apenas expressividade.

Porém, em exemplos como os seguintes: “Eles agora não se vão poder aturar!”, “Eles andaram para aí aos beijinhos, mas agora vão amargá-las!” temos o caso da forma plural que aqui, como em inúmeros outros exemplos, refere genèrica e globalmente “os políticos”, “os governantes”.

E, esses, são uns eles que vão a votos!

O que quer que eles representem, tido em conta o maior ou menor grau de exclusividade ou aproximação, pesa numa escolha, resolve confrontações, legitima coligações, satisfaz votações – são sujeitos visados diretamente por uma vontade plural. São um eles referenciados, comparados, escolhidos, tal como um tu ou vós, senhores ou vocês, para um diálogo, de algum modo reconfortante, de coisa que nos diz respeito com alguém/alguns que cuidarão dela. E para mim, que venho do antigamente, do poder iluminado e lá no alto, a cada vez mais um ato eleitoral me faz lembrar que os tempos mudam e que, sendo o meu presente o futuro de ontem, posso concluir que andámos para a frente, para “um melhor” deveras com-sentido.

Embora António Guerreiro no texto citado insista: “[…] a verdade é que as eleições autárquicas se têm tornado, no mais alto grau, acontecimentos de escassa pertinência política. Podem ter muita importância enquanto programas gestionários, mas tendem a ser cada vez mais despolitizadas” para concluir que “o país está cultural e politicamente organizado para resultar no consenso conservador” eu penso que temos de dar papel ao Tempo. Como me dizia um querido amigo médico, perante a minha impaciência quanto aos resultados de um tratamento: “ É como nos cozinhados: eles põem os temperos, nós pomos as mèzinhas, mas o Tempo é que cozinha”. É isso – temos de saber esperar ativamente. Plantar, adubar, regar, buscando uma proximidade alerta de atração dos eles para o nosso, bem como numa disponibilização do nós para os eles e elas, numa dialética, lenta e lasboriosa, em que os pronomes viram nomes verdadeiros, em ambas as partes verdadeiramente pessoais. E as ideias germinarão. E, conjugadas e acarinhadas, com uma maturidade que lhes garanta a eficácia, frutificarão.

A tornar cada vez mais longínquas queixas como a que, em tempos não muito longínquos, eu ouvi à Ti Januária, na Beira esquecida: “Olhe, oh menina, ele é assim uma vida aqui p’ra trás das pedras, que eles lá em Lisboa nã conhecem. Nem sabem qu’existe…! D’aqui ninguém se salva!”

Salva sim, Ti Januária. A par e a passo, mas ele vai-se lá!