Desengane-se o leitor se pensa que este artigo versa sobre eleições presidenciais. Venho falar de política e de como esta está desligada dos cidadãos, e, por uma vez, a culpa não é dos políticos, mas sim dos cidadãos. Ia utilizar a palavra eleitores, mas verdadeiramente os cidadãos eleitores são uma minoria, e por isso me refiro a cidadãos.

Desconexão entre Cidadãos e Política

Os regimes democráticos enfrentam colossais desafios, e a sua regeneração depende da determinação popular e individual. Apesar de termos dezenas de partidos políticos e quase uma dezena representada na Assembleia da República, uma grande parte da população não se sente representada. Não vale a pena ter mais partidos, pois o povo começa a perceber que todos têm uma distribuição semelhante de pessoas bem e mal-intencionadas, capacitadas e incapacitadas. Os piores tendem a ser aqueles que estão mais tempo no poder, atraindo oportunistas, e partidos novos que crescem rapidamente sem quadros de qualidade. Problemas existem em todos os partidos, sem exceção, são inerentes à condição humana. Não vale a pena ter visões idílicas de partidos ideologicamente puros e protagonistas inocentes e altruístas. Não há, nunca houve, e provavelmente nunca haverá.

Problemas de Representação

A ideia de partidos com pessoas virtuosas e impolutas é uma conversa pueril. A regeneração da classe política requer um somatório virtuoso de decisões individuais de envolvimento na política. A boa notícia é que é possível mudar e fazer diferente.

Hoje, o número de filiados nos dois principais partidos nacionais – PSD e PS – cifra-se na ordem de poucos milhares de pessoas. Na eleição interna do PSD de 2022, Luís Montenegro (19.241 votos) venceu Jorge Moreira da Silva (7.306 votos). Foram estas pessoas que decidiram quem é um dos candidatos a PM, e no caso vertente, quem temos à frente do governo. Ou seja, 0,05% da população decidiu quem é o seu PM! No PS, a realidade não é muito diferente. Nos partidos mais pequenos, a realidade é ainda pior. Isto está fundamentalmente errado; deveríamos votar para eleger os melhores candidatos a PM, especialmente nos partidos com reais ambições de ser os mais votados ou gerar maiorias de governo.

Acresce que são comuns os relatos da atuação de brigadas de cacicagem. Caciques são líderes políticos locais que exercem grande influência e controlo sobre uma determinada região ou grupo de pessoas. Eles mobilizam votos e garantem apoio político em troca de favores ou benefícios. A prática de cacicagem manipula resultados eleitorais e subverte o jogo democrático, que deve basear-se na livre vontade de cada cidadão.

Cultura Cívica Política

A educação política é fundamental para que os cidadãos compreendam o funcionamento dos sistemas democráticos e a importância da sua participação ativa. Sem uma base sólida de conhecimento sobre política, muitos cidadãos podem sentir-se desmotivados, acreditando que o seu voto ou envolvimento não faz diferença, ou ser manipulados por forças políticas demagôgas, oportunistas e potencialmente antidemocráticas. Investir em programas de educação cívica nas escolas e promover debates públicos sobre questões políticas pode ajudar a criar uma sociedade mais informada e envolvida. Quando os cidadãos estão bem informados, são mais capazes de tomar decisões conscientes e ainda de aumentar os seus padrões de exigência sobre os seus representantes.

Lei de Gresham

Ser militante partidário é hoje visto como cadastro, o que promove aquilo que costumo designar pela Teoria da Evolução de Darwin invertida, que favorece a sobrevivência dos mais inaptos na política.

Na mesma linha, o professor Cavaco Silva enunciou a Lei de Gresham, segundo a qual, «a má moeda afasta a boa moeda», em artigo de 2004, no qual criticou ferozmente o governo da sua cor política liderado pelo dr. Santana Lopes.

Carlos Guimarães Pinto, deputado pela IL, afirmou recentemente, a propósito da demagogia com que se atacam alguns políticos pelas suas atividades privadas, que se quisermos fazer da política um local de onde se entra e não se pode sair, só virão para a política pessoas que vão para locais de onde se entra e não se sai, como prisões e asilos, numa metáfora bem conseguida que ilustra uma parte das questões que afetam negativamente o recrutamento político.

Os políticos não reformarão o sistema nem melhorarão os partidos e as instituições democráticas por sua iniciativa. Só há uma forma efetiva de combater esta dramática evolução da política e dos seus protagonistas, que passa por garantir uma participação ativa dos cidadãos na atividade partidária. Cidadãos esclarecidos, e participantes nas dinâmicas partidárias poderão, sim, contribuir para escolher os melhores protagonistas e definição de melhores políticas.

Participação Ativa

Há quem diga com orgulho que são “independentes”, mas ninguém diz com orgulho que é “militante” partidário. Todavia não há qualquer mal em qualquer das condições. Eu sou militante partidário, e tenho orgulho em ter dado esse passo para, no mínimo, com o meu voto influenciar o partido ideologicamente mais próximo de mim. E isto não me tira independência e pensamento crítico. Eu não concordo com tudo no partido em que milito, nem tal se poderia esperar com razoabilidade. No momento atual nem gosto da sua liderança, mas isso faz parte do jogo. Eliminar o estigma que paira sobre políticos e militantes é fundamental para alcançar um regime democrático maduro, no qual a sociedade e as lideranças partidárias se reconciliem.

É impossível encontrar o partido perfeito ou uma liderança que nos represente integralmente. A democracia é a arte do possível, não de utopias. Partidos “perfeitos”, lideranças “irrepreensíveis” e soluçes simples para tudo são características de regimes autocráticos, aqueles que causaram mais pobreza, mortes e guerras. A realidade de hoje é complexa e em constante mudança. Só com sociedades informadas, esclarecidas e envolvidas na vida política as democracias poderão sobreviver.

Se quer melhores políticos, faça um favor a si mesmo e ao país: filie-se, participe e envolva-se ativamente na política. Só assim acabaremos com a perversão do jogo democrático causada pela “cacicagem” e influências externas ocultas, como a da maçonaria.

O primeiro passo para regenerar a política passa por deixar cair o anátema que paira sobre políticos e militantes. O segundo passo é vencer a inércia, perder a vergonha, abandonar o discurso do “são todos iguais” e pôr mãos à obra. Afinal, a democracia é responsabilidade de todos, inclusive sua!