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Carlos Moedas é o nome escolhido pelo PSD para disputar as eleições à Câmara Municipal de Lisboa. Após semanas de delírios e disparates sortidos, Rui Rio consegue talvez o seu maior feito nestes três anos de liderança do PSD, encontrando em Carlos Moedas uma figura credível e com capacidade agregadora, possivelmente das poucas com possibilidades reais de retirar Lisboa ao poder socialista.

A satisfação que a candidatura de Carlos Moedas gerou não é de admirar. Após três anos de apagamento e cinzentismo, eis finalmente um fôlego de alternativa ao socialismo. É irónico que a força de agregação à direita que Carlos Moedas parece representar – a parte que mais seduz na sua candidatura -, ser precisamente aquilo que Rui Rio optou, de forma deliberada e consciente, por restringir durante o seu mandato no PSD. E essa estratégia não pode ignorada, com ou sem Carlos Moedas.

Recordemos. Durante os últimos três anos, a liderança do PSD repetiu exaustivamente a sua intenção de circunscrever a atuação política em exclusivo à social-democracia, corrigindo assim uma putativa deriva “neo-liberal” de Pedro Passos Coelho, invocando para o efeito o legado mais “centrista” de Sá Carneiro. Posicionar-se entre o centro e o centro-esquerda. Ora, ainda que fosse esse o legado de Sá Carneiro – interpretação que não me parece ser conciliável com o legado de quem liderou a Aliança Democrática, associando-se, inclusivamente, a membros do antigo regime -, é um erro encarar os desafios do presente sem compreender que o PSD representa um espaço e um eleitorado que ultrapassam essas fronteiras. E que apenas é viável enquanto partido agregador com um projeto totalmente distinto do Partido Socialista. Que não se cinja à pureza ideológica da “social-democracia”, ou à abstração do “centro”, mas que albergue conservadores, liberais, democratas cristãos e sociais-democratas, potencializando esse pluralismo num projeto verdadeiramente reformista. Porque um PSD pequeno, posicionado à esquerda ou ao centro, apenas contribui para a validação da esquerda e dos grandes consensos nacionais acerca do seu virtuosismo. Como se a esquerda precisasse de ainda mais ajuda para esse efeito.

Rui Rio não terá, por ventura, percebido a força hegemónica do Partido Socialista. Para compreendê-la, recuemos a 1989. Neste ano, o muro de Berlim é derrubado e com ele desaba a última sobra de credibilidade da ideologia marxista, o que, paradoxalmente, não causa qualquer abalo aos partidos socialistas ocidentais; pelo contrário, fá-los renascer, agora imunes a qualquer associação à ortodoxia comunista, o que permite que se tornem verdadeiros partidos de governação. Este renascimento do socialismo democrático encontra em Portugal um terreno fértil – por razões culturais e históricas -, uma vez que, na sequência do escoamento do pensamento de direita perpetrado pelo salazarismo (com o propósito de reduzir a oposição à direita) e das balizas de pensamento fixadas à esquerda pelo regime de abril, o pensamento esquerdista predominava em Portugal.

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Culturalmente hegemónico, o PS cedo conseguiu estender a sua influência pelo Estado, a Administração Pública e a sociedade civil. Pelo que facilmente se compreende a hegemonia socialista desde o guterrismo até aos dias de hoje. Veja-se que mesmo José Sócrates, após a bancarrota e com todos os casos à data já conhecidos, obteve 28% nas eleições. Atualmente, com a inenarrável gestão pandémica, com o acumular de casos de incompetência gritante e de incapacidade governativa, com falhas, mentiras, dissimulações, intimidações e ameaças do governo a ocorrerem a um ritmo alucinante, o PS consegue a proeza de se manter líder destacado nas sondagens.

Este período de 25 anos de hegemonia socialista – o longo inverno socialista — corresponde temporalmente à estagnação do crescimento económico português; ano após ano, Portugal diverge cada vez mais da média europeia em vários indicadores. A isto junta-se uma sociedade civil esmagada pelo poder político, a inexistente mobilidade social, a corrosão das nossas instituições e o empobrecimento da nossa cultura democrática, a ausência de pensamento estratégico, a alienação e o desinteresse da população face à política, o crescimento do radicalismo e da polarização, uma justiça condicionada, um sistema de saúde incapaz de responder as exigências, um interior desertificado, um desemprego enorme e uma pobreza crescente. Em suma, Portugal é – não tenhamos medo das palavras – um Estado falhado.

Claro que a narrativa oficial, patrocinada pelo Presidente da República, não é essa. Com a conivência da atual liderança do PSD, engendrou-se a ideia de que Portugal está bem e se recomenda. Qualquer pretexto serve para alimentar esta ilusão de vitória, os requisitos mínimos de governação são transformados em sucessos nunca antes alcançados, os desastres governativos são relativizados ou a sua culpa é expiada, de preferência, nos privados ou na “oposição” e a mais singela boa-notícia é adornada para se tornar num grande feito civilizacional. O horizonte de expetativas dos portugueses é, hoje, realmente baixo. Paralelamente, narrativas “anti-crispação” e em prol da “estabilidade” (mais uma vez patrocinadas pelo PR) – que são formas de evitar a confrontação com a realidade -, enformam um sentimento geral de conformação com a inevitabilidade e inalterabilidade do nosso fado de pobreza, mediocridade e pequenez. Um apaziguamento envenenado, que nem a pandemia, nem as fragilidades por esta expostas conseguem alterar.

E assim vai o PS utilizando o poder, não para servir o país, fazendo as reformas que este precisa, mas para colonizar o Estado, distribuindo e criando cargos para os seus, tentando expandir, como um polvo, os tentáculos socialistas por todos os setores da vida portuguesa. É a lógica do poder pelo poder, em que inexiste uma ideia reformista ou um projeto para o país. Ao mesmo tempo, vai-se gerindo a situação, mexendo aqui para remendar ali, enquanto a dívida se acumula e a fragilidade de Portugal se agrava. Fatalmente, surgindo uma crise exógena ou uma conjuntura mais desfavorável, Portugal é apanhado numa posição crítica.

Perante este quadro, Rui Rio optou por ser uma muleta do PS. A sua grande base estratégica foi, desde o início, fazer do PSD um polo magnético que atraísse o PS ao centro, fazendo-o esquecer os seus parceiros geringôncios. Mas o que é verdade há 25 anos, mantém-se: o PS – pelo menos este PS – não tem qualquer intenção de fazer reformas importantes em Portugal. Como se não bastasse, a isto junta-se uma certa disposição autoritária de Rui Rio, paradoxal em quem tanto se preocupa com o centrismo político. Basta relembrar que foi o PSD a terminar com os debates parlamentares, utilizando o típico argumentário anti-parlamentar do séc. XX, ou o notório deslumbre com o partido Chega!, ou a forma como Rui Rio trata certos adversários políticos, o jornalismo e as sondagens, ou mesmo como vê o papel da oposição ou do escrutínio do poder num regime democrático.

Posto isto, Carlos Moedas pode muito bem conferir o necessário balão de oxigénio a Rui Rio, que assim aumenta as probabilidades de obter um bom resultado autárquico, eleições às quais deu bastante importância. Mas desengane-se quem pensar que a escolha de Carlos Moedas, mais do que uma opção tática de sobrevivência política, constitui um ponto de viragem ou uma evolução na estratégia de liderança do PSD. Nem seria justo pedir a Rui Rio que voltasse atrás naquela que é a sua visão ou naquelas que são as suas inclinações. Rui Rio representa, para o bem e para o mal, uma determinada estratégia. Como tal, nunca poderá ser o rosto de um outro caminho, nem dispõe do perfil para liderar um projeto agregador, verdadeiramente reformista e alternativo ao socialismo.