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Política

É hora de dizer chega, antes que venha aí o Chega /premium

Autor
  • Tomás Lopes da Cruz
826

Entre politiquices e manobras de bastidores, os dois líderes desagradam aos seus partidos e revelam-se incapazes de fazer verdadeira política. Contudo o problema da Direita em Portugal é mais profundo

Comecemos por um truísmo: A Direita portuguesa atravessa uma crise política e cultural evidente para todos.

Os dois maiores partidos deste espaço político, reféns de duas direções manifestamente incapazes, após serem humilhados nas eleições europeias e, quando mais urgia uma mudança de atuação, entenderam que virar ainda mais à esquerda resolveria os seus problemas. Fica o aviso: continuem neste “if you can’t beat them, join them”, e Outubro trará uma derrota sem precedentes – que, já de si, se afigura inevitável.

A Direita nunca esteve verdadeiramente unida. Acontece que, num contexto de eminente arrefecimento económico, de degradação das instituições, na era da pós-verdade e da falta de valores na política, se torna desesperadamente necessário que, no futuro mais próximo, se construa um espaço de Direita com verdadeira relevância. Isto implica, naturalmente, fazer escolhas difíceis, adotar um discurso forte e definir prioridades.

Acredito que a atual situação da Direita se pode explicar, fundamentalmente, em dois pontos: por um lado, uma crise absoluta na direção do PSD e CDS; por outro, uma incapacidade gritante de olhar para o mundo e perceber as suas transformações, insistindo em velhas práticas e opções políticas que já nada dizem às pessoas comuns.

Rui Rio, desde que eleito presidente do PSD, apenas apresenta consistência na fraqueza e pusilanimidade com que trata António Costa e o governo. Num período em que se desperdiça uma conjuntura económica favorável, em que não se faz uma reforma verdadeiramente importante e em que a falta de investimento público deixa o país de rastos, Rio abstém-se de ser a voz da oposição que a Direita – melhor, o próprio país – tanto precisa. Rio consegue reunir em si a proeza de estar no partido errado:  um dos seus ídolos políticos é, justamente, Helmut Schmidt, uma figura histórica do SPD – o Partido Socialista alemão; e ser uma nulidade política: ultra-autoritário, extraordinariamente inflexível e, na sua alucinada teimosia, estar convencido de que, por ser sério e incorrompível, a sua voz é a voz inquestionável da razão.

Assunção Cristas, por sua vez, na tentativa de corresponder ao que é “moderno”, decerto aliena um eleitorado mais conservador e tradicional. Destaco, enquanto exemplo paradigmático, a humilhante aparição num burlesco programa televisivo da “noite” lisboeta, em que se submeteu aos mais vulgares impropérios e em que, absurdo dos absurdos, foi completamente ignorada enquanto assistia a uma aula de Ciência Política do Pedro Abrunhosa.
O CDS pode continuar a afirmar-se de Direita as vezes que quiser, mas enquanto não perceber que, para tal, não basta ser contra a eutanásia e contra o aborto, o vazio permanecerá.

Entre politiquices e manobras de bastidores, os dois líderes desagradam aos seus partidos e revelam-se incapazes de fazer verdadeira política.

Contudo, o problema da Direita em Portugal é mais profundo.

Verdade seja dita, salvo raras exceções, desde o 25 de Abril que a Direita portuguesa apenas é chamada a governar como espécie de amparo para as irresponsabilidades dos governos de esquerda. Isto acontece porque a Direita está culturalmente esgotada ou, pelo menos, não encontra representação nos partidos.

As sociedades e os regimes vivem de mitos, muitos deles importantes, muitos deles redutores. Ora, a 3ª República produziu o mito maniqueísta segundo o qual, ser de Direita é ser-se salazarista e ser-se salazarista significa ser fascista. Criou-se então um paradigma cultural homogéneo de esquerda que, nos dias de hoje, à deriva do progressismo e da multiplicação quase diária das causas fraturantes, vai ganhando cada vez mais preponderância.

E a Direita, fatalmente resignada, ignora que tem que travar esta batalha cultural, de valores e de desmistificação de uma suposta superioridade moral da esquerda. Ao invés, atua como verdadeira colaboracionista – no mínimo, conivente – com a agenda cultural de Esquerda; da ideologia de género e da cultura da morte, acabando, naturalmente, por ficar refém da novilíngua da vanguarda progressista e do politicamente correto.

Se é óbvio que a Direita nunca será um espaço homogéneo (nem é desejável que o seja), é vital para o país que, na sua diversidade, convirja no sentido de construção de um espaço bem alicerçado em valores basilares de Direita, que seja capaz de os defender sem compromissos, sem meias-palavras e sem justificações bacocas. Que rejeite o que pior se tem feito pelos governos de Esquerda, mas não se cingindo a ser um espaço de negação.

Para isso, é necessário romper firmemente com a tutela cultural da Esquerda, sem pedir permissão às brigadas do politicamente correto.

Observando o que se passa lá fora e sabendo da existência de um eleitorado e de elites portuguesas de Direita, há razões para acreditar que existe um terreno fértil para uma Direita forte e independente. Se este não for preenchido por vozes inteligentes e sérias, apresentando soluções criativas e adequadas à realidade nacional, será conquistado por partidos do estilo do “Chega” e pelas suas importações demagógicas do estrangeiro.

Esta Direita tem então que desconfiar de qualquer tipo de construtivismo social, que corrói tudo o que nasce espontânea e organicamente; tem que privilegiar a livre iniciativa económica e a concorrência, por oposição ao estatismo e à burocracia; tem que se bater por uma verdadeira separação de poderes, em que a Justiça é verdadeiramente independente; tem que promover a mobilidade social, reinventando mecanismos de solidariedade; tem que se orgulhar do imenso património civilizacional e dos valores de Atenas, Jerusalém e Roma que partilha com a Europa, mas, com a mesma intensidade, relevar a necessidade de ser um Estado soberano e livre, em muito diferente de outros povos europeus.

Tem que ser uma Direita patriota, que não olhe para a sua História como se esta de um tribunal se tratasse, que, não se esquecendo de velhos amigos transatlânticos, veja no diálogo com estes projetos ambiciosos de futuro, que possam dar relevância a Portugal na política internacional.

Uma Direita que ponha fim ao jugo fiscal que drena há gerações a energia dos Portugueses e que, com sinceridade e sem medo, afirme que para tal é preciso controlar a despesa e fazer reformas na função pública.

Uma Direita que liberte a saúde e a educação das correntes ideológicas que as têm vindo a definhar.

Uma Direita que defenda implacavelmente a Vida.

Só nestes moldes é possível pôr travão ao avanço do socialismo, do relativismo moral, da misantropia, da cultura da vitimização, do branqueamento da História e, consequentemente, do auto-esquecimento.

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