Primeiro estranha-se. Depois, estranha-se ainda mais.

Olhem mais de perto: é a nova cara de Renée Zellweger. O assunto encheu primeiras páginas, virou vírus nas redes sociais, tornou-se notícia em meios de comunicação tão sérios como o Observador ou o Guardian. Volto ao tema com relutância e a benevolência dos leitores apenas porque ele suscita tantas diferentes reflexões que não resisto a fazer mais uma.

Já se disse tudo: que a actriz continua bonita, que está inchada, ficou irreconhecível, parece a Cameron Diaz, que é um escândalo, que é um direito, que devem deixá-la em paz. O Guardian, num artigo notável, concluiu que não há nada errado com o rosto dela mas sim connosco, por darmos ao assunto a importância que (não) tem.

Mas sabem uma novidade? Mudamos todos e provavelmente depressa de mais (pelo menos para o nosso gosto). Basta compararmos uma fotografia de há 5 anos com uma actual, a partir dos 40 (e por aí fora), e lá está uma pessoa diferente, mais gorda, com mais rugas, cabelos brancos, coisas postiças. Que mau cirurgião plástico é o tempo! É certo que as diferenças, apesar de tudo, não são tão grandes, nem tão abruptas, argumentam os críticos da mudança de Jones, perdão de Zellweger. Embora, diga-se em abono da verdade, Renée também não fosse muito parecida com Bridget Jones.

Aos 45 anos, Renée Zellweger decidiu mudar. Porquê? Para corrigir imperfeições que provavelmente só ela via. Para ficar mais bonita e mais jovem e atingir um padrão de beleza que a sua circunstância – de actriz de cinema em Hollywood – eleva a uma espécie de condição de sucesso. Alguém a obrigou? Ninguém, certamente. Ou talvez…

A fama. A beleza. A juventude. Quem as conhece – pelo menos a juventude todos a conhecemos – não as quer perder nunca, ao ponto da obsessão. Para um artista famoso, tudo se resume ao que foi no tempo em que era idolatrado. Para um político, a passagem pelo poder, por longínqua que seja e curta que tenha sido, foi o tempo das grandes decisões, das políticas mais sábias, das incompreensões mais injustas. Para uma vedeta da televisão, o vício do ecrã é pior do que heroína. E os modelos? Vale tudo para continuar a aparecer, continuar no poder, sobreviver nos escaparates, nas passereles, nas galerias.

O tempo que passa é o inimigo. Usam-se armas poderosas para o retardar: primeiro bases, rimeis e batons, cabeleiras e extensões. Mais tarde o bisturi, o ácido hialurónico e a bactéria costridium botulinum, causadora do botulismo que, domesticada (industrializada e purificada), origina a toxina botulínica, alisa testas e bochechas. O botox. Mesmo em Portugal a fama cobra um pesado tributo a quem se entrega. Perdê-la é pior do que a não ter tido – neste caso não se lhe sente a falta. Se é assim no nosso pequeno quintal, imaginem Hollywood. Como reter a juventude e a beleza, chave para o sucesso e a fama? O que fazer para continuar impossivelmente perfeito (perfeita)?

Há soluções, diz o diabo à desconcertada vítima. Apetece-me citar o divino Óscar Wilde. Ou, se calhar, Fausto. É o mesmo, não? Adulterando as suas palavras, não há nada mais inútil do que a beleza; excepto pelo facto de a admirarmos. Que mérito tem uma pessoa bonita? E se imerecida beleza abriu a Renée Zellweger as portas do cinema e do sucesso, qual o papel do talento? Ah, o talento… quanto talento jaz incógnito pelos cemitérios e cenotáfios do mundo?

Renée que como Bridget não hesitou em arriscar, engordando muito para além da norma que dita as medidas de actriz bem sucedida – sabemos bem que medidas são essas -, voltou a arriscar, desta vez no sentido oposto. Fez bem? Fez mal? Temos alguma coisa a ver com isso? Vejamos: o jogo da fama tem regras conhecidas. A exposição pública da vida privada é uma dessas regras, das mais relevantes. A vida privada das figuras públicas é, por definição, do domínio público. Está errado? Talvez, mas é o jogo que jogam os que buscam fama e sucesso.

Talvez a pergunta mais importante não seja quão diferente está o rosto de Zellweger mas se ficou mais ou menos bonita. A opinião geral parece ser negativa. E afinal o que é isso de beleza física? Padrões, modas, gostos; opiniões, numa subjectividade que sustenta uma discussão eterna sem resposta final. Mas o que a cirurgia estética tantas vezes ignora, qual buldozer em prado ligeiro e frágil, é que a beleza não é perfeição. As mulheres mais bonitas não têm feições perfeitas, simétricas e sem falhas, pois a simetria perfeita, disse há muito Francis Bacon, pode ser maçadora; a beleza excelente requer “alguma estranheza na proporção”: o grão de beleza de Marylin; os olhos esbugalhados de Bette Davis; o corpo coca-cola de Mae West. Barbara Streisand, Sofia Loren, Elizabeth Taylor? Imaginem um bisturi a corrigi-las…

“O que há num nome? (Se…) Aquilo a que chamamos rosa, com qualquer outro nome, cheiraria tão bem?”, pergunta a Julieta de Shakespeare. Pode a pergunta aplicar-se a Renée, que continua afinal a ser a mesma, com os mesmos gostos e personalidade? O que há num rosto? Renée Zellweger não tornará a vestir a pele da exótica e desastrada Bridget Jones. Ou talvez o possa fazer, bastando que o próximo filme comece com a sequela de uma operação plástica de uma Jones farta de se ver ao espelho. Em busca da perfeição. Afinal, é fácil. Ou não, depende da credibilidade da transformação.

Talvez a conclusão disto tudo seja que a noção de identidade pessoal já não é bem o que era, sobretudo tratando-se de figuras públicas. Jogam o jogo, tentadas pelas promessas da fama, da celebridade, do poder. Ao jogá-lo aceitam as regras, que as obrigam a ser jovens e belas. Perfeitas.

A única forma de nos livrarmos de uma tentação é ceder-lhe, diz Lord Henry a Dorian Gray. Bridget Jones cedeu à tentação da perfeição. E morreu.

 

Professor da Universidade Católica – Instituto de Estudos Políticos