O resultado destas eleições afasta a ideia de bipartidarismo até agora vigente no sistema político e partidário português. Como disse Salgueiro Maia, existem “os estados socialistas, os estados capitalistas e o estado a que chegamos”, e o estado atual exige reflexão séria, não um alarmismo fácil. Em vez de se multiplicarem os textos nas redes sociais a denunciar o perigo do “fascismo”, seria mais útil compreender o porquê do CHEGA ter ganho tanta força, em larga medida em prejuízo do Partido Socialista.

Antes de mais, importa fazer uma menção honrosa a comentadores como Paulo Baldaia, Ana Gomes, Miguel Prata Roque, e todos os demais que, durante longos anos, utilizaram os meios de comunicação como palco de partilha das suas narrativas facciosas. Tentaram sempre branquear a esquerda e os seus extremismos, desde logo durante a governação de António Costa, tendo acabado por criar o tal “bicho papão” que hoje tanto repudiam, alimentado pelo descontentamento daqueles que assistiram a uma total normalização da extrema esquerda em Portugal. Assim, esta está longe de ser uma derrota exclusiva dos partidos à esquerda, é a queda a pique daqueles que se serviram das TVs para defender quem os alimenta, em vez de servirem a sociedade, com honestidade intelectual.

Não deixo de achar caricato que aqueles que se levantaram para aplaudir António Costa quando este decidiu aliar-se à extrema esquerda para conseguir algemar-se ao poder, mesmo tendo perdido eleições, sejam os mesmos que suplicam a Luís Montenegro que tenha respeito pelo jogo democrático, que não negoceie com o CHEGA, e que não viabilize qualquer tipo de revisão constitucional. Poderia dizer que é um choque e uma surpresa, mas estaria a mentir. Afinal, a dualidade de critérios já é uma marca bem vincada da nossa esquerda.

A AD deve saber interpretar com clareza a mensagem das urnas. Os eleitores não lhe deram apenas uma vitória, ofereceram-lhe uma oportunidade de liderar uma mudança de rumo. Essa viragem à direita implica, necessariamente, a abertura a entendimentos com a Iniciativa Liberal e com o CHEGA. Recusar esse diálogo por receio mediático, poderá ter custos elevados. E, nessa altura, o presente será devolvido, mas à oposição.

É também politicamente perigoso rotular, como muitos têm feito, o eleitorado do CHEGA como sendo, em bloco, racista, extremista ou antidemocrático. Essa caricatura simplista ignora um dado essencial: o crescimento do partido deu-se sobretudo em regiões tradicionalmente dominadas pelo PS. Terá essa massa eleitoral sofrido uma súbita mutação ideológica? Claro que não. A realidade é mais desconfortável: a esquerda perdeu a capacidade de representar quem se sentia abandonado, e o CHEGA ocupou esse espaço. Durante décadas, alimentaram-se do medo, da retórica anti-neoliberal e da promessa constante de justiça social. Mas hoje, esse medo deixou de ser credível para muitos. Em vez de medo, há frustração. Em vez de promessas ideológicas, o eleitor exige soluções concretas. A esquerda, ao recusar ouvir este sinal, ao continuar a qualificar o voto no CHEGA como moralmente inferior, mostra que não está apenas a perder eleições, está a perder relevância. Como proferiu António Costa: habituem-se!

Sobre o desempenho dos outros partidos à esquerda, nomeadamente BE e PCP, pouco há a dizer além de sublinhar aquilo que foi uma campanha desconectada da realidade política atual. Paulo Raimundo insiste numa retórica ultrapassada, agarrada a uma rigidez ideológica. Prontamente anunciou uma moção de rejeição ao programa de governo, programa este até agora desconhecido. Por sua vez, Mariana Mortágua voltou a demonstrar um total alienamento face às preocupações do eleitorado. Não foi capaz de centrar o seu discurso nos problemas concretos da vida dos portugueses, preferindo focar-se excessivamente em causas internacionais. A sua equipa de comunicação talvez devesse ter esclarecido que esta campanha é para cidadãos portugueses, não para o eleitorado da Palestina.

Finalmente, a AD sai reforçada, tendo mais mandatos sozinha do que toda a esquerda. A maioria dos portugueses continua a ver Luís Montenegro como uma fonte de estabilidade, confiança e responsabilidade política. Os portugueses escolheram este governo e não outro. Escolheram este Primeiro-Ministro e não outro. Da parte das oposições espera-se disponibilidade para o diálogo, mas, acima de tudo, espera-se que respeitem a decisão das portuguesas e dos portugueses. Espera-se que deixem o Luís continuar a trabalhar!