Eis que o primeiro-ministro esclarece que o Chega está “normalizado”, e acontece isto: não caiu o Carmo nem a Trindade. Algumas coisas mudaram. Mas há que corrigir Luís Montenegro. Não foi o partido Chega que foi “normalizado”: foi o regime. Porque a exclusão do Chega, exigida pela esquerda e aceite até há pouco tempo por parte da direita, só nos podia conduzir a um regime anormal.

É possível, sem grandes transtornos, banir das instituições um partido com 2% dos votos. Não é possível, sem mudar o regime, tratar como leproso um partido com 23% e a crescer. Haveria um momento em que, para fechar as portas ao Chega, todos os outros partidos teriam de se unir. Imaginem: CDS, PSD, IL, PS, PCP, BE e Livre, isto é, conservadores, liberais, socialistas e comunistas, adeptos da Nato e fãs de Putin – tudo junto. O que sairia desta maionese aberrante, se não deslassasse logo? Para começar, o descrédito de partidos que, ao abraçarem os contrários, iriam parecer, do ponto de vista dos seus próprios princípios, falsos ou frouxos. Depois, governos (se os houvesse) cuja heterogeneidade só lhes permitiria a gestão passiva do existente: pensem, por exemplo, no que seria a política de imigração de um governo que, para deixar o Chega de fora, dependesse dos votos de CDS, PSD, IL, PS, PCP, BE e Livre. E se o Chega não parasse de acumular votos? Então, só uma ditadura o poderia marginalizar: uma ditadura para defender a “democracia”… O país acabaria por parecer uma peça de teatro de Ionesco.

Valeria a pena chegar ao absurdo por causa do Chega? Não. O Chega não se propõe conquistar o poder pela violência, nem tem como ideal, ao contrário do PCP e do BE, ditaduras como a de Cuba ou da Venezuela. A maioria dos dirigentes do Chega veio da direita democrática, do PSD e CDS. A sua estigmatização não foi mais do que um caso de demagogia cínica. À esquerda, interessava dividir a direita e deixá-la incapaz de governar. À direita, havia quem, afastando o Chega de soluções de governo, esperasse secá-lo através do voto útil. Nada resultou. O que o Chega representava não podia ser apagado: por um lado, a autonomização da direita nacionalista, até há pouco diluída no PSD e no CDS; por outro, uma atitude desassombrada perante a imigração descontrolada ou os atentados wokistas contra a liberdade e o bom senso, quando uma parte da direita preferia o silêncio ou o colaboracionismo. O Chega foi demagógico e histriónico? Foi, mas não mais do que os outros partidos sempre foram. Antes do Chega, era de bom tom achar a “irreverência” do BE muito fresca.

Nem todos os movimentos da direita nacionalista no mundo se recomendam. A alguns, o proteccionismo fez-lhes esquecer as origens da riqueza; a outros, uma visão paroquial impede-os de perceber ameaças como a teocracia iraniana ou a ditadura neo-soviética de Putin. Não parece ser o caso da liderança do Chega. Mas não é o Chega que está em causa. É o regime político, nos seus valores e sobretudo na sua capacidade. Portugal precisa de um regime político normal. Um regime normal não é um regime em que todas as correntes de opinião organizadas estão unidas contra um inimigo comum. Isso é uma situação de guerra. Num regime normal, existem dois grandes blocos partidários, com visões opostas, que alternam no poder, respeitando a lei e as regras. É isso que a sociedade portuguesa requer para sobreviver num mundo em que as coisas estão a deixar de ser como eram: precisamos de debates sem tabus e com alternativas claras, e de soluções de governo coerentes e efectivas. Ao impedir isso, a exclusão do Chega, sem qualquer motivo para além do facciosismo dos outros partidos, era uma grande estupidez.