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Numa declaração em que, sem qualquer pudor, responsabilizou os portugueses pelo aumento dos casos de Covid, o PM fez uma afirmação espantosa. Disse, e cito: “Este não é o momento para aproveitar as brechas da lei para se fazer o que não deve ser feito.” Num momento de sofrimento nacional, António Costa tratou os portugueses como violadores da lei. Mais um exemplo da insensibilidade do nosso PM. A maioria dos portugueses não anda a ver como se aproveitam as “brechas da lei”. Pelo contrário, está a tentar sobreviver como pode.

Em geral, os portugueses estão aflitos sem saber como será o seu futuro. Se vão acabar num corredor de hospital, se vão despedir-se dos familiares de idade sem saberem se os voltam a ver. Se vão perder o emprego. Se vão ter dinheiro para pagar a casa. Os portugueses estão angustiados com a pandemia e o seu futuro. E o PM português diz perante todo o país que andam a “aproveitar as brechas da lei.”

Esta afirmação é ainda mais extraordinária vinda do líder de um partido que se especializou nas últimas décadas em aproveitar todas as brechas da lei para satisfazer o seu apetite pelo poder. Costa avalia os portugueses pelos padrões de comportamento do seu partido.

Vamos então às “brechas” do PM. Nenhum português abriu tantas brechas como o governo socialista. Com os portugueses em casa, as esquerdas celebraram o 25 de Abril, sem máscaras, para mostrar quem são os donos do regime. O que se aplica a todos, não se aplica a eles. O 25 de Abril de 2020 não foi o dia da liberdade (e, para as almas mais sensíveis, sublinho apenas o de 2020). Foi o dia da soberba socialista.

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Depois abriram brechas aos sindicatos para celebrarem o 1º de Maio e ao PCP para fazer a festa do Avante. Foram decisões políticas de um governo minoritário que necessita de apoio parlamentar. O voto dos comunistas no Orçamento de Estado pagou a festa do Avante.

Pelo meio houve a Champions em Lisboa, os auto-elogios porque Portugal tinha resultados muito melhores do que a maioria dos países europeus. Houve ainda um verão igual aos outros, com fotografias do PM e de membros do governo na praia e em férias, como se a pandemia tivesse acabado. Aqueles que avisavam para o perigo de uma segunda vaga eram tratados como os habituais “profetas da desgraça.”

O facilitismo, o populismo e o desejo de agradar aos portugueses repetiram-se entre o Natal e o Ano Novo. Além disso, depois das excepções políticas da Primavera e do Verão, para agradar às esquerdas, o PM não tinha autoridade para ser duro com os sectores mais conservadores da população portuguesa. E quando já muitos falavam da terceira vaga, o PM jurava que nunca mais impunha um confinamento aos portugueses.

Este comportamento errático, com excepções e favores políticos (cheio de “brechas”), retirou autoridade moral ao PM. A autoridade conquista-se com o exemplo e com um comportamento acima de qualquer suspeita. Não basta fazer discursos cheios de boas intenções. Se o exemplo e a autoridade de um PM são sempre importantes, em tempos de pandemia são absolutamente essenciais. Como é que os portugueses podem acreditar na palavra do PM depois da tanta incoerência e oportunismo?

António Costa também afirmou que este não é o tempo de disputas políticas, mas sim de unidade nacional (e disse isto a menos de uma semana das eleições presidenciais, mostrando um entendimento estranho da democracia). No entanto, o governo não aplica o princípio da unidade nacional ao sector da saúde, dividindo permanentemente o SNS e a saúde privada. À disponibilidade total dos grupos de saúde para colaborarem com o governo e com o SNS, a ministra da Saúde responde com a ameaça da requisição civil dos hospitais privados. Neste caso, não há preocupações com a unidade nacional ou com a violação do estado de direito?

O preconceito ideológico contra o sector privado está a repetir-se com as vacinas. Neste momento, só se vacina no sector público. O Reino Unido foi durante meses o pior país europeu em termos de novos casos e de mortes. Mas a vacinação está a correr melhor do que em qualquer outro país europeu. No Reino Unido, dão-se vacinas nas farmácias, nos supermercados, nas igrejas; e das 8 da manhã à meia noite. Eis o exemplo de um país que decidiu colocar o combate ao Covid acima de considerações ideológicas e corporativas. Portugal deveria seguir o exemplo britânico.

Para vacinar metade da população portuguesa em seis meses (dez milhões de doses), seria necessário dar 55.000 vacinas por dia. O SNS não tem capacidade para o fazer. É fundamental mobilizar todos os meios existentes, públicos e privados, para vacinar os portugueses o mais rapidamente possível. Mas desconfio que nem perante a maior crise pandémica na Europa, o governo abandona os seus preconceitos ideológicos e a sua fidelidade aos interesses corporativos.

António Costa perdeu credibilidade e autoridade. Hoje, em termos relativos à população, Portugal é o país da Europa com o maior número de novos casos diários e de mortes. A Hungria, do “terrível Orban”, com uma população semelhante à portuguesa, tem cerca de 10 vezes menos casos diários e três vezes menos mortes diárias.

No início do mês, o PM estava cheio de si próprio com o início da presidência portuguesa do Conselho da UE. Seria o momento para brilhar, com a bazuca de fundos e com a vacina. Mas a realidade é muito diferente. O PM português mostrou que não tem capacidade para governar um país em crise. Os portugueses continuarão a sofrer por causa dessa incapacidade. Mas se o sofrimento é inevitável, dispensam seguramente os insultos do PM a tratá-los como incumpridores da lei.