Tenho pensado muito sobre isto da imigração.
Não como político, nem como especialista.
Como cidadão. Como alguém que anda na rua, fala com pessoas, e tenta ver as coisas como elas são.
Não sou contra quem vem. Longe disso.
Sou contra como deixaram isto.
Portugal sempre foi um país de emigrantes. Há histórias de gente que saiu daqui com uma mala de cartão e esperança. Gente que trabalhou duro, que respeitou os países que os acolheram, que aprendeu línguas, que criou famílias lá fora e que nunca deixou de ser portuguesa. Talvez por isso, acho que sei distinguir entre quem vem para fugir da miséria ou procurar uma vida melhor — e quem vem apenas porque sabe que aqui se entra facilmente e se pode viver à margem da lei sem grandes consequências.
É duro dizer isto, mas é verdade: Portugal hoje trata a imigração como quem deixa a porta destrancada e depois se queixa de quem entrou. Vejo gente a chegar sem contrato de trabalho, sem saber uma palavra da nossa língua, muitas vezes trazida por redes de tráfico que os largam cá como se fossem carga. Depois andam a viver em quartos com 10 pessoas, a trabalhar 12 horas por dia por uma ninharia, ou a vaguear porque não conseguem sequer regularizar-se. Uns acabam explorados, outros acabam perdidos. E o Estado assobia para o lado.
O que estamos a fazer não é acolher.
É largar. É abandonar. É deixar tudo ao acaso e fingir que é generosidade. E no meio disso, os portugueses que vivem nos bairros mais pobres os que partilham transportes, centros de saúde, escolas são os primeiros a sentir a sobrecarga. Os primeiros a ver crescer a tensão, o ruído, os
pequenos conflitos do dia a dia que os mais privilegiados fingem que não existem.
O resultado? Uns começam a culpar todos os imigrantes. Outros preferem negar que há problema algum. E ficamos presos entre o medo e a fantasia.
Para mim, é claro: precisamos de imigração. Portugal está a envelhecer, faltam trabalhadores em muitos setores. Mas isso não significa abrir tudo a todos, sem critério, sem exigência, sem preparação.
Quem vem para trabalhar, contribuir, respeitar as leis, deve ser bem-vindo. Como é lá fora com os nossos.
Mas não pode valer tudo. Não podemos normalizar o descontrolo, nem a falta de coragem política para dizer: sim, é preciso impor regras. É preciso saber quem entra, porquê, e com que meios vai viver.
Não digo isto com raiva. Digo com respeito. E até com alguma tristeza. Porque estamos a falhar com os que cá vivem e com os que cá chegam. Defender uma imigração com regras, com contrato, com integração real, não é xenofobia. É decência.
É pensar com cabeça e coração ao mesmo tempo.