Parecemos irremediavelmente presos de raciocínio nos dias de hoje, nesta dicotomia fútil, nesta conversa de vão de escada, onde tudo se encaixa numa prateleirinha a bel-prazer e, geralmente, na proporcionalidade directa da falta de argumentos de cada um, onde se rotulam uns e outros para que a visão do continente caracterize, por si, só o presumível conteúdo, aliviando os interlocutores do fardo de ter que pensar, analisar, argumentar e, finalmente, concluir seriamente o que quer que seja. E não, isso não é bom.

O vírus tem uma mortalidade baixa e, sobretudo, limitada a populações de risco. Caricaturalmente, o negacionista vai clamar que é uma gripezinha, que em nada justifica medida alguma (como qualquer outra gripe…). O covidista vai dizer que, como adoecem e morrem muitas pessoas, devemo-nos todos converter a uma condição de bubble boys até que apareça a salvação final na forma de uma vacina, e que nenhum outro princípio de abordagem é aceitável e compatível com a condição humana, até porque, para além do que se conhece, ainda existem inúmeras possibilidades de desgraças futuras e potencialmente crónicas ligadas ao desconhecido SARS CoV 2, apenas limitadas pela imaginação de cada qual, com maior ou menor suporte científico (e de recuo necessariamente insuficiente nesta fase). Paradoxalmente, um pouco na linha das apologias anti-vax, por sua vez mais tradicionalmente associadas aos negacionistas.

O negacionista indigna-se com o uso sem sentido de máscaras na rua e onde a distância entre todos é assegurada, mas é capaz de descurar ao mesmo tempo o seu uso em aglomerados, a limitação dos seus contactos, a distanciação física, tal como a sua própria higiene das mãos e etiqueta respiratória. Inventa disparates, como acumulações de CO2 e outras putativas maleitas ao invés de se cingir ao absurdo de ter que usar um martelo para aparafusar coisas (ou seja, uma boa ferramenta, mas fora do seu contexto). O covidista, por seu lado, indigna-se com a indisciplina pouco solidária de alguns dos seus congéneres que considera os únicos culpados pela exponencialidade da curva (e até pela existência do vírus entre nós), mas é capaz de não ligar nenhuma à pobreza crescente dos que não se podem dar ao luxo de trabalhar em casa (ou fora dela), recebendo na mesma um salário ao final do mês, dos que vêem o dinheiro acabar na segunda quinzena, e que têm, por isso, cada vez mais dificuldade em pôr comida na boca dos seus filhos, em vesti-los e aquecê-los convenientemente no inverno, dos que vêem as suas perspectivas profissionais e de emprego esvaírem-se pela crise que se adivinha, ou em muitos casos até já se faz sentir, daqueles que padecem de perturbações psiquiátricas que se agudizam, dos que se vêem a braços com outras doenças que deixam no contexto actual de ser diagnosticadas e tratadas devidamente, dos que se vêem amputados da sua infância, no que respeita à educação com qualidade a que supostamente deveriam ter direito, ao desporto que lhes fazia bem à saúde e ao espírito (num fora de moda mens sana in corpore sano), e ao contacto social que o entretanto abolido direito universal a brincar deixou de permitir, com as consequências que parecem não preocupar ninguém, mormente aqueles que muitas vezes eram os mesmos que buscavam a letalidade escondida por detrás da caça ao pokémon ou de meia hora a mais à frente de um tablet.

Nas tais caricaturas simplistas, os negacionistas ignoram e descuram, confundindo liberdade individual com incúria e desprezo pelos outros, e os covidistas sobrevalorizam a doença em detrimento de tudo o resto, convertendo-se alegremente em bufos higienistas, partidários de comportamentos ditatoriais do seu próprio Estado de validade científica duvidosa, com inusitada fé nas boas intenções do mesmo.

Incluímos nos negacionistas, pessoas que vão desde os paranóicos conspiracionistas (George Soros, nova ordem mundial, chips transportados por vacinas e activados pela 5G…) com outras que apenas demonstram preocupações pelas doenças extra-Covid, procuram mais racionalidade nas medidas de contenção, alternativas ao suicídio económico e social e mantêm alguma fé na responsabilidade individual. Tal como incluímos nos covidistas, desde germofóbicos patológicos para quem a liberdade individual é um detalhe ou coisa de gente mimada, até outras, apenas preocupadas com a não adesão às medidas de contenção e suas consequências, ou cientes da fragilidade do nosso débil sistema de saúde.

Enfim, isto é, no final, de uma fabulosa conveniência para aqueles que, tendo a responsabilidade de gerir um país em tempos de pandemia, vêem assim desculpabilizada, pela própria autofagia da sua população, toda a sua inépcia no desiderato.

A política de Saúde Pública foi um desastre, falhando clamorosamente na implementação por parte dos cidadãos dos gestos básicos e simples de prevenção da transmissão, e que deveria ter sido o essencial da sua actuação? A culpa é dos incumpridores, dizem os covidistas, ignorando a salada russa das muitas vezes complicadíssimas normas (e do seu contrário) que foram sendo defendidas pela autoridades ao longo do tempo, descurando o essencial em nome do acessório, e que falharam redondamente em chegar eficazmente ao grosso da população com o essencial da mensagem (e medidas acompanhantes). As normas não servem para nada, vão por seu lado concluir os negacionistas, confundindo ineficiência (na sua implementação) com ineficácia.

O SNS, sucessivamente depauperado ao longo de décadas pelo respectivo ministério em meios materiais e humanos, ameaça não conseguir dar resposta na actualidade? A culpa é da Covid, dizem os covidistas, fazendo tábua rasa do que é uma já crónica realidade em qualquer circunstância de descompensação do sempre instável equilíbrio sanitário português, e do que deveria ter sido o mais básico princípio de precaução perante a emergência de uma putativa segunda vaga, ou seja: criar os planos de contingência necessários que absorvessem o impacto da previsível sobrecarga de procura. Os negacionistas vão, obviamente, dizer que isto não tem nada de excepcional, pois acontece todos os anos, e que por isso o desastre iminente não deve levar à imposição de nenhuma medida particular, ignorando a realidade da saturação das camas em UCI que se vão preenchendo e só muito lentamente vagando pelas características desta doença, e o significado que terá essa pequena percentagem de (muita!) população a precisar de UCI sem a ela conseguir ter acesso.

Ou seja, ambos têm as suas razões e seus pecados nos pacotinhos em que gostamos de os arrumar. Mas os pacotinhos na realidade não existem, são “pacotinhos de Babel”, e os únicos que têm algo a ganhar com este caos sanitário, económico e social, e com este clima de divisão dos cidadãos de consequências futuras imprevisíveis, cada qual com as suas meias razões extremadas e mais ou menos misturadas com erros básicos de raciocínio (e com dois rótulos, já que, para melhor dividir, não podiam ser muitos), são aqueles que estão, descaradamente, sobretudo preocupados com a divisão de uma esmola europeia e nada interessados em resolver o problema global da situação actual do país com um mínimo de brio e competência. A visível labuta para aniquilar todos os contrapoderes democráticos de controlo promete, para seu gáudio pessoal/institucional, alimentar a partidocracia jacobina nos anos vindouros e o sustento daqueles que se alimentam deste pseudo-mercado gerido centralmente. Como sempre, e aparentemente por mais uns valentes anos ainda, em prol dos rotativos desgovernos da nossa desgraça.

Claro que, nesta altura em que escrevo, pouco mais resta a fazer senão confinar mais ou menos totalmente, como até já é o caso em muitos países, e tentar salvar os dedos, perdidos que estão os anéis. Os tempos de promoção eficiente de medidas de controlo da transmissão, e de escolha de verdadeiras estratégias de Saúde Pública perante a Covid, está ultrapassado e ninguém se atreverá agora a acreditar cegamente em cinéticas de curva ao invés da já conhecida medida-mor de quebra dessa cadeia de transmissão (e que é “fechar o país”), nem se intimidará com todos os efeitos secundários da mesma, nem que seja pelas catastróficas consequências quase imediatas que qualquer erro de cálculo nesta adiantada fase do problema provocaria. O que explica este lento, progressivo, provavelmente inútil, populista e eleitoralista, enterrar do prego a cada dia que passa, com mais uma medidinha quotidiana a “fazer de conta” que estamos atentos e preocupados, rumo ao confinamento final.

Enfim, dito isto, neste momento não nos resta alternativa a uma desejável disciplina de remar para o mesmo lado, de termos os profissionais de saúde a fazer o melhor possível com os meios existentes, de preferência sem dramatizar ainda mais uma situação que já assusta quase todos e escusando-se de apontar dedos, contribuindo para polarizar ainda mais a sociedade, em conivência com a paralela desculpabilização dos verdadeiros responsáveis que resulta de tal atitude. Só nos resta agora fazer o melhor possível a cada momento pelos doentes no seu todo, em qualquer contexto (de abundância ou penúria de meios), pois eles já só dependem de nós e do que lhes pudermos oferecer. Honrando os princípios nobres das respectivas profissões, e não nos perdendo em considerações que não nos dizem respeito (enquanto profissionais), nem entrando em culpabilizações, nem contribuindo no aterrorizar da população que servimos, pois ela já padece suficientemente e vai continuar a padecer cada vez mais nos tempos vindouros. E isso, até a tal curva achatar e até os serviços de saúde regressarem a uma afluência comportável de doentes, tanto aqueles com a Covid como todos os outros que de nós precisam. Podemos estar cansados, mas isso não pode diminuir hoje e nos próximos tempos o nosso ímpeto, sob pena de sermos cobardemente, de novo, caluniados pelos verdadeiros responsáveis, na tentativa óbvia de nos fazerem portadores de culpas alheias.

Mas também importa sobretudo, em nome do futuro, em nome da verdade e em nome da decência, que não nos atrevamos enquanto cidadãos a esquecer mais tarde a incompetência que este triste fado de falência total do país significa, nem esmoreçamos na insistência de fazer pagar a factura a quem de direito, daqui a umas semanas, quando todos nós, mais cansados, mais pobres, mais desesperados, menos saudáveis e mais enlutados, sairmos do inferno desta segunda vaga. Porque, caros covidistas e negacionistas, a culpa não deve, nem pode, continuar a morrer solteira. E não façam confusão: ela não é vossa!