Em Ninguém Escreve ao Coronel, Gabriel García Márquez apresenta-nos um militar reformado que vive na expectativa de uma carta que nunca chega. O Coronel aguarda, mês após mês, pela prometida pensão do Estado, um reconhecimento que o país lhe deve, mas que teima em não se materializar. Vive suspenso numa promessa, alimentado por um ritual diário de dignidade, mesmo quando todos parecem já ter esquecido o seu nome.
Depois de notar, é difícil deixar de ver aqui um espelho literário do presente político português.
Também nós tivemos um militar que se tornou uma espécie de símbolo nacional. Durante a pandemia, o Almirante Gouveia e Melo assumiu o comando da operação de vacinação com uma assertividade rara, diria mesmo marmórea. Era o rosto da ordem num tempo de caos, o líder pragmático num país fragilizado, a figura pública que parecia capaz de inspirar confiança apenas pela postura. Sem que se percebesse muito como nem porquê, rapidamente chegamos a um momento em que todos acreditaram que, se avançasse para Belém, ganharia sem grande esforço.
Só que na política, tal como na literatura, nem sempre se confirmam as expectativas dos protagonistas.
As sondagens iniciais pareciam escritas pelo próprio Márquez. Em 2022, antes de qualquer ambição presidencial declarada, o Almirante já surgia com cerca de 32% nas tendências de voto. Em abril de 2025, uma sondagem da Católica para a RTP, Antena 1 e Público mostrava que Gouveia e Melo era o candidato com maior potencial de apoio: era aquele em que mais portugueses diziam que poderiam vir a votar (62%) e também o que menos eleitores excluíam à partida. Não se tratava, é certo, de intenção de voto direta. Mas era uma clara medida de abertura, o grau de disponibilidade do eleitorado para considerar o seu nome, e que, naquele momento, o colocava numa posição de destaque no espectro presidencial. Era o candidato transversal, o nome que confortava um país cansado de confrontos. E, tal como no romance, parecia apenas uma questão de tempo até a “carta” chegar.
Só que não chegou.
Nos últimos meses, as intenções de voto do Almirante caíram para cerca de 21%. De figura inevitável passou a um candidato entre vários, perdendo centralidade num palco que, por momentos, chegou a ser exclusivamente seu. A pergunta impõe-se: o que explica esta erosão tão rápida?
Há causas claras. A primeira é inevitável: o “efeito pandemia” evaporou-se. O Almirante foi o líder messiânico para uma crise concreta. Quando o país voltou à normalidade, o pedestal desapareceu, começaram as perguntas e lá se foi a mitologia construída à volta da sua figura.
Depois, há o salto delicado entre mundos: de herói técnico para político convencional. Na pandemia, a autoridade militar inspirava uma (pseudo)segurança. Já na política, essa altivez pode soar brusca, pouco diplomática e, para alguns, até pouco presidencial.
Há ainda uma questão de substância: o Almirante nunca apresentou uma narrativa política clara. Em que acredita? O que representa? Que visão tem para o país? O eleitor português, especialmente no contexto presidencial, procura mais do que currículo; procura direção, posicionamento, propósito.
A isto soma-se outro fator determinante: a ausência de uma máquina partidária sólida. A admiração pública não basta para transformar sondagens em votos reais. Sem estrutura, sem bases locais, sem militância, a queda é inevitável quando o terreno se torna competitivo. Para além disto, em Portugal ainda há muita gente anónima que espera que o (seu) Partido sinalize quem vai apoiar para fazer o mesmo. Entretiveram-se com o Almirante, mas agora vão seguir em frente (ou para a esquerda).
Pessoalmente, sempre olhei com alguma reserva para a súbita canonização do Almirante. Somos um país de extremos emocionais: idolatramos com rapidez e, com a mesma velocidade, passamos ao próximo protagonista. Nunca me convenceu totalmente a ideia de que Gouveia e Melo seria o “salvador” que muitos projetaram. E reconheço-me, aliás, em argumentos como os expostos no Observador, no artigo “Porque não voto no Almirante”, que sublinham fragilidades estruturais na sua candidatura e na forma como o país a idealizou. A figura era, em teoria, sedutora, mas a projeção, talvez, sempre tenha sido exagerada.
E finalmente há a concorrência. 2025 trouxe nomes mais nítidos, mais politicamente situados, mais treinados no terreno da negociação e do posicionamento público. Perante Marques Mendes, António José Seguro, Cotrim de Figueiredo ou até Ventura (cada um com o seu ecossistema próprio) o Almirante perdeu espaço.
No romance de Márquez, o coronel veste o seu melhor fato todos os dias, prepara-se para receber uma carta que o país já não pretende enviar e mantém a dignidade enquanto o mundo lhe foge. O drama não é o envelope vazio; é a perceção lenta de que o país deixou de pensar nele.
O mesmo parece acontecer com o nosso Almirante: o país que outrora o venerou parece agora seguir o seu caminho sem grande nostalgia. Não porque ele seja incompetente. Não porque não mereça respeito. Mas sobretudo porque a política exige mais do que competência técnica: exige presença, narrativa, visão, relações, alma. E o Almirante,
aclamado herói de uma crise irrepetível, nunca conseguiu demonstrar que poderia ter um papel igualmente forte num tempo de normalidade.
Talvez seja esse o destino silencioso desta história: não é que o país tenha deixado de escrever ao Almirante. É que, no fundo, nunca soube muito bem o que lhe queria dizer.