Um país que não resolve os seus problemas de forma estrutural vai estar sempre a revivê-los. É o que acontece em Portugal.

As discussões são sempre feitas pela rama e em todos os momentos aparecem os populistas, de esquerda e de direita, que pedem sempre a demissão de alguém, porque nunca têm soluções de fundo. O reformismo, começando pela reforma do Estado, é sempre mal visto, por quem nada quer mudar. Em Portugal está instalada uma indústria daqueles que vivem à custa das dificuldades dos outros.

Se os problemas forem resolvidos, aqueles cuja bandeira é a de pedir a demissão de uns e as grades da prisão para os outros já não teriam o que dizer e também não teriam nada para apresentar. Ironicamente, quem sente os problemas na pele quer ver alterações e, por isso, deixa-se encantar por quem grita mais alto e bate na mesa.

É isto que temos há décadas. Portugal tornou-se um país previsível com um calendário de horrores em que parece que conseguimos antecipar os temas que vão ser polémicos. Uma espécie de carrossel do conformismo. Vai uma aposta?

Analisando quais são as notícias que mais se repetem nos meios de comunicação social, temos uma listagem com os seguintes temas:  saúde, habitação, transportes, política, corrupção, incêndios florestais, educação, custo de vida, justiça e futebol.

Olhando para estes temas, excluindo a paixão nacional do futebol e os temas internacionais que têm impactado cada vez mais Portugal, pela volatilidade que vivemos, temos o calendário nacional dos horrores; o tal com os problemas que se repetem por não haver reformas estruturais.

Comecemos por dezembro / janeiro / fevereiro:

Com o virar do ano vivemos o impacto do aumento de preços, começando o ano sufocados pelo custo de vida, da inflação e da habitação, e problemas associados à crise na saúde, porque inevitavelmente estamos no pico do inverno.

março / abril

Por norma, meses do Carnaval e da Páscoa. Começando pela sátira carnavalesca, há sempre um relembrar dos múltiplos casos associados à corrupção que se arrastam pela justiça e a Páscoa traz a predileção dos problemas nos transportes, que não funcionam. Até as greves ganham características de sazonalidade ou num crescendo para permanentes.

maio / junho

Aproxima-se o fim do ano letivo e a época de exames para muitos estudantes e lá surge a Educação no calendário, ora pelas greves, ora pelas notas dos exames.

julho / agosto

Meses em que convém não adoecer. Ou porque há sempre urgências a encerrar, porque há sempre algures praias impróprias para banhos: porque há sempre uma entidade que faz uma descarga “por engano”. E nas urgências fechadas, sobressaem as de obstetrícia, pelo que a maternidade é um risco. E de todo o calendário dos horrores, estes são meses infernais. Os incêndios são, infelizmente, o terror que nos atormenta e que vem relembrar-nos o emaranhado em que o Estado se tornou. Pela falta de coordenação, pela falta de prevenção e também porque o interior do país está desertificado e esquecido.

setembro

Mês do início do ano letivo e os clássicos: alunos que podem não ter professor a uma disciplina, enquanto alguns destes profissionais continuam sem colocação. Esta é a época que deixa visível porque é que uma das profissões mais nobres é cada vez menos atrativa. O tema da Educação volta a ter destaque, assim como o custo de vida por causa das despesas escolares.

outubro e novembro

Inicia-se a apresentação do Orçamento de Estado, sendo esta altura um autêntico caldeirão de temas, em que a política mostra como pode ser instável, começando na irresponsabilidade orçamental e terminando nas ameaças à estabilidade governativa.

E assim se vão passando os anos. Numa previsibilidade de horrores e conformismo. Sempre que falamos em Reforma do Estado o sistema tem uma síncope. Pergunto-me se alguém ainda acredita que nos vamos ver livres deste calendário dos horrores se nada for feito de forma séria?