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No dia 6 de janeiro, apoiantes de Donald Trump invadiram o Capitólio, incitados pelas acusações falaciosas do seu presidente relativamente aos resultados eleitorais de 2020. Num ataque sem precedentes à democracia americana, interromperam a confirmação legítima de Joe Biden como próximo presidente dos Estados Unidos. Insurgiram-se por uma causa fictícia, uma traição que não o foi, uma ilusão. Por essa ilusão, muitos pagaram um preço real, a começar pelos cinco mortos até agora confirmados, múltiplos feridos e dezenas de presos. O país prepara-se agora para enfrentar protestos armados, planeados em todos os estados.

Do outro lado do Atlântico, e apenas dois dias após o assalto que abalou a sociedade americana, André Ventura escreveu no Twitter: “Vamos provocar o maior abalo do sistema em 46 anos de democracia”,  a propósito das eleições de dia 24 de janeiro em Portugal. O candidato disputa agora com a deputada Ana Gomes o segundo lugar a Presidente da República Portuguesa.

Há uma inevitável comparação entre André Ventura e Donald Trump. Já muito foi dito sobre as declarações xenófobas, racistas e anti-democráticas de ambos. Mas há algo fundamental, que, a meu ver, também têm em comum: na ausência de uma clara ideologia, a sua principal agenda são eles próprios.

Durante as eleições presidenciais de 2016, o então candidato Donald Trump proferiu que ele e só ele poderia resolver os problemas do país. Já para André Ventura, a missão de transformar Portugal foi-lhe diretamente incumbida por Deus. Na ausência de provas dadas, cada um destes homens se afirmou como o único preparado para resolver os problemas – reais e imaginários – das suas populações. À sua volta, geram seguidores fervorosos; no seu núcleo mais restrito, incompatibilidades, demissões e disputas de poder. A opositores, André Ventura “arrasa” e dá “coças” metafóricas. Aos seus militantes, proíbe de o insultarem bem como a outros dirigentes do partido nas redes sociais.

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Uma importante diferença entre a nossa democracia e a americana cresce na comparação. A deles tem mais de 200 anos. A nossa tem 46.

Dito isto, faço dois apelos aos que eventualmente lerem este artigo. Aos que se opõem a André Ventura e a tudo o que ele representa, que vão votar; que não deixem nas mãos de outros o nosso futuro coletivo. André Ventura não está a brincar e este é o momento de levá-lo a sério.

Aos que apoiam André Ventura, debato-me sobre o que dizer. Podia falar das suas afirmações cruéis relativamente aos mais vulneráveis e discriminados, tão diametralmente opostas à doutrina cristã, que só não vê quem não quer ver. Ou pôr a nu as contradições inerentes a quem se arma em forte para atacar os mais fracos. Ou, ainda, invocar a prova dos resultados do seu tipo de discurso plasmada nos livros de História. Mas temo que nenhum desses argumentos seja eficaz.

Peço então que reflitam uma vez mais no ataque ao Capitólio. Como veio a ser revelado nos dias que se seguiram, entre a multidão de apoiantes de Trump figuravam elementos mais sinistros, como membros dos Proud Boys, militantes da extrema-direita e supremacia branca, ex-militares e até um ex-condenado por tentativa de homicídio. Também se apurou que estes grupos estavam mais organizados e conscientes das suas ações do que inicialmente se supôs. No final, aqueles que, por manipulação ou ilusão, se sentiram heróis da democracia viram-se misturados com os que a querem destruir. Justa ou injustamente, serão julgados como farinha do mesmo saco. Quanto a Trump? Na quarta-feira  eram “especiais” e Trump amava-os. Já na quinta, Trump defendia que tinham cometido atos odiosos e que deviam ser punidos pela lei.