1 A crosta terrestre anda agitada em diversas partes do mundo — não apenas a oeste da Ilha do Faial. Neste caso evidenciamos os recente e trágicos fenómenos de 9 de Dezembro de 2019 ocorridos em White Island, na Nova Zelândia, um dos vulcões mais activos do planeta e área de grande procura geoturística (incorrectamente noticiada em jornais e tv’s como Ilha Branca).

Afora os 6 mortos confirmados, os 30 turistas internados (alguns em graves situações) e as dezenas de desaparecidos (que ou morreram ou sofreram graves ferimentos), a violenta erupção freática (reacção água/magma), do tipo “side blast” (impacto lateral) , excedeu a rotina eruptiva, no geral caracterizada por explosões subverticais cujos “comportamentos“ ou figurinos eram bem conhecidos quer dos guias das excursões quer do proprietário da pequena ilha (cerca de um quarto do Corvo). Seguiu -se uma explosão freática vertical que alcançou os 3.800 metros .

2 Quando a Professora Zilda França e eu lá fomos, numa missão científica, a ilha era estatal. Porém quando lá me desloquei uma segunda vez a ilha já era privada, ou seja, tinha sido vendida a um ricaço que a alterou para lucrativo negócio, muito maior do que a pobretana subida e espezinhamento oficialmente autorizado (!!) do precioso Piquinho da Ponta do Pico….

O novo proprietário já tinha construído um pontão de acostagem de embarcações dos grandes paquetes que se avizinhavam prudentemente da ilhota. A nossa embarcação era oficial pelo que acostou, não pagou soberanas taxas e colocou-se nas imediações, aguardando o regresso da equipa do Serviço Geológico de Auckland, capital da Ilha Norte da Nova Zelândia.

3 Observámos diversas pequenas erupções freáticas, recolheram-se amostras, os peritos locais mediram temperaturas e efectuaram diversos testes geofísicos (gravimetria, sismologia de detalhe, magnetismo, geoelectricidade, etc.) e recolhemo-nos a terra mais firme da Ilha Norte. Nos escritórios tomei contacto com toda a cuidadosa metodologia dos vulcanólogos neozelandeses e impressionou-me a estreita colaboração entre a universidade e os outros dois serviços estatais que seguiam White Island desde há muitos anos. Enfim, demostraram que, em vulcanologia, não devem existir exclusivos e que se deve alcançar a Verdade ao longo de trocas de opiniões e de aplicação de diversas técnicas .

4 Em 16 de Setembro p.p.. os especialistas alertaram para sinais de incremento da explosividade de White Island bem como dos respectivos perigos. O proprietário da ilhota privada e os seus guias não seguiram os alertas pois apenas se preocupavam com os lucros dos passageiros dos vizinhos grandes navios de turismo.

White Island: é bem visível a destruição do bordo da cratera, por impacto lateral, da chaminé central para o bordo direito.

No recente dia 9 de Dezembro cerca de 50 pessoas, entre os 13 e os 72 anos de idade, confiantes na segurança do passeio, desembarcaram no pontão-cais e meteram-se terra adentro. Pelas 14 h11 (tempo local ) desenlaçou-se o que os cientistas esperavam — uma tremenda erupção freática, resultante do contacto súbito de águas oceânicas com uma massa lávica (magmática) em ascensão. Foi um inferno — gente pelo ar, guias desorientados, cais quase destruído, embarcações tentando fugir, etc, etc. Conseguiu-se recolher 31 pessoas onde 27 exibiam queimaduras de 70% do corpo. Um segundo grupo desapareceu. A primeira ministra da Nova Zelândia considerou o desastre como uma emocionante tragédia .

5 Este nosso texto, porém, tem ainda outra finalidade, ou seja, sintetizar o desfecho além da procura de vivos e de mortos .

Assim, no dia seguinte ao desastre, a polícia neozelandesa decidiu apurar responsabilidades e as investigações serão em breve anunciadas.

Desse modo um determinado nº de entidades será responsabilizada , desde a proteção civil Nacional à proteção civil dos municípios (mayors) e de seus planos e ensaios de emergência.

Um grande sarilho mas também um alerta para os Açores, terra vulcânica e geotérmica como a Nova Zelândia onde os Planos de Emergência, salvo os de dois municípios de S. Miguel (Ponta Delgada e Vila Franca), constituem peças decorativas de algumas gavetas e onde a qualidade é medida pelo peso das páginas e dos mapas anexos!

Medite-se na forma como o faz o gestor da presente crise sísmica a oeste do Faial, deixando a população desinformada e sozinha. As geotermias de S.Miguel e da Terceira são outros segredos sem acesso a peritos que os desejem (apenas manusear) com o pretexto de que se trata de empresa privada… E o geólogo director-técnico reside em Lisboa! Oremos pelo futuro…