Em 25 de Setembro de 2024, o Centro de Estudos Sociais (CES), que se proclama «uma instituição científica dedicada à investigação e à formação avançada nas ciências sociais, nas artes e nas humanidades, através de uma abordagem inter e transdisciplinar» à qual o Ministério da Ciência atribuiu «o estatuto de Laboratório Associado em 2002, «reconhecendo o seu contributo para as políticas públicas, a formação avançada e a disseminação e partilha do conhecimento», anunciou a A Supensão de Colaboração com Instituções Israelitas. Está no seu direito. No entanto, não será despiciendo examinar os fundamentos que alega para tal acto.
Entende o CES que a «violação do direito internacional e dos direitos humanos do povo palestiniano» e a «crescente violência infligida à população palestiniana residente na Cisjordânia» justificam a suspensão «todas as formas de cooperação académica com universidades e instituições israelitas». Uma vez que dissemina e partilha conhecimento, mas, pelos vistos, não o cria, conviria que um tal Laboratório Associado indicasse de onde lhe vem esse conhecimento da «violação dos direitos humanos» e da «crescente violência», que dissemina e partilha. Cientificamente não é de somenos: a comunidade científica necessita de dados para poder «validar», é o jargão actual, a cientificidade do conhecimento. Escrupuliza-se excessivamente? Não, uma instituição científica não pode disseminar e partilhar conhecimento cuja alegada cientificidade não está provada, tem de aplicar a si e à sua acção os critérios de cientificidade em geral. A referência deliberadamente vaga a «especialistas» é apenas tapar o Sol com uma peneira – e com muita esperteza saloia.
O ponto mais importante, porém, não é esse, mas está-lhe indissoluvelmente ligado. Porquê esse conhecimento e não outro? Para não ser dirigida específica e selectivamente contra Israel, que, além dos actos já referidos, leva a cabo, assim o entende o CES, um «escolasticídio», ou seja, esforços «de destruição do sistema educativo palestiniano», seria necessária uma política geral – entenda-se, não discriminatória – de suspensão de todas as formas de cooperação académica com universidades e instituições com países culpados dos mesmos crimes. Também para isso se requer conhecimento. Também aqui seria preciso provar esses crimes. Não se provaram? Muito bem, que se exibam provas dos esforços que foram envidados para obter uma tal prova. Onde estão os «especialista»? O que fizeram? Onde estão as «principais organizações internacionais»? O que fizeram? Se, no mundo inteiro, não se verificarem crimes equiparáveis, a acção contra Israel é apenas a acção contra o único Estado culpado de tais crimes e, assim sendo, e só nessa condição, não é discriminatória. Por outras palavras, a suspensão de todas as formas de cooperação académica com universidades e instituições tem de ser um ponto de partida do CES, o princípio pelo qual se guia em toda a cooperação académica, e a suspensão o ponto de chegado, é precisamente isso que não acontece. Não lhe chega mais nenhum conhecimento para ser disseminado e partilhado? Dir-se-ia que a ecologia dos saberes (seja lá o que isso quer dizer) não foi devidamente estimulada. Má-fé? Não.
Ao usar o termo «suspensão», o CES dá entender sonsamente que existiam formas de cooperação académica com universidades e instituições israelitas. Ora, os mapas apresentados em O CES em Números não indicam nenhuma instituição israelita nos Research Projects Institutional Partners nem nenhum israelita nos Doctoral Programmes Institutional Students. O Irão, contudo, figura nas duas infografias; tratar-se-á de um país em que não se verifica nenhum «escolasticídio»? Pergunte-se às raparigas. Quanto a este país, e uma vez mais: onde estão os «especialistas»? O que fizeram? Onde estão as «principais organizações internacionais»? O que fizeram? Poder-se-ia pensar que a ausência de Israel naqueles mapas se ficaria a dever à actualização dos dados na sequência da anunciada suspensão. Não é o caso uma vez que não há nenhuma forma de cooperação académica com universidades e instituições israelitas constante dos Relatórios de Atividades desde 2007, disponibilizados em linha (há apenas menção de um doutorando no relatório de 2012, o que, aliás, não tem relevo, dado que a suspensão decretada pelo CES «se aplica a instituições e não a indivíduos»). Para todos os efeitos e salvo melhor opinião, o CES anuncia uma suspensão daquilo que não existe. Dir-se-ia que comete dois pecados científicos, qual deles o mais grave: de caso pensado, falta à verdade e transfigura essa mentira para efeitos não científicos, desmentido desse modo o título de que tanto se orgulha: ser uma instituição científica. Há quem lance perfume, o Centro de Estudos Sociais lança veneno.