Apesar da sua provecta idade, o Cónego Jeremias acompanhou com interesse a primeira volta da eleição do próximo presidente da República.
– Então, Senhor Cónego, que me diz das eleições presidenciais?
– Não esperava estes resultados, embora, pensando bem, talvez não sejam assim tão surpreendentes. Os romanos costumam dizer que quem entra Papa no conclave dele sai cardeal, porque nem sempre se cumprem os prognósticos mais óbvios.
– A que candidato se refere?
– Ao Almirante, que deve ter sido o primeiro a anunciar a candidatura à presidência e que, nas primeiras sondagens, parecia ter garantida a eleição.
– Como explica, então, que tenha ficado tão aquém do resultado esperado?
– Temo que tenha sobrevalorizado a sua carreira militar, bem como a sua intervenção no caso das vacinas, que lhe deu bastante notoriedade. Pelos vistos, esses seus trunfos não foram suficientes.
– Faltava-lhe preparação política?
– Decerto, pois tão depressa se dizia suprapartidário, como depois piscava o olho aos eleitorados socialista, elogiando a presidência de Mário Soares, e social democrata, citando Sá Carneiro.
– Mas não podia apelar ao voto dos militantes desses partidos?
– Claro que podia, mas não devia, pois ambos já tinham os seus candidatos e quem se diz apartidário não vai pescar votos aos partidos. Como diz o ditado, quem tudo quer, tudo perde!
– Mas não seria uma vantagem para o país um Chefe de Estado não partidário?
– A ideia de que os militares pairam acima dos partidos revela uma certa ingenuidade e algum paternalismo. Um membro das forças armadas, pelo facto de não ser militante de nenhum partido político, não tem por que ser, forçosamente, isento e imparcial.
– Não tem?!
– Claro que não! O último Presidente da República do Estado Novo, por ironia do destino, também era almirante e não deixou saudades! E o PREC, de triste memória, foi a prova provada da falta de isenção de alguns militares: o supostamente apartidário Movimento das Forças Armas (MFA) foi, na realidade, a longa manus do Partido Comunista Português (PCP), que, por seu intermédio, tentou desvirtuar o regime democrático implantado no 25 de Abril, transformando-o num regime autoritário, ou seja, não democrático. Foi para combater essa deriva totalitária do PCP, por via do MFA, que se fez o 25 de Novembro, que restaurou o originário espírito do 25 de Abril.
– Mas não pode negar que o General Eanes foi um bom Presidente da República, precisamente por pôr termo à tutela militar.
– Sem dúvida, contribuiu de forma decisiva para afastar os militares da política, nomeadamente através da extinção do Conselho da Revolução, que não era uma estrutura democrática, e da revisão da Constituição socialista de 1976, que fora redigida em pleno PREC e não reflectia o parecer da maioria dos portugueses.
– E como explica a tão escassa votação no candidato da maioria parlamentar?
– Nas presidenciais, como nas autárquicas, não é possível fazer uma equiparação matemática entre os candidatos e os partidos que os apoiam. O candidato socialista não se identifica com todo o seu partido, pois até um anterior presidente da Assembleia da República, também socialista, chegou a dizer que não cumpria os requisitos mínimos indispensáveis para ser candidato presidencial! O candidato da maioria parlamentar também não representava, como se viu, o eleitorado da AD.
– Este último candidato protagonizou uma infeliz aparição em Fátima …
– Oh, homem, quando me falou de aparição em Fátima até pensei que se estava a referir a Nossa Senhora! Honisoitqui mal y pense! Foi muito infeliz a sua ida a Fátima, porque não quis ir ao santuário, com o pretexto de que Portugal é um país laico!
– Infeliz porquê?
– Primeiro porque Portugal não é um país laico, afirmação que os jornalistas muito gostam de repetir, mas que não tem qualquer fundamento constitucional, como esse candidato deveria saber. Por outro lado, os católicos sentiram-se ofendidos, por ter ido a Fátima e ter feito questão de não ir ao santuário! É como ir a Roma e não ver o Papa, ou ir ao Palácio de Belém e recusar-se a cumprimentar o Presidente da República: uma falta de respeito! Podia não ter ido lá, mas ir, e evitar ostensivamente o santuário, foi uma ofensa aos muitos milhares de católicos portugueses.
– Já antes tinha também dito umas larachas sobre a palavra ‘genuflexório’ …
– Pois foi! Disse que não conhecia essa palavra – o que indicia falta de formação católica e de cultura geral – talvez para se dar ares de muito laico ou, talvez, para piscar o olho ao eleitorado anticatólico … que, pelos vistos, também não lhe achou graça.
– Que lhe pareceram os discursos dos dois candidatos vencedores?
– Foram já o primeiro acto da campanha para a próxima votação, que é a decisiva. Por isso, cada um deles elogiou a sua candidatura e diabolizou a do adversário que, obviamente, já mobilizou as suas hostes. Portanto, o vencedor nunca será o presidente de todos os portugueses: procedendo de um partido ou coligação, só representará o seu eleitorado. Mesmo que um dos dois consiga mais de metade dos votos, será sempre um presidente partidário, ou seja, apenas de uma parte dos portugueses, para os quais será padrinho, enquanto que, para os outros, se calhar, será padrasto …