“Abençoei, aconselhei, ajudei, confessei muitas pessoas que se sentiram confiantes por me verem de batina.”
O Cónego Jeremias estava entusiasmado com o conhecimento que tinha estabelecido nas redes sociais, com um sacerdote brasileiro, o Padre Álvaro, que tinha saído do armário! Alarmado com este facto, aparentemente escandaloso, pedi ao Senhor Cónego que me mostrasse o texto integral dessa sua conversa*.
– É verdade, Padre Álvaro, que decidiu ‘sair do armário’?!
– “Sim, ou seja, tirei a minha batina do armário! Desde Janeiro, comecei a usá-la diariamente, desde que me levanto até que me deito. Assim, de forma simples, sem anúncios solenes, sem rodeios, nem explicações prévias. Sem buscar elogios por isso, e sem medo de troças, insultos ou olhares estranhos.”
– Qual foi o impacto desta sua decisão? Teve muitas surpresas?!
– “Nunca pensei que usar a batina diariamente me faria tão feliz como padre. Possibilitou que eu fizesse, na rua, tanto bem que eu não podia imaginar. Abençoei, aconselhei, ajudei e confessei muitas pessoas que se sentiram confiantes por me verem de batina. Para minha surpresa, mesmo andando em lugares muito diversos – como ‘shopping centers’, cinemas, restaurantes, festas, ‘piñatas’, feiras, zonas mal frequentadas do centro, feira do livro, etc. –, e tendo encontrado gentes de todas as tribos urbanas possíveis e imagináveis, não recebi, em 5 meses, nenhum insulto, nem falta de respeito de ninguém — nem mesmo de pessoas abertamente anticatólicas! O único comentário desagradável que ouvi, por usar batina, veio de um padre, o que é triste.”
– Não me estranha: a troça é o elogio que o vício presta à virtude. Quem não tem a coragem de imitar o bem critica-o, para se justificar. E as pessoas que o viam de batina reconheceram-no como padre diocesano?
– “Infelizmente, é tão invulgar um padre diocesano usar batina preta que, geralmente, sou confundido com algum religioso. Nestes meses, fui tido por franciscano, agostiniano, monge, missionário, seminarista, cavaleiro Jedi (a sério!), praticante de karatê, gótico, manequim (também não é brincadeira). E muitas vezes até me confundiram com um padre — o que é bom. Isso faz-me pensar que os padres diocesanos nos secularizámos tanto que já não estamos associados ao uso da batina no dia a dia!”
– Decerto, mas em Lisboa e outras dioceses, o clero mais jovem veste-se como sacerdote e, por vezes, também usa batina. Como reagem os anticatólicos?!
– “Para uma sociedade [supostamente] ‘antirreligiosa’, é impressionante o número de pessoas que me pedem a bênção! Quando uma pessoa a pede espontaneamente, as que estão perto, geralmente, também a pedem.”
– Acha, então, que é positiva a experiência de usar habitualmente a batina?
– “Estou muito feliz por ter tomado essa decisão. Quando o fiz, pensei em fazê-lo apenas um ano; mas agora posso dizer que o vou fazer de forma permanente. Ajuda-me, faz-me feliz, ajuda as pessoas a encontrarem mais facilmente um padre e a graça [de Deus]. Lembra aos afastados que Deus ainda caminha pelo mundo. Lembra-me constantemente que, onde quer que eu vá, represento Jesus e a Sua esposa, a Igreja.”
– Por isso é que os regimes anticlericais – como a nossa primeira república e os países comunistas – proibiram o uso público da batina! Mas não teme que o seu uso possa ser uma manifestação de vaidade e de hipocrisia?! Jesus disse que os fariseus é que “trazem mais largas filatérias, e mais compridas as franjas dos vestidos” (Mt 23, 5) …
– “Não ignoro que o mal se disfarça de ‘anjo de luz’. Mas nem nas pessoas mais estranhas da feira do livro, ou do evento ‘missão dragão’, eu vi nos olhos o ódio e desprezo que vejo em algumas Testemunhas de Jeová, ou certos ‘cristãos’, ao verem um padre! Pelo contrário, muitos [não cristãos] me abordaram com questões interessantes. Até os que andam na má vida se aproximaram com respeito, para pedirem a bênção!”
– É só uma questão de indumentária, ou há razões espirituais para esta opção? Embora o Papa ande sempre de batina, o seu uso não o faz passar por tradicionalista?
– “O uso habitual da batina lembra-me que quero ser santo. Imagina São João Bosco, Santo Inácio de Loyola, São Francisco Javier, São Filipe de Néri, São Tomás de Aquino, São Francisco de Assis, sem a sua batina, ou hábito? Não! Eu quero ser santo? Sim. Então, é bom usar a batina!”
– Se os padres não vestem como Jesus há dois mil anos, porque usar esse traje anacrónico?! Não seria preferível uma veste mais simples e discreta do que a batina?
– “Usá-la confirmou-me uma verdade esquecida: a batina é um sacramental, ou seja, suscita a graça e prepara as pessoas para recebê-la. Mas não [o cabeção, ou] camisa clerical (clergyman).”
– Considera-se superior aos outros padres, por usar batina?
– “Eu não sou especial por usar diariamente a batina. Não é o seu uso habitual que me faz, automaticamente, um bom padre, nem melhor, ou mais santo, do que os outros padres. Mas ajuda-me imensamente e é um convite para que também outros padres sejam corajosos, tirem a batina do armário e a usem mais vezes: verão o bem que fazem a si mesmos e às almas. Não se vão arrepender!”
* Cf. Cibele Battistini, Eu, padre, saí do armário, 23-10-2025, publicado na Aleteia e em outros muitos ‘sites’.
Este texto, escrito no Brasil, foi adaptado e completado com termos explicativos, entre parênteses rectos.
A Conferência Episcopal Portuguesa determinou, de acordo com o cânone 284, que os padres devem usar um trajo que “deve identificá-los sempre como sacerdotes”, quer pelo uso “da batina”, “ou do fato preto ou de cor discreta com cabeção”.