Muito se tem escrito e falado sobre as falhas no SNS causadas por 7 anos de cativações dos governos de António Costa, as quais causaram múltiplas disfunções no SNS degradando a assistência aos doentes, sobretudo nas situações de urgência.

Para colmatar estas disfunções assistenciais, este governo tem recorrido cada vez mais a empresas que contratam médicos tarefeiros, o que é apenas um penso rápido para a assistência sobretudo nas urgências, constitui uma solução precária e péssima do ponto de vista económico (seria mais económica a contratação direta dos profissionais), mas é sobretudo uma opção nefasta para a formação dos novos médicos.  Este é o foco deste artigo.

Exigências da prática clínica

Para tratar doentes é preciso fazer um diagnóstico e em seguida escolher em função da patologia diagnosticada e das outras condições do doente a melhor opção terapêutica. O diagnóstico implica sempre uma investigação, a qual começa numa recolha objetiva dos sintomas através da entrevista, dos sinais pela observação do doente e análise de exames complementares, a que se segue o complexo raciocínio clínico para selecionar a hipótese diagnóstica mais adequada, e por fim a escolha da melhor terapêutica para o doente.

Todos estes processos são bastante complexos, sujeitos a erros e requerem, além dos conhecimentos, o treino dum espírito crítico que permita objetividade na recolha dos dados e a sua interpretação sem vieses, sob pena de errar o diagnóstico e o tratamento. Já Hipócrates (460 a.C. a 377 aC.) salientava que “a arte é longa, a ocasião fugidia, a experiência enganadora e a decisão difícil”.

É por a prática médica exigir treino nesta análise crítica de múltiplos fatores que a formação dos médicos tem de ser um processo longo, exigente e delicado, que o governo encara de forma muito leviana, como se o problema se resolvesse aumentando o número de alunos nas faculdades de Medicina, como já tem sido sugerido, e até se fez nalguns aviários académicos onde se tiraram licenciaturas com exames por fax e aos Domingos. Não basta aumentar as carteiras e o número de alunos por aula.

Exigências do ensino pré-graduado

A formação médica exige treino da entrevista e observação dos doentes, com a orientação e tutela de médicos mais experientes, debate das hipóteses diagnósticas e das propostas terapêuticas, atividades que exigem uma boa relação docente/discente, a qual é incompatível com o aumento de alunos nas faculdades de Medicina que já estão a abarrotar de alunos. Além deste aspeto pedagógico, vejamos agora o lado dos doentes. Será que os membros do governo gostariam de ver os seus familiares observados por uma turba de alunos a fazer palpação abdominal ou exames ginecológicos? A relação médico/doente pede recato e privacidade, e por alguma razão certas profissões, e a médica em particular, obrigam ao sigilo profissional.

Portanto, para a formação dos novos médicos é necessário não só uma boa relação docente/discente, mas também é fundamental que os alunos sejam orientados e avaliados pelos seus tutores ao longo do ano letivo. Se no lugar do docente que acompanhou e conhece o aluno para o avaliar, tivermos hoje um tarefeiro, amanhã outro, a aprendizagem e avaliação ficam gravemente comprometidas pela descontinuidade das equipas que impedem a formação programada. Acresce que a excessiva pressão assistencial retira tempo e motivação ao tarefeiro contratado, o que é agravado pelo cansaço de excessivas horas extraordinárias.

Exigências do aprendizagem pós-graduada

Não é só o ensino pré-graduado que está em causa. A formação médica é um processo contínuo ao longo de toda a vida do médico. Essa aprendizagem faz-se pela observação da evolução dos doentes e da sua resposta terapêutica.

Só esta visão do filme da doença permite a correção de eventuais erros!

Quando os médicos trabalham em regime de tarefa, ficam privados do filme da evolução da doença, limitam-se a ver fotografias, e perdem por isso a visão da resposta terapêutica que confirma ou infirma o diagnóstico e a terapêutica.

A progressiva substituição no SNS da prática médica integrada em carreiras por regimes de trabalho em tarefa, compromete nos próprios tarefeiros a saudável aprendizagem pela experiência clínica. Acresce que a já referida escassez de profissionais no quadro do SNS, aumentando a pressão assistencial sobre os mesmos, conduz a uma limitação de atividades reflexivas sobre os casos clínicos, em especial sobre as falhas, e isso impede a correção dos erros e o progresso.

A solução está no preenchimento das vagas do quadro, oferecendo carreiras atrativas e boas condições de trabalho.

Como dizia Karl Popper, a Ciência progride pela correção do erro, uma frase que também se devia aplicar na Política.