O fenómeno não é recente. Todos vemos passar as motinhas da Uber Eats ou da Glovo, para nomear apenas duas empresas. Há outras, várias. Um ex-aluno meu, há uns anos atrás e talvez antes do tempo, lançou uma destas empresas: a NoMenu. Foi pioneira. Trabalha com uma rede de restaurantes relevante. Tem uma cobertura aceitável, para não dizer boa. Perde, talvez, em notoriedade face a outras empresas (plataformas) mais recentes. Mas não perde em rede e em capacidade de entrega. E não deixa de ser uma opção interessantíssima a considerar.

No final, porém, não haverá espaço para muitas destas empresas a curto-médio prazo e ganhará (ganharão?) quem tiver capacidade de angariar e reter uma rede de fornecedores (restaurantes), quem conseguir fidelizar clientes e, para isso e acima de tudo, quem souber fazer bem a última milha. A milha de entrega em casa. Onde conta o tempo mas, também, o valor cobrado e a qualidade do serviço.

No fundo, no fundo, trata-se de um negócio de cadeia de abastecimento. Alguns dirão um negócio logístico.

Vamos por partes.

As ofertas começam a ser cada vez mais diversificadas. Plataformas informacionais não faltam. Haja telemóvel e/ou PC e temos o caso resolvido pelo lado do cliente. Aparentemente resolvido. Os engulhos ficam sempre para depois.

Há, portanto, alternativas e aplicativos vários on-line. E, concomitantemente, empresas que têm plataformas para todos os gostos e feitios. E fazer a plataforma não é complexo. Dir-se-ia, é o mais simples de tudo. E é por onde “nasce a ideia”. Raramente se pensa: vou fazer uma empresa de entregas. Frequentemente se pensa: vou fazer um site de entregas. Não é semântica. É a realidade. O site, porém, não faz as entregas. E fica sempre a faltar o lado real, físico, o da última milha. Mas vamos admitir que se quer mesmo fazer um negócio também de entregas.

Para montar a operação física é preciso pensar em “recrutar” colaboradores a custos variáveis. Uma arte.

Gerir estes colaboradores é mais que uma arte, até porque trabalham à peça e são free-lancers. Ganham ao prato entregue, ganham ao número de pratos entregues. É o negócio da motinha e da “bandeirada”.

Portanto, geri-los diretamente é complexo pelo que vamos querer que sejam eles a gerir-se a si mesmos. São uma espécie de empresários individuais: eu, a moto, a vontade (existe?), a empresa. Eu sou a empresa. É uma espécie de Eu, S.A..

Quem garante que esta malta entrega e não se perde? Ou que não se distrai pelo caminho? Ou que não se estampa porque boa parte deles nunca tinha pegado numa moto? Quem garante que sabem as moradas onde vão entregar? Bom, com um GPS há muitos equívocos que se podem evitar. No entanto, a maioria destas motinhas não tem GPS, nem tão pouco usa Google maps. Quem tem dinheiro para despender em dados quando a “bandeirada” é baixa? O negócio do free-lancer, do Eu, S.A., é difícil. Muito difícil. Os entrantes são muitos. Os desistentes muitos também. A rotatividade elevadíssima.

Condições? Dezoito anos, carta de condução, ter uma moto (muitas vezes uma amostra de moto), a moto tem de ter seguro e certificado de matrícula, o proponente tem de abrir atividade com um determinado CAE. Depois, tem de escolher alguns dos horários disponíveis. Dizem que isto aumenta os rendimentos. À noite ou ao fim de semana e tudo não passará de uma escolha de horários. Também pode ser durante o dia pois há algumas motinhas que não acumulam este com outros trabalhos. É o único que têm. Há muito estrangeiro nisto. Em particular brasileiros, por causa da língua.

Mas se a proposta pode ser aliciante (interessante?) para um individual pode não o ser menos para uma motinha que, afinal, são duas motinhas. Três motinhas. Quatro. Umas quantas. Para quem arranje um parque de motos, que abra uma empresa de “gestão” de motos, que contrate uns verdadeiros free-lancers e que viva de uma parte da margem.

Ou seja, se eu tiver uma empresa, arranjo umas motos, arranjo uns quantos aficionados por motos e entregas (talvez mais ingénuos – ou necessitados de ganhar a vida – que outra coisa) e pago-lhes parte da margem da entrega. Uma pequena parte. E faço um negócio de motos porque para ser um negócio logístico a coisa é bem mais complexa.

Estamos claramente a revisitar o modelo da Uber nos táxis. Para o cliente é interessantíssimo. Para o motorista tenho dúvidas. Pode ser interessante para quem tenha um parque de automóveis. No início havia muito individual nisto, com carros próprios. Agora pululam as empresas que alugam veículos e apenas arranjam condutores. Dividem a margem, soi-disant. Os carros envelheceram. A operação acomodou. Espera-se mais tempo. Os condutores guiam mal. Não conhecem as ruas. E a dificuldade em termos a operação dos primeiros tempos é cada vez maior. Há quem já tenha saudades da Uber inicial (em Lisboa, certamente; eu sou um deles).

Mas há problemas? É possível mudar de fornecedor. Instala-se mais uma aplicação e se não se tem uma Uber tem-se uma Cabify. Ou uma My Taxi. E há mais opções. Escusado será dizer que a concorrência se faz por preço e que o serviço, a médio prazo, tem tendência a degradar. Sobreviverá (sobreviverão?) o que conseguir ser mais atrativo em pagamentos aos seus agentes no terreno (motoristas) e aquele que tiver maior awarness. A Uber continua claramente em altas.

Do lado dos veículos e motoristas aquele que conseguir maiores economias de escala será melhor remunerado. Mais veículos e mais motoristas. Sendo que a plataforma não entra no negócio do terreno. Dos carros. Dos motoristas. Essa é a beleza do negócio da plataforma. É apenas uma plataforma e uma forma de cobrança.

Voltando às entregas de restauração em casa o fenómeno é mais ou menos similar. Troca-se um cliente por um prato. Troca-se uma morada ao nível do solo por uma subida num elevador de um prédio. Troca-se um automóvel por uma moto. A dificuldade de entrada no negócio das entregas (entrantes) é menor e, no final, o serviço, o número de serviços, paga.

O prato chegou frio, a motinha atrasou, a motinha perdeu-se. Onde andará ela? A aplicação diz que aqui, ou ali, mas ela eclipsou-se. Desço à rua para ver se a encontro. Vejo dois motinhas ao pé de minha casa. Qual deles será? As duas com sacos da empresa que detém a plataforma que usei. Encaminho-me para uma que diz que trás sushi. Digo-lhe que não, não é para mim. Vou a caminho da outra. Anda perdida? Não tem por aí um hambúrguer para o número dois, sexto andar? O rapaz verifica o papel. Nem sabe muito bem o que trás porquanto está arrasado. Já entregou tanta coisa que, encharcado pela chuva, me responde que sim. E assim se faz mais uma entrega. Volto também encharcado para casa e pergunto-me se não deveria ter levado um guarda-chuva. Tenho pena do rapaz das entregas e do seu ar desesperado. Não sabia, sequer, que a minha rua existia. E lá lhe expliquei que é das mais antigas do bairro. Mas a minha explicação apenas me fez apanhar mais chuva. Enfim.

All in all, pergunto-me se o serviço valeu a pena. Valeu? O hamburger vem frio. O tempo foi infindável. O rapaz perdeu-se… jantei, é verdade, mas também ajudei a “co-criar” a minha própria morada com o rapaz da motinha. Uma experiência. Interessante? Nem por isso. Muda-se a aplicação. Para a próxima venha de outro lado, por outra empresa. Ou não… porque tive pena do rapaz. Verdadeiramente. Embora saiba que a probabilidade de o encontrar de novo é baixíssima. Amanhã andará a fazer outra coisa e deixou-se disto.

Bom, bom, mesmo, é se precisar de um elefante em casa. Mais difícil de transportar. Porém, alguém o trará. Não sei se cabe em casa. Talvez se o espalmar. A verdade – nua e crua –  é que dá jeito encomendar a partir de casa.

Alguém me dizia, no outro dia, que há casas à venda já sem cozinha. Torci o nariz. Mas é verdade. Para quê uma cozinha se se pode ter a restauração toda em casa com uma aplicação? Ainda que depois possam vir os engulhos. A fase da entrega.

Mas…talvez seja necessário ainda ter uma sala se se prescindir da cozinha. Não para ter um elefante. Mas pelo menos para me sentar ao fim do dia. Quiçá a pensar num negócio de última milha. De entregas. A parte mais complexa: “When the virtual hits the tarmac”. Foi o título de um artigo que escrevi pelos anos 2000. Há dezoito anos atrás. E continua atual. Super atual. O difícil não é encomendar ou pagar. O difícil é mesmo entregar. E como é difícil. Cadeia de abastecimento. Logística. City logistics. E sem elas as plataformas não vivem.

O nosso estômago trabalha como um relógio e não se alimenta de bits e bytes. Por enquanto. E o elefante? Sim, também quero uma entrega em casa. Complexo? Muito. Vamos esperar pelos próximos tempos. Mesmo próximos. Porque vai haver muitas novidades em muitas frentes.

Professor Catedrático; Diretor Académico, Formação de Executivos, NOVA SBE – Nova School of Business and Economics