Um dia alguém me disse: “És muito impaciente, tens de saber esperar.”
Demorei décadas a perceber o alcance dessa frase. Hoje, aos 55 anos, sei que a paciência só é virtude quando as necessidades básicas estão garantidas: uma casa, uma cama, comida no frigorífico e acesso a cuidados de saúde. Sem isso, pedir paciência a alguém é quase uma crueldade e uma insanidade.
Escrevo para quem tem mais de 20 anos e está a entrar na fase em que as escolhas começam a pesar. Se pudesse voltar atrás, teria começado a minha luta mais cedo. Casei aos 35, e voltaria a fazê‑lo na mesma altura, mas antes tratei do essencial: a minha profissão e uma pequena poupança que me deu aquilo que considero o bem mais precioso: a liberdade.
Também voltaria atrás para não comprar tantos objectos. A maior parte daquilo que acumulei revelou‑se tralha. Não acrescenta valor, ocupa espaço e distrai do que importa.
Durante dez anos trabalhei doze horas por dia, entre estudo e trabalho. Não me arrependo. Evitei companhias inúteis que me desviariam do foco. Nunca permiti que me tratassem mal; saí sempre que isso acontecia. E pude sair porque tinha construído a minha autonomia.
É por isso que escrevo agora. Não para dar lições, mas para deixar conselhos que só aprendi depois de errar.
Respeita o teu corpo: não bebas, não fumes, não comas demais. O descanso é uma forma de inteligência, o sono prolonga a vida mais do que qualquer suplemento. Aprende a dizer não a tudo o que te afasta do teu caminho. Não alimentes coscuvilhices, são o combustível da toxicidade.
Lembra‑te de que a vida é uma passagem. Não acumules objectos nem pessoas que te pesam. Aos 20 não és igual aos 30, nem aos 40. Observa essa mudança e ajusta‑te a ela. Não emprestes dinheiro: arriscas perder o dinheiro e o amigo. Não fales das tuas posses nem dos teus desejos, fala dos caminhos que estás a construir.
Sê corajoso e coerente. São as únicas armas que ninguém te pode tirar. Se errares, reconhece, ninguém te condena por isso. Só não repitas demasiadas vezes o mesmo erro.
E lembra‑te sempre: o teu travesseiro é o teu melhor conselheiro. É nele que a verdade se revela, quando o ruído do mundo finalmente se cala.
Ouve os mais velhos, mas reflete onde estão e o que construíram, aprende com eles, para o bem e para o mal.
No fim, tudo se resume a isto: construir liberdade cedo, escolher com lucidez e não desperdiçar energia no que não importa. A vida passa depressa demais para carregarmos tralha, material ou humana. Quem começar a cuidar do caminho agora, chegará mais longe e com muito menos peso.