No processo de laicização do Estado há uma contradição flagrante que poucos ousam nomear: o povo não é laico. Nunca foi. Por mais que as elites iluminadas o desejem, por mais que o aparelho de Estado legisle, normalize e imponha uma cultura asséptica e secularizada, a verdade é que, nas aldeias, nos bairros, nas famílias, no dia a dia, Deus ainda entra em casa sem pedir licença. E isso incomoda. Porque revela o fracasso de uma engenharia social que quer forjar um cidadão novo ; desprovido de fé, de tradição, de transcendência. Um cidadão funcional, obediente, ideologicamente neutro. Um autómato.

A laicização do Estado, vendida como neutralidade, é hoje uma cruzada contra a cultura do próprio povo. É um projeto imposto de cima para baixo, sem mandato popular, e com um profundo desprezo pelas raízes espirituais da sociedade. O que começou como um equilíbrio entre poderes tornou-se uma guerra cultural: eliminar símbolos religiosos dos espaços públicos, silenciar vozes crentes na praça mediática, excluir a fé das escolas e das políticas. Mas o povo continua a batizar os filhos, a rezar aos santos, a fazer promessas e procissões. Isso é intolerável para uma elite que vê tudo isto como superstição medieval.

A verdade incómoda é esta: a religião continua a ser a principal referência moral de milhões. E não porque sejam manipulados ou ignorantes, mas porque intuem , com sabedoria prática , que o ser humano precisa de mais do que direitos. Precisa de sentido. Precisa de pertença. Precisa de algo maior do que si mesmo. A fé responde a esse apelo. E o Estado laico, em vez de reconhecer essa realidade, tenta abafá-la. Não tolera concorrência no domínio da Consciência.

Ao eliminar a religião do espaço público, o Estado não se torna neutro , torna-se hostil. E nesse processo arranca, como erva daninha, também os valores que sustentavam a coesão social. O respeito pelos outros, o valor da vida, o dever antes do direito, o sacrifício pessoal, a caridade como obrigação moral , tudo isto foi herdado de uma tradição religiosa. Destruir esta base e esperar que os cidadãos se comportem como se ela ainda existisse é ingenuidade. Ou no limite , má-fé.

Estamos a construir uma sociedade onde tudo é permitido, mas nada é sagrado. Onde a moral é subjetiva, e a ética depende do gosto do momento. O resultado? Uma juventude sem norte, instituições ocas, comunidades em ruína. O povo resiste como pode , agarrado à Fé que os intelectuais ridicularizam. Mas até quando resistirá?

Não é o povo que precisa de ser educado na laicidade. É o Estado que precisa ser reeducado na humildade. Porque um Estado que se afasta das convicções do seu povo não é moderno ; é autoritário. E um regime que marginaliza a fé não constrói progresso ; cava a própria decadência.